Animais e natureza

Se o clima tivesse matado a megafauna, a África teria perdido seus elefantes como a América do Sul perdeu preguiças-gigantes e parentes dos elefantes, mas não foi o que aconteceu, e os estudos apontam outro suspeito

A África e a América do Sul passaram por mudanças de clima parecidas nos últimos 50 mil anos. Uma ficou com elefantes, girafas e rinocerontes; a outra perdeu quase todos os seus gigantes. Duas análises globais dizem que a resposta está em quando o ser humano chegou a cada lugar.

Manada de elefantes africanos bebendo água num lago raso, com a margem de pedras e árvores ao fundo, símbolo da megafauna que sobreviveu

Manada de elefantes africanos bebendo água no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia. Foto: Giles Laurent/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

A África ainda tem elefantes porque sua megafauna perdeu bem menos espécies que a das Américas e da Austrália, embora o clima tenha mudado de forma parecida. Os estudos ligam essa diferença ao tempo de convivência com humanos, e não ao clima.

A conclusão aparece numa revisão publicada em março de 2024 na Cambridge Prisms: Extinction, liderada por Jens-Christian Svenning, e numa análise global de 2014 na Proceedings of the Royal Society B, liderada por Christopher Sandom. A pergunta é antiga: o debate sobre essas extinções tem mais de 200 anos e esquentou a partir dos anos 1960.

Se o clima matou a megafauna, por que a África escapou?

A comparação mais direta é entre a África e a América do Sul. Segundo a revisão, os dois continentes passaram por níveis parecidos de mudança climática, mas tiveram extinções de gravidade muito diferente. Além disso, até lugares de clima relativamente estável tiveram perdas severas.

A análise de 2014 chegou ao mesmo ponto: o contraste mais marcante é o da América do Sul, com muita extinção apesar de um clima relativamente estável, diante da África ao sul do Saara, onde as perdas foram mínimas mesmo com mudanças climáticas parecidas.

O que conta como megafauna

Na paleontologia, a definição mais usada de megafauna é a de animais com 45 quilos ou mais. Os maiores, com 1.000 quilos ou mais, são os megaherbívoros, grupo de elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Segundo a revisão, só 11 de 57 espécies de megaherbívoros sobreviveram até hoje.

A África também perdeu gigantes

A ideia de uma megafauna africana intacta é um engano, diz a revisão. Ao sul do Saara sumiram um elefante, o Palaeoloxodon iolensis, um búfalo gigante, o Pelorovis antiquus, vários antílopes e um javali gigante, o Metridiochoerus compactus.

Na contagem de 2014, que considerou mamíferos de 10 quilos ou mais extintos entre 132 mil e mil anos atrás, a África perdeu 18 espécies. Mesmo assim, ficou entre as áreas de menor extinção do planeta, com no máximo 13% de perda em cada região ao sul do Saara.

Crânio fóssil de búfalo gigante com chifres enormes e curvos, pendurado na parede de um museu
Crânio de Pelorovis antiquus, o búfalo gigante que a África perdeu, no Museu Nacional de Nairóbi, no Quênia. Foto: Bjørn Christian Tørrissen/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O que a América do Sul perdeu

Do lado de cá, a conta foi bem mais pesada. A mesma análise listou 62 espécies extintas na América do Sul, o maior número entre os continentes. O Uruguai teve a maior proporção de perdas de todo o estudo: 78% das espécies de grandes mamíferos sumiram.

Segundo a revisão, a América do Sul perdeu todos os proboscídeos, os parentes dos elefantes, as preguiças-gigantes, os gliptodontes, as ordens nativas de animais com casco, os cavalos e quase todos os camelídeos, menos dois. A Austrália perdeu todas as espécies terrestres de 50 quilos ou mais.

Alguns gigantes sul-americanos resistiram até o Holoceno, cita a revisão, como o proboscídeo Notiomastodon platensis, que também viveu na região intertropical do Brasil, segundo estudo da lista de referências.

