Animais e natureza

A salpa, um bicho transparente do mar aberto que lembra um alienígena, vive em longas correntes de clones que nadam girando como saca-rolhas e ajuda a mandar carbono para o fundo do oceano, mostram dois estudos

As salpas vivem à deriva no mar aberto e são parentes distantes dos vertebrados. Elas filtram partículas minúsculas com uma rede de muco, se clonam em correntes com dezenas de indivíduos e, quando explodem em número, multiplicam o carbono que afunda para longe da superfície do oceano.

Mergulhador de snorkel nada na superfície do mar acima de uma longa colônia transparente de salpa, com pontos escuros em fila

Mergulhador nada acima de uma longa colônia de salpas. Foto: Lars Plougmann/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

A salpa é um animal gelatinoso e transparente do mar aberto, do grupo dos tunicados. Apesar de lembrar uma água-viva, ela pertence ao filo dos cordados, o mesmo dos vertebrados.

A família das salpas, Salpidae, foi descrita por Lahille em 1888 e fica na classe Thaliacea, ordem Salpida, segundo o Registro Mundial de Espécies Marinhas, o WoRMS. Ela tem duas subfamílias aceitas, Cyclosalpinae e Salpinae.

O que é a salpa, afinal?

Os cientistas descrevem a salpa como um nadador colonial: muitos indivíduos ligados que funcionam como um só corpo. Cada um tem seus próprios jatos de nado, e todos são integrados pelo sistema nervoso, numa colônia que costuma ter a forma de uma corrente.

Esse jeito de viver em grupo é comum em mar aberto. Segundo estudo publicado em 2024 na Science Advances, alguns dos animais que mais fazem longas migrações verticais no oceano, subindo e descendo na coluna de água, são justamente nadadores coloniais como as salpas.

Um corpo em forma de barril

Cada indivíduo da corrente, chamado zooide, tem o corpo em forma de barril. Ele nada por jatos: os músculos se contraem, puxam água por uma abertura na frente e a expulsam por outra, atrás. Na medição do estudo, os jatos chegaram a 15 centímetros por segundo, saindo de uma abertura de só 0,3 milímetro.

Corrente de salpas transparentes em forma de barril, cada uma com um ponto escuro, na água azul
Corrente de blastozoides, a fase sexuada, da salpa Pegea confoederata. Foto: Silke Baron/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Correntes que nadam como saca-rolhas

A equipe de Sutherland e colegas filmou colônias da salpa Iasis cylindrica em mar aberto perto de Palm Beach, na Flórida, em julho de 2021, perto de Kailua-Kona, no Havaí, em abril de 2022, e na costa do Pacífico do Panamá, em fevereiro de 2017. As colônias observadas tinham de 10 a 30 centímetros.

As imagens em 3D mostraram que as colônias giram, ora no sentido horário, ora no anti-horário. Correntes com mais de 10 indivíduos trocam o giro em linha reta por uma trajetória em hélice, como um saca-rolhas. As correntes longas tinham em média 70 indivíduos.

O que a salpa come

A mesma água que move a salpa traz a comida. Ela filtra o plâncton com uma rede de muco que ocupa quase todo o corpo em forma de barril.

Segundo estudo publicado em 2023 na Nature Communications, esses animais são pouco exigentes: o que conta é o tamanho da partícula, de menos de 1 até 1.000 micrômetros. Entram no cardápio células menores que um micrômetro, além de pico, nano e microplâncton.

Como as correntes se formam

A salpa alterna duas fases. A solitária, chamada oozoide, se reproduz sem sexo e produz correntes de clones, os blastozoides, que formam a fase sexuada. Isso costuma acontecer quando cresce a quantidade de fitoplâncton na água, e marca o início de uma floração.

Quando amadurece, cada blastozoide carrega um embrião de oozoide, que nasce vivo. Depois de soltar o embrião, os blastozoides, que funcionavam como fêmeas, desenvolvem testículos. Para a Salpa thompsoni em águas antárticas, entre -1 e 2 °C, o ciclo completo foi estimado entre 2 e 9 meses, conforme o estudo.

