Animais e natureza

Capivaras e jacarés aparecem cada vez mais em bairros de cidades como Imperatriz, no Maranhão, e Botucatu, no interior de São Paulo, à medida que a expansão urbana avança sobre áreas alagadas, canais e represas

Casos recentes em cidades diferentes do Brasil mostram capivaras e jacarés cada vez mais perto de bairros residenciais. Estudos do Sema-DF, da Universidade Católica de Brasília e do ICMBio explicam a adaptação das espécies e o que muda para quem mora perto de lagos, canais e represas urbanas.

Capivaras em área alagada perto de bairros de uma cidade do Brasil, cenário que também atrai jacarés para as margens urbanas

Capivaras na beira do Rio Sorocaba, perto da Ponte Benito Sevilha, em Votorantim (SP), em abril de 2015: o tipo de margem urbanizada que a espécie vem ocupando em várias cidades do país. Foto: P.H. Messias / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Imagem original, sem recorte.

Em Imperatriz, no Maranhão, moradores do bairro Vila Redenção flagraram uma capivara caminhando pelas ruas na noite de 28 de março de 2026, segundo o portal Imirante. Cerca de dois meses depois, em Botucatu, no interior de São Paulo, um jacaré foi visto numa lagoa do bairro da Mina, a cerca de 30 km do centro da cidade.

Os dois casos, em estados e biomas diferentes, ilustram um padrão que pesquisadores de universidades e órgãos ambientais vêm documentando. Capivaras e jacarés ocupam cada vez mais bairros, canais e represas nas bordas das cidades brasileiras, à medida que a mancha urbana avança sobre áreas alagadas.

A causa apontada por pesquisadores não é o animal indo até a cidade, mas a cidade avançando sobre o habitat dele. Segundo estudo do Sema-DF com a Universidade Católica de Brasília e avaliação de risco do ICMBio, a expansão imobiliária sobre áreas alagadas favorece a presença dessas espécies perto de bairros já construídos.

A recuperação de matas ciliares dentro de zonas urbanizadas, somada à fartura de água e vegetação em lagos e represas, também atrai capivaras e jacarés para perto de onde as pessoas moram, segundo o mesmo estudo.

Os casos que mostram o padrão em cidades diferentes

Em Imperatriz, a capivara foi vista de noite, andando por perto da Vila Redenção e também teria sido avistada no Parque das Estrelas, bairro próximo, segundo o Imirante. O texto não registra declaração de órgão ambiental, mas orienta a população a acionar o Corpo de Bombeiros do Maranhão pelo telefone 193 em casos assim.

Em Botucatu, a Prefeitura confirmou que já tinha conhecimento do jacaré na lagoa do bairro da Mina e informou que equipes estavam monitorando a situação, segundo o Avaré Notícias. A orientação oficial foi não se aproximar do animal, não oferecer comida e não tentar capturá-lo, com a Defesa Civil acompanhando o local.

Por que os lagos e represas das cidades viraram habitat de capivara

Um estudo do Sema-DF (Secretaria de Meio Ambiente e Proteção Animal do Distrito Federal) com a Universidade Católica de Brasília monitorou a orla do Lago Paranoá, em Brasília, entre julho de 2021 e outubro de 2022.

Foram 13 campanhas de contagem, com cerca de 1.300 km percorridos, e densidade média de 4,2 capivaras por quilômetro de margem, segundo o levantamento.

A remoção de cercamentos e a recuperação de áreas de preservação permanente ao redor do lago aumentaram a movimentação das capivaras para dentro de zonas ocupadas por pessoas, segundo o levantamento, que também identificou pontos de maior concentração da espécie ao longo da orla.

Capivara macho adulto fotografado no Pantanal, no habitat natural da espécie
Capivara adulta fotografada no Pantanal, em Mato Grosso, em setembro de 2015, no tipo de ambiente natural que a espécie ocupava antes da expansão urbana sobre áreas alagadas. Foto: Charles J. Sharp / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem original, sem recorte.

O jacaré-de-papo-amarelo também aprendeu a viver perto do concreto

O jacaré visto em Botucatu é, na região, geralmente um jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), espécie que ocorre do Rio Grande do Norte até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.

A espécie reúne mais de 70% da sua distribuição mundial dentro do Brasil, segundo avaliação de risco de extinção publicada pelo ICMBio na revista Biodiversidade Brasileira.

A espécie foi classificada como "menos preocupante" pelos critérios da IUCN justamente por causa da grande área de distribuição e da "aparente capacidade de colonizar ambientes antrópicos", como canais, represas e lagoas dentro de zonas urbanizadas, segundo o mesmo documento do ICMBio.

Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) fotografado próximo à água, espécie que ocupa canais e lagoas urbanas em vários estados do Brasil
Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) fotografado em julho de 2011, a espécie mais associada aos avistamentos em áreas urbanas do interior do Brasil. Foto: Adriana Araujo Costa / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Imagem original, sem recorte.

A cidade que cresce sobre a área alagada, não o animal que invade a cidade

Pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso, Eveline Teixeira Baptistella passou quatro anos estudando animais silvestres em ambiente urbano e descreveu, em entrevista, encontrar bichos "totalmente adaptados ao contexto urbano" por causa da expansão das cidades e da redução das áreas verdes.

Baptistella chama esse processo de "auto-domesticação": animais que, pressionados pela perda de habitat, passam a tolerar proximidade com pessoas, ruído e estruturas urbanas que antes evitariam, segundo a pesquisadora.

