Animais e natureza

Fogo em mais de 4 mil hectares de uma fazenda no Pantanal de Mato Grosso do Sul está no centro da Operação Pecus Exploratio, da PF, sobre grilagem de terras da União e dano estimado em R$ 140 milhões

A Polícia Federal deflagrou em 24 de setembro de 2026 a Operação Pecus Exploratio, com cinco mandados de busca em Corumbá, Campo Grande e no Rio de Janeiro. Uma perícia apontou mais de 4 mil hectares queimados numa fazenda do Pantanal sul-mato-grossense, e a Justiça Federal bloqueou o gado e cerca de R$ 6 milhões.

Helicóptero da Marinha leva água para combater incêndio às margens de um rio no Pantanal, bioma onde a PF investiga grilagem de terras da União

Helicóptero Esquilo da Marinha carrega água para combater focos de incêndio no Pantanal, em 2024. A imagem é do combate ao fogo no bioma e não mostra a fazenda investigada. Foto: Marinha do Brasil/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0). Capa recortada em 16:9.

A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira, 24 de setembro de 2026, a Operação Pecus Exploratio, que apura suspeitas de incêndio, grilagem de terras da União e falsidade de documentos públicos no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A nota da PF saiu às 10h36, com o texto datado de Corumbá.

A temporada de fogo já era pesada: até 17 de setembro, o boletim estadual somava 113.014 hectares queimados no Pantanal de MS em 2026, quase o triplo da área queimada em 2025. A novidade é um caso federal que junta fogo numa fazenda, suspeita de grilagem e documentos sob suspeita de falsificação.

Por enquanto, o caso é de suspeita sob investigação, não de crime provado. A PF cumpriu mandados de busca, a Justiça Federal em Corumbá bloqueou o gado da propriedade e cerca de R$ 6 milhões dos investigados, e o material recolhido ainda vai ser analisado.

Cinco mandados em Corumbá, Campo Grande e no Rio de Janeiro

Os policiais federais cumpriram cinco mandados de busca e apreensão: dois em Corumbá, dois em Campo Grande e um no Rio de Janeiro. Pela nota oficial, foram apreendidos documentos e aparelhos celulares.

A nota trata todos os alvos como investigados, sem citar nomes. Os mandados de busca servem para recolher provas, o que é diferente de acusar formalmente alguém na Justiça.

Policiais federais em frente a uma casa flutuante e a uma lancha às margens de um rio no Pantanal durante a Operação Pecus Exploratio
Equipes da Polícia Federal às margens de um rio no Pantanal durante a Operação Pecus Exploratio, em 24 de setembro de 2026. Foto: Divulgação/Polícia Federal.

Mais de 4 mil hectares queimados numa única fazenda do Pantanal

A investigação começou a partir de diligências que identificaram a propagação de queimadas no Pantanal sul-mato-grossense. Durante o trabalho, uma perícia constatou que mais de 4 mil hectares de uma fazenda alvo da operação foram atingidos pelo fogo.

Para ter ideia do tamanho, 4 mil hectares são 40 quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de 5,6 mil campos de futebol de 105 por 68 metros. Pelo Campo Grande News, a apuração começou em 2024.

Quanto pesa cada hectare na conta de R$ 140 milhões?

A PF fala em dano ambiental estimado de aproximadamente R$ 140 milhões. Dividido pelos 4 mil hectares, o valor dá cerca de R$ 35 mil por hectare, uma conta que só serve para dar escala, já que a área queimada passa de 4 mil.

Na área ambiental, esse tipo de valor tenta traduzir em dinheiro o estrago feito à natureza, como a perda de vegetação. O valor pode mudar ao longo do processo, porque ainda é uma estimativa e não uma condenação.

Gado bloqueado e R$ 6 milhões sequestrados pela Justiça Federal em Corumbá

Além das buscas, a Justiça Federal em Corumbá determinou a indisponibilidade do gado da propriedade investigada. Na prática, os animais não podem ser vendidos nem transferidos enquanto a medida estiver valendo.

