Animais e natureza

Inpa participa da descrição do Electrophorus voltai, peixe elétrico encontrado em rios de altitude da Amazônia brasileira, capaz de soltar até 860 volts em uma única descarga

Em 2019, pesquisadores do Inpa e do Smithsonian mostraram que o que se chamava de "poraquê" ou "enguia elétrica" na verdade são três espécies diferentes. Uma delas, batizada de Electrophorus voltai, soltou uma descarga de 860 volts em laboratório, a maior já registrada em qualquer animal do planeta.

Em 2019, um estudo do Inpa e do Smithsonian mostrou que o peixe conhecido como poraquê é, na verdade, três espécies diferentes. Uma delas, o Electrophorus voltai, encontrado em rios de altitude da Amazônia brasileira, soltou em laboratório uma descarga de 860 volts, a maior já registrada em qualquer animal vivo estudado até hoje.

Peixe elétrico do gênero Electrophorus visto de frente dentro de um aquário, entre plantas aquáticas

Peixe elétrico do gênero Electrophorus, o mesmo gênero da espécie recém-descrita no estudo. Foto: Oleksandr Zakletsky/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

Durante anos, cientistas trataram todo peixe elétrico da América do Sul como uma única espécie, o Electrophorus electricus. Um estudo publicado em 10 de setembro de 2019 na revista Nature Communications, com participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), derrubou essa ideia, segundo nota do Inpa.

A equipe, liderada pelo pesquisador Carlos David de Santana, do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, analisou 107 espécimes coletados em rios da Amazônia. O resultado mostrou que existem três espécies distintas de peixe elétrico, duas delas novas para a ciência.

A mais forte das três se chama Electrophorus voltai e, segundo o estudo, é capaz de emitir descargas de até 860 volts, o maior valor já medido em um animal vivo, 210 volts acima do recorde anterior.

Quem descreveu a nova espécie e onde ela foi encontrada

O trabalho reuniu pesquisadores do Inpa, entre eles Jansen Zuanon, o técnico Renildo de Oliveira e o então doutorando Douglas Bastos, ao lado da equipe do Smithsonian. Juntos, eles cruzaram DNA, morfologia externa, esqueleto e distribuição geográfica dos espécimes coletados.

Segundo o Inpa, o Electrophorus voltai vive em rios que drenam o chamado escudo brasileiro, em altitudes acima de 300 metros, em córregos, cachoeiras e rios de águas claras e bem oxigenadas nos estados do Pará, Amazonas e Amapá.

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Por que a descarga do Electrophorus voltai é tão mais forte

O estudo não aponta uma causa única confirmada para a diferença de voltagem entre as três espécies. O que os pesquisadores registraram é o resultado: em testes, o E. voltai superou a marca de 650 volts que era atribuída até então ao peixe elétrico comum.

Antes desse trabalho, o recorde de descarga elétrica em um animal já pertencia a um peixe do gênero Electrophorus. A novidade foi descobrir que esse recorde era, na realidade, de uma espécie nunca antes separada das demais.

O que é o gênero Electrophorus, o poraquê da Amazônia?

Apesar do nome popular "enguia elétrica", o Electrophorus não é uma enguia de verdade. Ele pertence à ordem Gymnotiformes, o mesmo grupo dos peixes-faca, e é aparentado de bagres e piranhas, não das enguias marinhas.

O corpo alongado abriga órgãos elétricos que ocupam a maior parte do comprimento do animal. Eles funcionam como uma pilha biológica, empilhando milhares de células especializadas que disparam a descarga em conjunto.

Peixe elétrico visto de cima dentro de um aquário, corpo alongado sobre o fundo com pedras e plantas
O corpo alongado do peixe elétrico abriga os órgãos que produzem a descarga. Foto: Steven G. Johnson/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Como os pesquisadores mediram os 860 volts

A medição da descarga elétrica foi feita em laboratório, com os espécimes já catalogados dentro da coleção de peixes usada no estudo. O valor de 860 volts foi registrado em um único exemplar de Electrophorus voltai.

Para efeito de comparação, uma tomada residencial brasileira opera entre 110 e 220 volts. A descarga do E. voltai supera isso em várias vezes, embora a corrente elétrica do animal dure frações de segundo.

Como diferenciar as três espécies de peixe elétrico?

Segundo o estudo, o Electrophorus electricus ocupa a região do Escudo das Guianas, ao norte da Amazônia. Já o Electrophorus varii, a segunda espécie nova descrita no trabalho, vive nas planícies mais baixas e barrentas da bacia amazônica.

O Electrophorus voltai, por sua vez, ficou restrito às águas mais altas e claras do escudo brasileiro. A separação geográfica entre as três populações ajudou os pesquisadores a confirmar que se tratava de espécies diferentes, não apenas de variações de uma mesma espécie.

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Mapa do norte da América do Sul com pontos coloridos mostrando onde cada uma das três espécies de peixe elétrico foi encontrada
Mapa de distribuição das três espécies: vermelho para Electrophorus electricus, azul para E. voltai e amarelo para E. varii. Imagem: C. David de Santana et al./Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), publicada em Nature Communications.

Quando as três espécies se separaram

De acordo com a análise genética do estudo, as três linhagens de Electrophorus começaram a se diferenciar entre 3 e 7 milhões de anos atrás, no período que os geólogos chamam de Mioceno e Plioceno.

Esse intervalo coincide com mudanças na paisagem amazônica que isolaram populações de peixes em bacias diferentes, um processo que, segundo os pesquisadores, ajuda a explicar como espécies tão parecidas fisicamente puderam evoluir descargas elétricas de intensidades distintas.

Por que a descoberta importa além da curiosidade

Até 2019, todo o grupo de peixes elétricos gimnotiformes reunia 256 espécies conhecidas, todas usadas há décadas como modelo de estudo em neurociência e bioeletricidade. Descobrir que uma delas escondia três espécies distintas reabriu perguntas sobre esse histórico de pesquisa.

Trabalhos anteriores sobre o Electrophorus electricus, feitos ao longo de mais de 250 anos, podem ter, na prática, misturado dados de espécies diferentes sem saber, o que os autores do estudo apontam como um motivo para revisar experimentos antigos.

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O que ainda não está confirmado sobre o comportamento do E. voltai

O estudo de 2019 descreveu a espécie a partir de exemplares de coleção e de medições controladas, não de observação prolongada em campo. Por isso, os próprios pesquisadores tratam como hipótese, e não como fato fechado, detalhes sobre a frequência com que o E. voltai usa a descarga máxima na natureza.

Também não há, na publicação, número fechado sobre quantos exemplares de Electrophorus voltai existem hoje nos rios do escudo brasileiro. A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) classifica a espécie como "pouco preocupante", mas isso não substitui um censo populacional específico.

Situação da espécie desde a descrição de 2019

Passados seis anos da publicação, o Electrophorus voltai segue reconhecido pela ciência como a terceira espécie do gênero, ao lado do Electrophorus electricus e do Electrophorus varii, este último também descrito pela primeira vez no mesmo estudo.

A descoberta segue sendo citada como referência em trabalhos sobre biodiversidade da Amazônia e sobre bioeletricidade animal. E você, já sabia que o "poraquê" das lendas amazônicas é, na real, mais de um bicho? Conte aqui nos comentários.

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