Tardígrado resiste a calor, frio e radiação; a NASA estuda
Ele cabe numa gota d'água, tem oito patas e passa por cima de calor, frio e seca que matam quase tudo. Por isso a NASA mandou tardígrados para a Estação Espacial Internacional: quer descobrir que truques ele usa contra a radiação para proteger astronautas.
Tardígrado Milnesium tardigradum em microscópio eletrônico de varredura. Foto: Schokraie et al./PLOS ONE, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.5, recortada.
O tardígrado tolera calor e frio extremos, décadas sem água e a radiação do espaço, segundo a NASA, e a agência o estuda para proteger astronautas. Em 2021 ela levou os bichos à Estação Espacial Internacional, no experimento Cell Science-04, liderado pelo biólogo Thomas Boothby, da Universidade de Wyoming.
O que é um tardígrado, e por que chamam de urso-d'água
O tardígrado é um animal microscópico de oito patas. A NASA conta que ele também é chamado de urso-d'água por causa do formato que mostra no microscópio, redondo e atarracado como um ursinho.
Mais de mil espécies já foram descritas, em mar, água doce e musgo úmido, segundo o artigo da Nature Communications de 2016. Todas precisam de água em volta para crescer e se reproduzir.
Os extremos que o tardígrado aguenta, um por um
O truque é virar uma bolinha seca. Sem água, o tardígrado perde quase toda a água do corpo e entra num estado de pausa chamado anidrobiose, que é reversível. Seco, ele aguenta temperaturas de −273 °C a quase 100 °C, segundo o artigo.
| O que o tardígrado aguenta | O que a fonte diz | Cuidado ao ler |
|---|---|---|
| Calor e frio | De −273 °C a quase 100 °C, desidratado (Nature Communications, 2016) | Vale para o bicho seco, em estado de pausa |
| Falta de água | Décadas sem água (NASA, 2021) | Só volta à atividade quando fica molhado de novo |
| Pressão | 7,5 GPa, perto de 74 mil atmosferas (Nature Communications, 2016) | Dado de estudo citado no artigo |
| Vácuo do espaço | Já sobreviveu exposto fora da estação espacial (NASA, 2021) | O Cell Science-04 mantém os bichos dentro da ISS |
| Radiação | Proteína Dsup cortou cerca de 40% as quebras de DNA em células humanas (2016) | Teste em células de laboratório, não em pessoas |
Tabela: Watts & Wild, com dados da NASA (2021) e do artigo de Hashimoto e colegas na Nature Communications (2016).
A conta da pressão: 7,5 GPa equivalem a cerca de 74 mil vezes a pressão do ar ao nível do mar. A NASA acrescenta que os bichos já sobreviveram ao vácuo do espaço, quando foram expostos do lado de fora da estação em outro experimento.
Por que a NASA mandou tardígrados para a ISS
Astronautas passam meses com microgravidade e mais radiação do que na Terra. Entender como o tardígrado aguenta o tranco pode orientar pesquisas de proteção para viagens longas, segundo a agência.
O Cell Science-04 foi anunciado no pacote da missão de carga CRS-22, em 20 de maio de 2021. A NASA explicou o estudo em 3 de junho. Em 13 de julho, o comandante Akihiko Hoshide trabalhou com os bichos na caixa de luvas do módulo Kibo.
O que Boothby quer descobrir com os genes
A equipe vai olhar quais genes do tardígrado ligam ou desligam no espaço, a curto prazo e nas gerações seguintes. "Queremos ver que 'truques' eles usam quando chegam ao espaço e, com o tempo, que truques os filhotes usam", disse Boothby à NASA.
Depois vem a prova: testar quais desses genes são mesmo necessários para o bicho se adaptar e sobreviver. Os tardígrados vivem e se reproduzem dentro de um equipamento chamado Bioculture System, desenvolvido pelo Centro Ames da NASA, na Califórnia.
A hipótese dos antioxidantes
Uma aposta da equipe é que o tardígrado produza muito mais antioxidantes para combater o dano da radiação no corpo. "Já vimos isso acontecer em resposta à radiação aqui na Terra", disse Boothby.
Se for isso, os genes ligados à produção de antioxidantes devem mudar no espaço. A NASA trata a ideia como uma das opções do bicho, e não como resposta fechada.
Uma proteína que protegeu células humanas
Em 2016, um grupo japonês liderado por Takuma Hashimoto publicou na Nature Communications o genoma do tardígrado Ramazzottius varieornatus e achou uma proteína só dele, a Dsup. Em células humanas de laboratório expostas a raios X, a Dsup reduziu em cerca de 40% as quebras no DNA.
É um bom sinal para quem pensa em proteção contra radiação. Mas foi um teste em células na placa, com 10 Gy de raios X, longe de qualquer remédio ou traje para astronautas.
Outro bicho de limite extremo aparece em a ameba que se reproduz a 63 graus, e um transparente e estranho, em a salpa, o bicho que parece alien.
O que o Cell Science-04 ainda precisa mostrar
A página da NASA é de junho de 2021 e descreve o início do estudo. Até 11 de outubro de 2026, a redação não localizou artigo com os resultados do Cell Science-04. A hipótese dos antioxidantes, portanto, segue como hipótese.
Também vale separar bicho seco de bicho ativo: os extremos da tabela valem sobretudo para o tardígrado em estado de pausa, e não para o animal em plena atividade.
Para acompanhar o experimento, a fonte é a página da NASA: Microscopic Superheroes to Help Protect Astronaut Health in Space (NASA). Outra vida que prospera longe do conforto está em o krill que se reproduz perto de fontes hidrotermais na Antártida.
Fontes: NASA, Microscopic Superheroes, 3 de junho de 2021. NASA, SpaceX CRS-22, 20 de maio de 2021. Hashimoto et al., Nature Communications, 2016. Foto NASA catalogada no Wikimedia Commons, 13 de julho de 2021.



