Cientistas acham duas aranhas-do-mar novas no Canadá: uma tem olho vermelho, pernas peludas e boca de três lábios, e a outra vive coberta de parasitas
São as primeiras espécies de aranha-do-mar descritas no mar de Salish, entre o Canadá e os Estados Unidos, em quase cem anos. Uma tem pernas peludas e se penteia com as patas; a outra não consegue se limpar e anda coberta de parasitas. Cada uma mede poucos milímetros.
A Callipallene pilosuspedes, uma das duas aranhas-do-mar novas. Foto: Cormac Toler-Scott/Universidade da Colúmbia Britânica, divulgação.
Olho vermelho, pernas cobertas de espinhos que parecem pelos e uma boca em triângulo com três lábios. Parece bicho de filme de terror, mas mede poucos milímetros e vive no fundo do mar do Canadá.
Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) descreveram duas espécies novas de aranha-do-mar: a Callipallene pilosuspedes e a Tanystylum kiixin. Elas foram coletadas em mergulhos de até 18 metros no mar de Salish e são as primeiras descritas ali em quase um século, informou a universidade em 23 de setembro.
A aranha-do-mar de pernas peludas e olho vermelho
O nome Callipallene pilosuspedes vem do latim para "pés peludos", por causa dos espinhos longos e curvos que cobrem a parte de baixo das pernas. Ela tem olhos vermelhos, uma tromba curta com garras para segurar a comida antes de morder e uma boca triangular de três lábios, cheia de filamentos sensoriais.
Ela também é caprichosa com a higiene. Ao microscópio, os pesquisadores viram o animal enrolar nas pernas um par de patas especiais, chamadas ovígeros, e usar os espinhos em forma de pente dessas patas para se limpar. Só um exemplar dessa espécie foi encontrado.
A outra vive coberta de parasitas
A Tanystylum kiixin tem os ovígeros bem menores e menos ágeis, e por isso não consegue se pentear direito. Resultado: além da sujeira acumulada, ela foi encontrada várias vezes coberta de parasitas minúsculos. O autor principal, Cormac Toler-Scott, chamou isso de "um ecossistema dentro de um ecossistema dentro de um ecossistema".
O nome kiixin, que se pronuncia "quí-rin", homenageia um antigo sítio de aldeia indígena perto de onde os primeiros exemplares foram coletados. A palavra vem do som das ondas batendo na base da aldeia.
Segundo o artigo científico, essa espécie vive agarrada a um hidroide, a Plumularia setacea, um parente das águas-vivas que forma colônias parecidas com plantinhas.
Poucos milímetros: medimos pela régua da foto
As fotos divulgadas pela UBC trazem uma barra de escala de meio milímetro. Na imagem da Tanystylum kiixin, essa barra ocupa 125 pixels, e o animal, de uma ponta de perna à outra, ocupa cerca de 1.300. A conta dá cerca de 5 milímetros de envergadura, com o corpo central menor que 1 milímetro.
Pela mesma régua, a Callipallene pilosuspedes da foto de abertura tem por volta de 4 milímetros de ponta a ponta. Para comparar, a universidade lembra que há aranhas-do-mar com mais de 70 centímetros na Antártida.
Aranha-do-mar é aranha?
Apesar do nome, aranha-do-mar não é aranha. É um picnogônido, um artrópode que nunca saiu do mar, aparentado dos escorpiões, das aranhas e dos límulos. O grupo surgiu há cerca de 500 milhões de anos e tem espécies com até 12 pernas.
"Muitas espécies de água rasa são bem pequenas e vivem como parasitas de organismos maiores, usando um aparelho estranho chamado probóscide para sugar os fluidos do hospedeiro", explicou Toler-Scott à universidade.
Respira pela pele, e quem cuida dos ovos é o pai
Elas respiram pela pele. As fêmeas têm ovários espalhados pelas pernas, e os ovos saem por um poro. No acasalamento, o macho recolhe os ovos, cola tudo em cachos no próprio corpo e cuida da cria. Na foto acima, os pontos brancos nas pernas da Tanystylum kiixin são os ovos.
Por que achar duas aranhas minúsculas importa?
A pesquisa foi o mestrado de Toler-Scott em zoologia. Ele queria saber como as aranhas-do-mar sofrem com a mudança do clima e a ação humana, já que os invertebrados marinhos do mar de Salish estão em situação de risco, e não achou quase nada: ninguém sabia direito quais espécies viviam ali.
O estudo, publicado na revista Organisms Diversity & Evolution, descreve sete espécies da região com microscopia eletrônica e DNA, sequencia pela primeira vez várias delas e cria um guia de identificação. "Eu tive só uma temporada de coleta, mas com certeza há mais diversidade lá que ainda não documentamos", disse o pesquisador.
E no Brasil, tem aranha-do-mar?
Tem, e é pouco estudada. Um levantamento da Universidade Federal da Paraíba, publicado na revista Zootaxa em 2018, conta que os registros no país começaram nos anos 1840.
Entre os anos 1940 e 1960, cerca de 40 trabalhos registraram 65 espécies no litoral brasileiro, mas os autores dizem que o conhecimento sobre o grupo ainda é pobre e fragmentado.
O caso de Paranaguá: larvas crescendo dentro de outro bicho
Um dos casos mais curiosos foi no Paraná. Em placas de plástico instaladas num iate clube de Paranaguá entre 2007 e 2008, pesquisadores acharam larvas de aranha-do-mar crescendo dentro dos pólipos de um hidroide.
Das 88 colônias analisadas, 19 estavam parasitadas. Um mesmo pólipo chegou a ter seis larvas dentro e ficava com os tentáculos atrofiados ou sem eles, segundo o artigo publicado na revista Biota Neotropica.
Aqui no site, outras espécies novas incluem a rã-de-vidro de Goiás e a rã da floresta alagada do Acre. Do mar, tem a história do tubarão preso num canal da Coreia.
Perguntas rápidas
Aranha-do-mar é uma aranha?
Não. É um picnogônido, um artrópode que só vive no mar. O grupo é aparentado dos escorpiões, das aranhas e dos límulos e surgiu há cerca de 500 milhões de anos, segundo a Universidade da Colúmbia Britânica.
Qual é o tamanho das aranhas-do-mar novas?
São minúsculas. Pela régua de meio milímetro da foto divulgada pelos pesquisadores, a Tanystylum kiixin mede cerca de 5 milímetros de uma ponta de perna à outra. Algumas aranhas-do-mar da Antártida passam de 70 centímetros.
Tem aranha-do-mar no Brasil?
Tem. Um levantamento da Universidade Federal da Paraíba publicado na revista Zootaxa em 2018 conta que cerca de 40 trabalhos feitos entre os anos 1940 e 1960 registraram 65 espécies no litoral brasileiro.