O carrapato-estrela é o elo entre a capivara e a febre maculosa

A febre maculosa brasileira é transmitida pela picada de carrapatos infectados pela bactéria Rickettsia rickettsii, que podem ser encontrados em animais como capivaras, cavalos e cães, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. No interior paulista, o principal vetor é o Amblyomma sculptum, o carrapato-estrela, associado à presença de capivaras.

A capivara infectada carrega a bactéria no sangue por 10 a 14 dias e, nesse período, pode contaminar até 25% dos carrapatos que se alimentam dela, segundo levantamento técnico do Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP). Depois disso, o animal fica imune e deixa de participar do ciclo de transmissão.

Fêmea de carrapato do gênero Amblyomma, família próxima do carrapato-estrela associado à febre maculosa no Brasil
Fêmea de carrapato Amblyomma cajennense, espécie próxima do carrapato-estrela (Amblyomma sculptum) associado à febre maculosa no Brasil, fotografada nos Estados Unidos em abril de 2016. Foto: Insects Unlocked / Bianca Sicich, Universidade do Texas, domínio público (CC0). Imagem original, sem recorte.

Quantos casos e mortes a febre maculosa já causou em São Paulo em 2026

São Paulo registrou 19 casos confirmados e 18 óbitos por febre maculosa em 2026, segundo balanço divulgado em 23 de julho pela Agência SP, veículo oficial do governo do estado. Os casos se concentram nas regiões de vigilância epidemiológica de Piracicaba, Campinas, Sorocaba, Santo André e São José dos Campos.

Segundo reportagem do Jornal da USP, o professor Marco Aurélio Ferreira, da Faculdade de Saúde Pública, explica que a infecção ocorre principalmente pelo contato com carrapatos infectados encontrados em vegetação, margens de rio e locais frequentados pelos animais hospedeiros. Menos de 1% dos carrapatos carrega a bactéria, segundo o CRMV-SP.

Nem todo lago com capivara tem risco de febre maculosa

O próprio estudo do Sema-DF com a UCB, no Lago Paranoá, analisou 252 amostras de carrapatos coletados na orla e não encontrou nenhuma com a Rickettsia rickettsii, a bactéria que causa a febre maculosa. Apenas 0,1% das amostras tinha uma espécie de Rickettsia do grupo febre maculosa, e 16% carregava a Rickettsia bellii, que não causa doença em humanos.

O levantamento também mostrou relação fraca entre a presença de capivaras e a abundância de carrapatos ao longo da orla, o que indica que os carrapatos usam outros hospedeiros na região, e não só a capivara, segundo o estudo.

O que fazer ao encontrar uma capivara ou um jacaré perto de casa

A orientação da Prefeitura de Botucatu para o caso do jacaré foi clara: não se aproximar, não oferecer comida e não tentar capturar o animal, deixando o manejo para as equipes técnicas. Em Imperatriz, a recomendação repassada pelo Imirante foi acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.

Para quem mora perto de capivaras, especialistas do estudo do Lago Paranoá recomendam manter distância mínima de 10 metros do animal, principalmente de fêmeas com filhotes, que reagem de forma mais defensiva à aproximação de pessoas e cães.

Por que alimentar capivara ou jacaré piora o problema

Alimentar capivaras e jacarés com comida humana prejudica a busca natural do animal por alimento na vegetação aquática. A prática também favorece a concentração da espécie em poucos pontos, o que aumenta o risco de conflitos com pessoas e cães, segundo orientações repassadas por biólogos que estudam a espécie em áreas urbanas.

No caso dos jacarés, associar um mesmo local à comida faz com que os animais voltem sempre ao mesmo ponto, o que já foi registrado em canais urbanos de outras cidades brasileiras, aumentando a chance de disputas territoriais entre os próprios animais.

O que ainda não está medido sobre esse fenômeno

Os dados aqui reunidos vêm de fontes e locais diferentes. O estudo de carrapatos é do Lago Paranoá, em Brasília, os números de febre maculosa são do interior de São Paulo, e os casos de Imperatriz e Botucatu são pontuais, sem levantamento que meça quantos avistamentos desse tipo acontecem por ano no Brasil.

Não existe, nas fontes consultadas, uma contagem nacional de quantos bairros brasileiros têm capivaras ou jacarés residentes. Também falta um comparativo direto entre o número de avistamentos deste ano e o de anos anteriores, o que reforça a necessidade de mais estudos locais como o do Distrito Federal.

Um caso semelhante e mais pontual foi registrado recentemente em Buritama (SP), onde um jacaré apareceu na porta de uma casa em um bairro da cidade. Outro fator de risco à fauna silvestre em áreas humanizadas apareceu no estudo sobre o tamanduá-bandeira atropelado em rodovias do Cerrado paulista.

A situação segue sendo monitorada nas duas cidades

Em Botucatu, a Prefeitura e a Defesa Civil seguiam acompanhando o jacaré na lagoa do bairro da Mina na época da publicação da reportagem do Avaré Notícias, sem remoção do animal até então.

Encontros semelhantes com fauna silvestre perto de casa, como o de uma gambá dentro de uma residência, também têm levado moradores a buscar orientação de órgãos ambientais antes de agir por conta própria.

Já em Imperatriz, o portal Imirante não registrou atualização sobre o destino da capivara vista na Vila Redenção, o que é comum nesse tipo de ocorrência: o animal costuma seguir caminho por conta própria, sem necessidade de resgate.

Você já viu uma capivara ou um jacaré perto de onde mora? Conte como foi nos comentários.

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