A pista do mapa humano

A expansão do Homo sapiens para fora da África, a partir de uns 100 mil anos atrás, foi algo inédito nos ciclos glaciais anteriores, diz a revisão. E o padrão das extinções acompanha, no geral, o caminho da ocupação humana do planeta, com as perdas vindo na chegada ou depois dela.

Na análise de 2014, a gravidade da extinção ficou fortemente ligada à história dos hominíneos, o grupo dos humanos e seus parentes extintos. O clima mostrou no máximo um efeito fraco, e só na Eurásia. As perdas foram maiores onde o ser humano moderno foi o primeiro hominíneo a chegar: Austrália e Américas.

A hipótese da convivência longa

A explicação mais citada para a exceção africana é a da convivência. Como o gênero Homo surgiu na África e ocupou cedo boa parte do sul da Eurásia, os grandes animais dessas regiões teriam tido tempo para se adaptar a uma caça que foi ficando mais eficiente aos poucos.

Na Austrália, nas Américas e nas ilhas, ao contrário, a megafauna teria encontrado de uma vez grupos de Homo sapiens já bem desenvolvidos, sem nenhuma adaptação prévia. A análise de 2014 descreve esses animais como ingênuos diante da caça humana.

Gigantes sem predador

Muitos dos megaherbívoros extintos provavelmente não tinham predadores quando adultos, diz a revisão. Por isso seriam vulneráveis a projéteis, armadilhas e fogo. Traços que facilitam a caça, como o movimento lento, podem ter sido mais comuns fora da África e da Eurásia.

Há sítios com marcas de abate de muitas espécies extintas na África, na Eurásia, na América do Norte e na América do Sul, segundo a revisão.

O que segue em debate

A própria revisão reconhece que, embora a ligação entre humanos e megafauna seja clara, os mecanismos são menos claros. A baixa extinção na África pode ter vindo também de perdas anteriores das espécies mais sensíveis.

Há ainda uma discussão mais antiga. Os megaherbívoros africanos já vinham perdendo diversidade desde o início do Pleistoceno. Estudos ligam esse declínio ao clima, e um deles, de 2018, não achou sinal de impacto dos hominíneos antigos. Outros autores atribuem parte dessas perdas a hominíneos de 2 a 4 milhões de anos atrás.

Esqueleto montado de preguiça-gigante em pé, cercado por vitrines com ossos fósseis num museu
Esqueleto de preguiça-gigante Eremotherium laurillardi no Museu Geológico José Royo y Gómez, em Bogotá, na Colômbia. Foto: Anfecaro/Wikimedia Commons (CC0).

Por que isso importa hoje

Os grandes animais que sobraram mudam a paisagem. A revisão cita que o esterco dos hipopótamos responde por 76% do fluxo total de silício nos rios do leste da África, e que a volta do rinoceronte-branco e dos elefantes da savana mudou a vegetação onde eles foram reintroduzidos.

Mais sobre o passado distante no site: o novo espinossauro do Saara, o Dasosaurus do Maranhão e o fóssil de 309 milhões de anos.

Perguntas rápidas

O que é megafauna?

Na paleontologia, megafauna costuma ser o conjunto de animais com 45 quilos ou mais. Os megaherbívoros, como elefantes e rinocerontes, são os que passam de 1.000 quilos.

A África não perdeu nenhum animal grande?

Perdeu. Sumiram, por exemplo, um elefante (Palaeoloxodon iolensis), um búfalo gigante (Pelorovis antiquus), antílopes e um javali gigante. Mas a perda foi bem menor que nas Américas e na Austrália.

Quais gigantes a América do Sul perdeu?

Todos os proboscídeos, parentes dos elefantes, as preguiças-gigantes, os gliptodontes, as ordens nativas de animais com casco, os cavalos e quase todos os camelídeos, menos dois.

Foi o clima ou o ser humano?

As duas análises citadas apontam o ser humano moderno como o principal fator. O clima aparece só como sinal fraco, restrito à Eurásia, e o mecanismo exato da relação ainda é debatido.

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