Animais e natureza

Um polvo do tamanho de uma mão dobra os oito braços, comprime o corpo e finge ser uma cobra-do-mar listrada para convencer o predador de que virou outro bicho, sem nunca tentar se esconder

Batizado de polvo-mímico, o Thaumoctopus mimicus vive em fundos de areia do Indo-Pacífico e virou caso de estudo por copiar até 15 animais marinhos diferentes. Veja o vídeo com a transformação e entenda se essa espécie aparece no litoral brasileiro.

Polvo mímico com os braços esticados imitando o padrão listrado de uma cobra-do-mar no fundo do oceano

O polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) dobra os braços em faixas para copiar a cobra-do-mar listrada. Frame de vídeo: Reprodução/YouTube (Indoona).

O polvo Thaumoctopus mimicus, batizado de polvo-mímico, vive em fundos arenosos do Indo-Pacífico e muda a cor, a textura e o formato do corpo para imitar até 15 animais marinhos diferentes, como peixe-leão, linguado e cobra-do-mar listrada, uma estratégia descrita pelo Smithsonian como mimetismo dinâmico, distinta da simples camuflagem usada por outros polvos

O polvo mímico não faz o que a maioria dos bichos ameaçados faz. Em vez de fugir ou sumir no fundo do mar, ele se planta na frente do predador e muda de forma. O resultado costuma parecer outro animal, geralmente bem mais perigoso do que ele.

O comportamento foi descrito pela primeira vez em artigo científico publicado em 2001 por Mark Norman, Julian Finn e Tom Tregenza, na revista Proceedings of the Royal Society. Em 2005, Norman e F. G. Hochberg deram à espécie o nome científico Thaumoctopus mimicus, batizada pelo Smithsonian Ocean como a "mestra do disfarce" dos mares.

Sim, esse polvo existe de verdade, mas ele não vive no Brasil. A espécie só foi registrada em águas tropicais do Indo-Pacífico, como Indonésia e Filipinas. O que muda o jogo é a forma como ele se defende: em vez de esconder o corpo, ele exagera a própria silhueta até virar outro bicho.

O polvo-mímico transformando o corpo em pleno mergulho. Vídeo: Reprodução/YouTube (Indoona).

O polvo-mímico só foi descrito oficialmente em 2001, por biólogos australianos

Mergulhadores esportivos avistaram o animal pela primeira vez em 1998, na costa de Sulawesi, na Indonésia. Só em 2001 ele ganhou descrição científica formal, depois que os pesquisadores registraram o comportamento em campo.

O artigo batizou o fenômeno de mimetismo dinâmico, porque o mesmo polvo alterna entre disfarces diferentes conforme o predador que se aproxima, algo nunca documentado antes num só animal.

Ele muda de forma para imitar até 15 animais marinhos diferentes

Entre as imitações mais estudadas estão o peixe-leão, cheio de espinhos venenosos, a serpente-marinha listrada e o linguado, um peixe achatado que se arrasta pelo fundo. As três aparecem no vídeo logo abaixo.

Cada imitação usa uma parte diferente do corpo do polvo. Para virar cobra-do-mar, ele enfia seis braços num buraco na areia e deixa só dois de fora, ondulando como se fossem a cabeça e a cauda do réptil.

Polvo mímico nadando sobre a areia com os braços listrados esticados
Fora do disfarce de cobra, o polvo volta a nadar espalhando os oito braços sobre a areia. Frame de vídeo: Reprodução/YouTube (Indoona).

Como o polvo-mímico escolhe qual animal vai imitar?

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Essa é a pergunta que mais aparece sobre a espécie. Segundo os cientistas que descreveram o comportamento, o polvo avalia o tipo de ameaça e escolhe a imitação que funciona melhor contra aquele predador específico.

Diante de um peixe territorial, ele costuma copiar o peixe-leão venenoso. Diante de um predador que ataca do fundo, a cobra-do-mar listrada funciona melhor, porque poucos animais arriscam atacar uma serpente marinha.

A espécie vive em fundos de areia do Indo-Pacífico, sem onde se esconder

O habitat do polvo-mímico explica por que ele não aposta em fugir. Ele ocupa planícies arenosas e lamacentas, sem recife nem pedra por perto para servir de esconderijo.

