Bastam 12,5% de cidade em volta para um riacho da Grande São Paulo perder quase toda a sua cadeia alimentar, mostra estudo em 30 microbacias
Pesquisadores da UFSCar e da USP amostraram 30 microbacias do Alto Tietê e viram a vida dos córregos desabar já nas primeiras etapas da urbanização. A teia alimentar de uma microbacia florestada tem 190 interações estimadas, e a de uma totalmente urbanizada tem 3. O estudo saiu na Nature Cities em agosto.
Córrego em área urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Foto: Luis Schiesari/CBioClima, divulgação via Agência Fapesp, recortada.
O colapso aparece cedo: os riachos já perdem quase toda a vida com apenas 12,5% de cobertura urbana na microbacia. Quem afirma é o pesquisador Luis Schiesari, da USP, segundo a Agência Fapesp, e o dado vem de 30 microbacias do Alto Tietê, na Região Metropolitana de São Paulo.
O que os pesquisadores mediram nos córregos
A equipe escolheu 30 microbacias para cobrir todos os estágios de ocupação, das inteiramente cobertas de Mata Atlântica às inteiramente urbanizadas. Em cada uma, coletou peixes e invertebrados em riachos de cabeceira, os pequenos cursos d'água que dão origem aos rios maiores.
Com o tamanho do corpo e a dieta de cada animal, reconstruiu quem come quem em cada local. Depois estimou a energia que passa de presa para predador pelo ecossistema.
Quando os riachos da Grande São Paulo perdem a vida
A teia alimentar tem 190 interações estimadas nas microbacias totalmente florestadas e 3 nas totalmente urbanizadas. Segundo Schiesari, o colapso já se manifesta com 12,5% de cobertura urbana, mesmo com muita mata em volta.
Para ele, a degradação aparece logo nas primeiras etapas da urbanização e não de forma gradual. A pesquisa mostra uma queda brusca, e não um declínio lento que acompanha cada casa nova.
A energia do riacho cai mais de mil vezes
Menos conexões significam menos energia circulando. Os pesquisadores estimaram que o fluxo de energia nos riachos mais afetados pela urbanização é 1.446 vezes menor que nos riachos de floresta.
O professor Victor Saito, da UFSCar, compara a teia a uma malha: quanto mais fios, mais caminhos para a energia. A cidade vai tirando fios até sobrar uma rede minúscula e frágil.
| Comparação no estudo | Floresta | Cidade |
|---|---|---|
| Cobertura da microbacia | Totalmente florestada, Mata Atlântica | Totalmente urbanizada |
| Interações alimentares estimadas | 190 | 3 |
| Fluxo de energia entre as comunidades | Referência | 1.446 vezes menor nos riachos mais afetados |
Tabela: Watts & Wild, com dados da Agência Fapesp sobre o estudo publicado na Nature Cities em agosto de 2026.
O tamanho do bicho decide quem fica
A perda não foi ao acaso. O tamanho do corpo dita quanto recurso o animal precisa e quem são seus predadores e suas presas. Nos ambientes urbanos, a seleção por tamanho desmonta o sistema inteiro, segundo os autores.
Por isso o estudo vai além de contar espécies. Ele junta biodiversidade, tamanho dos organismos, estrutura da teia e fluxo de energia e de carbono, e mostra mudança em cada um desses níveis.
O que isso muda para a água da região
Teias complexas deixam a matéria correr devagar, o que favorece a quebra de poluentes tóxicos. Em riachos de teia simples, ela corre rápido e se deposita sem processamento completo nos pontos mais baixos do terreno.
É nos pontos baixos que ficam reservatórios de abastecimento, como a represa Billings, que recebe água de várias microbacias amostradas. A água abastece mais de 22 milhões de moradores da região, segundo o release.
Quem lê isso em Mauá, Mogi ou Santo André?
O estudo cobre microbacias do Alto Tietê, a cabeceira do rio que corta a metrópole. Qualquer córrego de bairro com muro, esgoto e pouco mato nas margens entra na mesma lógica: o que importa é quanto da área em volta virou cidade.
Esse raciocínio ajuda a ler outras notícias do site, como a de capivaras e jacarés que entram em bairros e a da lista de peixes ameaçados, que chegou a 490 espécies. A vida de água doce perde espaço onde a cidade avança.
Preservar o que resta ou refazer o que quebrou
Para os pesquisadores, preservar os riachos que ainda estão em boas condições deve ser prioridade. Nos já degradados, as medidas citadas são tratamento de esgoto, melhora da qualidade da água e recomposição da vegetação nas margens.
Saito diz que recuperar um riacho não é só melhorar a aparência ou a água. É devolver as condições para que a biodiversidade, as interações e o fluxo de energia voltem a funcionar. Quem já viu a Mata Atlântica reagir à proteção, como no caso do mico-leão-dourado, sabe que isso leva tempo.
Um recorte de 30 microbacias, não um retrato de todos os córregos
Os números de 190 e 3 comparam os extremos: microbacias totalmente florestadas e totalmente urbanizadas. São interações estimadas pelo modelo da equipe, e não contadas uma a uma no campo.
Os dados vêm de peixes e invertebrados coletados nos riachos, não de análise da água tratada. O estudo mostra o que a urbanização faz com a vida do córrego e liga isso aos reservatórios, mas não diz que a água da torneira piorou.
Fontes: Agência Fapesp, expansão urbana causa colapso ecológico em riachos da Região Metropolitana de São Paulo. Saito, Schiesari e outros, Urban expansion and the collapse of tropical stream ecosystems, Nature Cities, agosto de 2026. O artigo completo pode ser lido no link da revista.