A mesma decisão mandou sequestrar cerca de R$ 6 milhões mantidos em contas bancárias dos investigados. É o bloqueio do dinheiro por ordem judicial, e o valor equivale a pouco mais de 4% do dano ambiental estimado.

Vaqueiro a cavalo conduz gado zebu branco em pasto do Pantanal na região de Miranda, em Mato Grosso do Sul
Vaqueiro conduz gado zebu na região de Miranda, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, em 2013. A foto ilustra a pecuária pantaneira e não mostra a fazenda investigada. Foto: dany13/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Grilagem: o nome vem de grilos guardados numa gaveta

Grilagem é a apropriação privada, irregular e criminosa de terra pública, segundo o Imazon. O termo nasceu de uma prática antiga: documentos falsos de terra ficavam numa gaveta com grilos, que davam ao papel aspecto velho.

Com cara de antigo, o papel parecia verdadeiro e sustentava uma posse que nunca existiu. Hoje o método mudou, mas a lógica continua: usar documento falso para transformar terra pública em propriedade particular.

Por que terra da União no Pantanal vira caso da Polícia Federal

A Constituição diz, no artigo 109, que cabe à Justiça Federal julgar infrações penais contra bens, serviços ou interesse da União. Pelo artigo 144, a PF é a polícia que apura esse tipo de crime.

O artigo 20 da Constituição lista o que pertence à União, como rios que banham mais de um estado ou fazem fronteira com outro país e terras devolutas indispensáveis à preservação ambiental. Por isso a grilagem de terras da União é assunto federal.

Incêndio, invasão de terra pública e papel falso: o que diz a lei

Provocar incêndio em floresta ou em demais formas de vegetação dá reclusão de dois a quatro anos e multa, pelo artigo 41 da Lei de Crimes Ambientais. Até 2024, o texto falava só em "mata ou floresta".

Invadir terras da União com intenção de ocupá-las tem pena de seis meses a três anos de detenção, pela Lei 4.947, de 1966. Falsificar documento público rende de dois a seis anos de reclusão, pelo artigo 297 do Código Penal.

A lei do manejo do fogo de 2024 mudou o texto do crime

A troca de palavras no artigo 41 veio com a Lei 14.944, de 31 de julho de 2024, que criou a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. Com a mudança, o crime passou a falar em floresta e também nas demais formas de vegetação.

A mesma lei organiza a queima controlada, técnica de prevenção que já foi confundida com sabotagem num vídeo antigo de brigadistas do ICMBio no Pantanal. Fogo usado com plano e autorização é diferente de incêndio provocado.

Em agosto, a Operação Estação Final já mirava área da União em Corumbá

A Pecus Exploratio não foi a primeira ação da PF em Corumbá em 2026 envolvendo terra da União. Em 19 de agosto, a Operação Estação Final cumpriu três mandados de busca na cidade.

Aquela investigação trata de desmatamento ilegal em área pertencente à União e do uso de documentos supostamente falsos para dar aparência de legalidade ao estrago. São operações diferentes, anunciadas pela PF em notas separadas.

Números de perícia e suspeitas ainda passam pelo crivo da Justiça

A área queimada e o dano de R$ 140 milhões saíram da perícia e da estimativa feitas na investigação. Esses números ainda podem ser contestados pela defesa se o caso virar processo, e só uma sentença diz se houve crime.

A própria PF trata os alvos apenas como investigados, sem nomes, e busca e apreensão não equivale a denúncia. Todo o caso segue no campo da suspeita até a análise das provas.

Celulares e documentos apreendidos abrem a próxima fase da investigação

O material recolhido será analisado para esclarecer o vínculo entre os investigados e identificar outros possíveis envolvidos, segundo a PF. É dessa análise que depende o rumo do inquérito.

Enquanto isso, o Pantanal entra no trimestre que o Ibama aponta como o mais crítico para o fogo, de outubro a dezembro, com o rio Paraguai a 138 centímetros em Ladário em 23 de setembro. Você mora no Pantanal ou perto dele e acompanha a temporada de fogo de 2026?

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