Num ambiente aberto como esse, virar outro bicho na frente do predador rende mais chance de sobrevivência do que tentar sumir no lugar errado, segundo a descrição do comportamento feita pelo Smithsonian Ocean.

Comentários do público no vídeo do polvo mímico no YouTube
O que o público comentou no vídeo. Reprodução/YouTube.

O que quem assistiu ao vídeo do polvo-mímico comenta

Nos comentários do vídeo, @the.monstrosity escreveu achar fascinante que algumas imitações do polvo ainda não foram identificadas, e brincou imaginando que ele poderia estar copiando um animal desconhecido pela ciência.

@misusatriyo destacou que o polvo não só muda de cor e forma, como parece saber exatamente quando usar cada disfarce. Já @TheQuark6789 brincou que, às vezes, a melhor estratégia do bicho é simplesmente ficar parado e "fingir ser um seixo chato".

O polvo-mímico existe no litoral brasileiro?

Não. Todos os registros confirmados do Thaumoctopus mimicus vêm de águas tropicais do Indo-Pacífico, principalmente Indonésia e Filipinas, segundo o Smithsonian Ocean e o catálogo de espécies do gênero publicado por Norman e Hochberg.

Não existe nenhum estudo ou registro fotográfico que aponte essa espécie no litoral do Brasil. O bicho fica restrito àquela faixa de oceano do outro lado do planeta.

O Brasil tem seu próprio polvo camuflador, estudado em Fernando de Noronha

Quem faz um papel parecido por aqui é o Octopus insularis, espécie dominante nas águas rasas do litoral Norte e Nordeste do Brasil, incluindo o Arquipélago de Fernando de Noronha.

É um parente de longe do mesmo bicho que, do outro lado do mundo, ajuda a diferenciar o cateto do queixada na mata brasileira: cada espécie usa sua própria estratégia contra o predador.

A pesquisadora Tatiana Leite, da Universidade Federal de Santa Catarina, estuda o polvo brasileiro há 20 anos. Ela coordena um laboratório na Universidade Federal do Rio Grande do Norte dedicado à espécie, segundo artigo publicado no Brazilian Journal of Oceanography.

O Octopus insularis muda de cor e textura para se camuflar contra o fundo do mar, mas não chega a copiar a forma de outros animais como faz o parente do Indo-Pacífico.

O vídeo com a transformação passou de 160 mil visualizações

O registro publicado pelo canal Indoona em maio de 2023 já passou de 160 mil visualizações no YouTube, com quase 2 mil curtidas e centenas de comentários.

Os mais de cinco minutos de vídeo mostram o polvo alternando entre pelo menos três disfarces diferentes num único mergulho, o tipo de sequência que raramente aparece completa numa única filmagem.

O que a ciência ainda não explicou sobre o polvo-mímico

Mesmo 25 anos depois da primeira descrição científica, os pesquisadores ainda não entendem por completo como o sistema nervoso do polvo decide, em segundos, qual disfarce usar diante de cada ameaça.

Também não há consenso sobre quantos animais a espécie realmente consegue imitar. Fontes como o Smithsonian falam em até 15, mas boa parte dessas imitações depende da interpretação de quem observa o vídeo, não de um registro fechado pela ciência.

O polvo-mímico segue intrigando pesquisadores marinhos pelo mundo

Passadas mais de duas décadas da descoberta, o Thaumoctopus mimicus continua sendo um dos poucos animais conhecidos capazes de alternar entre múltiplas imitações diante de ameaças diferentes.

A espécie segue restrita ao Indo-Pacífico, mas o Brasil tem no Octopus insularis, estudado em Fernando de Noronha, um lembrete de que a camuflagem também é ciência séria por aqui.

Assim como a cobra que picou uma turista numa trilha das Cataratas do Iguaçu mostrou como um bicho pode surpreender quem menos espera, o polvo-mímico prova que a natureza tem truques que parecem roteiro de filme. Você já sabia que existia um bicho capaz de imitar outros animais? Deixe sua opinião nos comentários.

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