Milhares por metro quadrado

Na floração estudada perto da Nova Zelândia, os blastozoides levaram de 12 a 42 dias para amadurecer, 23 em média. No começo, havia em média 22 indivíduos solitários grandes por metro quadrado de mar, com pico de 110, e elas mediam cerca de 39 milímetros.

Com o avanço da floração, as solitárias deram lugar às correntes de blastozoides pequenos. Eles chegaram a uma média de 1.120 indivíduos por metro quadrado.

Cocô que afunda depressa

A Salpa thompsoni é uma grande consumidora de plâncton e produz bolotas de fezes grandes, que afundam rápido. É por esse caminho que o carbono das algas comidas na superfície desce para o fundo do mar.

No começo da floração, o pastejo das salpas fez a produção das algas microscópicas cair cerca de um terço, segundo os autores.

Uma bomba de carbono no oceano Austral

Onde havia salpas, a quantidade de partículas exportadas para baixo da camada iluminada foi de 2 a 8 vezes maior, 5 vezes em média, do que onde elas não estavam. Essa exportação chegou a 46% da produção das algas, e a eficiência da chamada bomba biológica de carbono subiu de 5% para 28%.

Segundo os autores, essa eficiência está entre as mais altas já registradas no oceano. O oceano Austral cobre cerca de um terço dos oceanos do mundo e responde por 2 a 3 bilhões de toneladas de carbono por ano, de um total global de 5 a 13 bilhões levado pela bomba biológica.

A expedição perto da Nova Zelândia

Os dados vêm da viagem SalpPOOP, a bordo do navio de pesquisa Tangaroa, de 23 de outubro a 21 de novembro de 2018. A equipe, liderada por Moira Décima, trabalhou perto da elevação submarina de Chatham Rise, a leste da Nova Zelândia.

Para os autores, as florações de salpas são provavelmente frequentes e periódicas nas águas da Nova Zelândia. Lá, elas servem de comida para três espécies de oreos de águas profundas, uma de perca-do-mar e duas de warehou, e também para leões-marinhos-da-nova-zelândia e baleias-de-bryde, segundo o estudo.

Longa corrente de salpas em curva sobre um fundo rochoso, com peixes nadando ao redor
Longa corrente de salpas sobre um fundo rochoso, com peixes ao redor. Foto: Oregon Department of Fish & Wildlife/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

Salpas no lugar do krill?

O aquecimento dos oceanos causado pela mudança do clima pode estar abrindo caminho para esses animais avançarem rumo ao sul, perto da Antártida. Lá, segundo os autores, elas podem tomar o lugar do krill.

Essa expansão teria consequências importantes tanto para a cadeia alimentar quanto para a bomba de carbono, afirmam os pesquisadores.

O que os estudos deixam em aberto

Os números de carbono vêm de uma única viagem, na primavera de 2018, e de uma espécie, a Salpa thompsoni. Os autores dizem que os modelos do oceano vão ganhar com medidas como essas. O estudo do nado em hélice olhou só a Iasis cylindrica, e propõe testar as hipóteses com salpas robóticas.

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Perguntas rápidas

Salpa é água-viva?

Não. Apesar de gelatinosa e transparente, ela é um tunicado e pertence ao filo dos cordados, o mesmo dos vertebrados. Sua família se chama Salpidae.

O que a salpa come?

Ela filtra a água com uma rede de muco e come partículas de menos de 1 até 1.000 micrômetros, de células minúsculas a fitoplâncton e microplâncton. O que pesa na escolha é o tamanho.

Por que a salpa forma correntes?

Uma salpa solitária, que se reproduz sem sexo, produz correntes de clones. Isso costuma acontecer quando há mais fitoplâncton na água, e marca o início de uma floração.

Como a salpa ajuda a tirar carbono da superfície?

Ela produz bolotas de fezes grandes que afundam rápido. Num estudo perto da Nova Zelândia, a exportação de carbono foi em média 5 vezes maior onde havia salpas.

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