Sapo de 13 mm do ES já nasce com alerta de perigo crítico: vive só em 38 ha de mata entre casas e uma rodovia
Um sapo de 13 milímetros foi descrito por pesquisadores da USP e já chega à ciência com um pedido de proteção. Ele vive em um único pedaço de Mata Atlântica de 38 hectares, na Serra (ES), cercado por casas, eucalipto e rodovia. Os autores recomendam classificá-lo como criticamente em perigo.
Dryadobates alagoanus, espécie do mesmo gênero (não é o sapo novo), em Pernambuco, em junho de 2024. Foto: Gustavo Sandres, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Esse sapo é o Dryadobates caissara, e só se conhece uma população dele, num fragmento de mata de 38 hectares no litoral capixaba. A descrição saiu na revista Zootaxa e foi contada pela Agência FAPESP em 29 de setembro de 2026.
O sapo de 13 milímetros que passou 13 anos com outro nome
O Dryadobates caissara é a menor das oito espécies do gênero. Ele estava em coleções científicas desde 2011, guardado como Allobates olfersioides, uma espécie descrita em 1925.
Um sequenciamento de DNA publicado no ano passado mostrou que aquela linhagem era à parte. Para descrever a espécie de vez, faltavam adultos dos dois sexos, fotos em vida e gravações de canto.
Um fragmento de 38 hectares entre casas e rodovia
A espécie só foi achada entre os bairros de Costa Bela e Praia de Capuba, no município da Serra, no litoral do Espírito Santo. Em volta há casas, plantações de eucalipto e uma rodovia.
O sapo foi coletado nesse lugar com armadilhas de queda, baldes enterrados no nível do chão que interceptam bichos pequenos na serrapilheira. Segundo o resumo do artigo, a área de ocorrência tem menos de 1 km², e foi isso que levou os autores ao alerta máximo.
Como a mata encolheu de 54 para 38 hectares
Em 2011, o fragmento tinha 54 hectares. A conta do artigo, que usa km², é de 0,543 km² naquele ano e 0,384 km² em 2025: uma queda de cerca de 30%, ou perto de 16 hectares a menos.
A FAPESP lista o que aconteceu: uma propriedade rural derrubou a mata ao norte do brejo, um incêndio e o corte de árvores perto de Costa Bela levaram outra parte, e as casas chegaram a 150 metros do ponto da primeira coleta.
A busca de fevereiro de 2024 e o fragmento vizinho
A equipe voltou ao Espírito Santo em fevereiro de 2024. Começou pelo fragmento vizinho, de 79 hectares, onde apostava encontrar o sapo. Foram cinco dias e 40 horas de trabalho, sem nenhum registro.
O animal só apareceu no sexto dos sete dias de campo, na mata pequena. As duas manchas formavam uma área contínua antes do contorno rodoviário de Jacaraípe e do plantio de eucalipto.
A visita ao fragmento maior caiu em época de estiagem. Por isso os autores pedem nova amostragem na chuva, com monitoramento acústico, antes de concluir que o sapo não existe lá.
O canto que não para: 76 minutos, 1.147 cantos
A equipe gravou 76 minutos de vocalizações de quatro machos e mediu 1.147 cantos, em 13 séries de 13 a 152 notas. Nenhum canto saiu isolado. Nas outras três espécies do gênero com canto descrito, os machos usam os dois formatos, e as séries param em 45 notas.
Num teste, a gravação foi tocada num alto-falante: um macho deixou a área e outro se virou e caminhou até o som. Uma hipótese do artigo é que cada formato de canto fale com um público, fêmeas ou machos rivais.
Há ainda uma explicação de gasto de energia: a série longa se destaca no coro de machos, mas cansa mais, enquanto o canto isolado dura o dia todo. Para Taran Grant, a descoberta levanta mais perguntas do que respostas.
Por que um sapo de 13 milímetros sofre com mata pequena
As fêmeas escondem os ovos na serrapilheira. Quando eles eclodem, os machos carregam as larvas nas costas até a água, às vezes a mais de 100 metros de distância.
Grant explica que, no interior de florestas grandes, a temperatura fica baixa e a umidade alta o ano todo. Em fragmentos pequenos, fica mais quente e seco, a serrapilheira resseca, os ovos secam e os adultos correm risco de desidratação.
Ele acrescenta que o Super El Niño que começa a se formar deve piorar o quadro. A previsão do fenômeno está na matéria sobre o El Niño de 2026.
O que significa criticamente em perigo?
É uma categoria da lista de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a que antecede a extinção na escala. No resumo, os autores citam a distribuição extremamente limitada e a pressão humana contínua.
O que existe, por ora, é a recomendação dos pesquisadores feita na própria descrição. A FAPESP trata o caso como recomendação, e é assim que ele aparece aqui.
Um gênero que vai sumindo pela Mata Atlântica
O gênero Dryadobates foi proposto em 2025 por Grant e seis pesquisadores do Brasil e da Alemanha. Boa parte da reorganização usou museômica, técnica que extrai DNA de animais guardados em formol nos museus.
Uma das oito espécies foi descrita no ano passado a partir de material de museu e dada como extinta no mesmo artigo. Grant diz que ao menos três do Rio de Janeiro parecem extintas. Sobre a lista oficial do país, veja as nove espécies da fauna brasileira dadas como extintas.
Descrever uma espécie é o primeiro passo para protegê-la
Para Grant, atribuir uma classificação de risco na descrição chama atenção para o fato de a espécie entrar para a ciência precisando de proteção. A prioridade para o caissara é preservar o que resta do fragmento e deixar a vegetação se regenerar nas áreas degradadas.
Max Hideki Oliveira Homma, primeiro autor, lembra que o desmatamento avança mais rápido que a capacidade de descrever a mata derrubada. A Mata Atlântica fluminense tem outro caso de bicho salvo da beira do sumiço, o do mico-leão-dourado.
O resumo em cinco pontos
| Ponto | O que o artigo e a FAPESP registram |
|---|---|
| Tamanho | 13 milímetros, a menor das 8 espécies do gênero |
| Onde vive | Um único fragmento de 38 hectares, entre Costa Bela e Praia de Capuba, na Serra (ES) |
| Nome antigo em coleção | Allobates olfersioides, descrito em 1925 |
| Canto | 1.147 cantos de 4 machos, todos em séries de 13 a 152 notas |
| Proposta dos autores | Classificar como criticamente em perigo pelos critérios da IUCN |
Arte: Watts & Wild, com dados da Agência FAPESP (29/09/2026) e do resumo do artigo na Zootaxa.
O que a descrição ainda não fecha
A classificação como criticamente em perigo é recomendação dos autores, e o sapo é conhecido de um só lugar. A ausência no fragmento de 79 hectares vale para uma visita em estiagem, e o próprio texto pede nova busca na chuva.
O canto vem de apenas quatro machos, e o papel de cada formato de canto é hipótese. A foto de capa mostra um parente do gênero, porque não há imagem livre do caissara.
Fontes: Agência FAPESP, 29 de setembro de 2026. Zootaxa, vol. 5845, nº 2, resumo do artigo sobre a nova espécie de Dryadobates.



