Um ovo de tartaruga-verde de um ninho selvagem em Cuba guardava três embriões idênticos presos ao mesmo vitelo, o primeiro caso de trigêmeos registrado em incubação natural numa tartaruga marinha, segundo pesquisadores
Gêmeos já são raríssimos entre répteis. Trigêmeos em tartarugas só tinham sido vistos em criação ou em cativeiro. Num ninho da Península de Guanahacabibes, no oeste de Cuba, cientistas encontraram três embriões que dividiam o mesmo saco de vitelo, cada um com sua própria rede de vasos.
Filhotes de tartaruga-verde saem do ninho nas Ilhas Gloriosas, no Oceano Índico. A foto não é do ninho do estudo. Foto: Jerome Bourjea/Ifremer, Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0, recortada.
Um ninho selvagem de tartaruga-verde em Cuba tinha um ovo com trigêmeos idênticos. É um dos dois únicos casos confirmados de trigêmeos em tartarugas e o primeiro em incubação natural numa tartaruga marinha, segundo estudo publicado em 28 de setembro na Ecology and Evolution.
O que é poliembrionia
É quando um único ovo fecundado dá origem a mais de um embrião. Em répteis, o fenômeno é excepcionalmente raro e costuma aparecer como casos isolados de gêmeos idênticos.
Trigêmeos em tartarugas são ainda mais escassos, e até agora só tinham sido descritos em animais manejados ou em cativeiro.
O ninho de Guanahacabibes em números
| Item | O que o ninho de Guanahacabibes mostrou |
|---|---|
| Taxa de eclosão do ninho | 91,6%, com filhotes saudáveis |
| Ovos que não eclodiram | 11 |
| Ovos com embriões malformados | 3 dos 11 (27,3%) |
| Trigêmeos | 3 embriões presos a uma única massa de vitelo |
| Circulação | Rede de vasos própria para cada embrião |
| Origem | Compatível com um único óvulo fecundado (idênticos) |
| Sexo | Gônadas do tipo ovário nos três |
Azanza-Ricardo e outros, Ecology and Evolution, 28/9/2026.
Um ninho que foi bem
O ninho em si teve sucesso: 91,6% dos ovos eclodiram e os filhotes se saíram normalmente. Os trigêmeos estavam entre os 11 ovos que não vingaram.
Três desses ovos tinham embriões com malformações congênitas, e um deles guardava a configuração de trigêmeos.
Três embriões, um só vitelo
A análise mostrou os três embriões presos a uma única massa contínua de vitelo, a reserva de alimento do ovo. Cada um tinha sua própria rede de vasos sanguíneos, sinal de que vieram do mesmo óvulo fecundado, como gêmeos idênticos.
Cabem na palma da mão. Três corpinhos dobrados em volta de uma gema cor de damasco, como se dividissem o último prato da mesa.
Por que um embrião ficou para trás
Um dos três estava bem menos desenvolvido e tinha malformações no crânio e no rosto. Os autores ligam isso à falta de recursos e a uma disputa desigual entre os irmãos pelo mesmo vitelo.
Três fêmeas de tartaruga-verde
Os três embriões tinham gônadas do tipo ovário. Isso combina com o esperado: nas tartarugas marinhas, a temperatura do ninho pesa no sexo dos filhotes, e ninhos mais quentes tendem a gerar mais fêmeas.
Saiba mais sobre como funciona a desova das tartarugas marinhas.
Quem fez a descoberta
O trabalho é liderado por Julia Azanza-Ricardo, da Universidade de Havana, com pesquisadores da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) e do Centro de Investigação Científica e de Educação Superior de Ensenada, também no México.
O valor de vigiar ninhos por anos
Para os autores, o caso mostra a importância do monitoramento de ninhos de longo prazo. Só quem abre e examina os ovos que não eclodiram consegue flagrar eventos raros como esse.
A tartaruga-verde é estudada em vários pontos do mundo, como mostram o rastreamento de tartarugas-verdes em Galápagos e o monitoramento por satélite da tartaruga-de-couro.
O que o caso não diz
É um único ninho, o que não permite dizer com que frequência trigêmeos acontecem na natureza. Os embriões não chegaram a eclodir, e fica em aberto se trigêmeos de tartaruga conseguiriam nascer e sobreviver.



