Animais e natureza

Cientistas esperavam que elas cruzassem o Pacífico para se reproduzir, mas nenhuma das 9 tartarugas-verdes rastreadas por satélite em Galápagos saiu do arquipélago, em até 418 dias de sinal

Um estudo com 9 adultos de tartaruga-verde da forma amarela, seguidos por satélite entre 2015 e 2018, mostrou que todas ficaram em Galápagos. A redação refez as contas da tabela do artigo e achou um detalhe: o número que o resumo chama de média coincide com a área da tartaruga do meio.

Casal de tartaruga-verde na água azul-esverdeada de Galápagos, com a cabeça de uma delas fora da água e o casco de outra tartaruga logo atrás

Tartarugas-verdes no mar de Galápagos. Imagem de arquivo, que não mostra as tartarugas do estudo. Foto: Andy Morffew, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

Nenhuma das 9 tartarugas-verdes rastreadas por satélite em Galápagos saiu do arquipélago, embora os cientistas esperassem que elas viajassem até praias distantes do oeste do Pacífico para se reproduzir. O sinal durou de 45 a 418 dias por animal. Somados, são 2.527 dias de rastreio, quase sete anos, sem nenhuma saída.

O estudo foi publicado em 27 de agosto na revista Frontiers in Amphibian and Reptile Science e ganhou comunicado da própria editora, a Frontiers, publicado no site ScienceDaily em 28 de setembro.

"Esperávamos que elas migrassem", disse o autor correspondente do estudo, John Rowe, professor do Alma College, nos Estados Unidos, no comunicado.

Duas tartarugas-verdes que dividem o mesmo mar

Existem duas formas geneticamente distintas da tartaruga-verde no Pacífico. A preta é associada ao leste do oceano, perto das Américas. A amarela é associada ao oeste do Pacífico. Galápagos é o único lugar conhecido onde as duas vivem juntas e comem o mesmo tipo de vegetação marinha.

O movimento das fêmeas pretas depois da desova já tinha sido estudado. Como as amarelas usam as ilhas, ninguém sabia. Por isso, a equipe capturou 9 adultas da forma amarela, 7 machos e 2 fêmeas, em quatro ilhas, e instalou um transmissor por satélite em cada uma.

Eram animais grandes: de 80 a 133 kg e de 82,5 a 105 cm de casco, medido pela curva. Cada uma ganhou um nome, de Leandro a Sara.

Gráfico de barras com os dias de sinal de cada tartaruga: Sara 418, Bernardo 415, John 378, Cristian 367, Mike 324, Roberto 296, Jason 186, Leandro 98 e Ainoa 45
Seis das nove tartarugas foram seguidas por mais de 290 dias. Arte: Watts & Wild com dados da tabela 1 do artigo.

Uma ficou num trecho de costa; outra cruzou três ilhas

Cinco das nove ficaram quase o tempo todo em volta da ilha onde foram capturadas, em águas rasas, a poucos quilômetros do ponto de soltura. Quatro fizeram viagens entre ilhas de dezenas de quilômetros.

Mike, um macho capturado na ilha Isabela, usou uma área de só 23,9 km² em 324 dias.

No outro extremo, Ainoa, uma fêmea capturada em San Cristóbal, passou por Santa Cruz e chegou ao oeste de Isabela. A área de vida dela foi de 27.316 km², a maior do estudo, com só 45 dias de sinal.

Nove mapas das ilhas Galápagos, um por tartaruga, com a área de vida em laranja e a área mais usada em vermelho; a de Ainoa cobre San Cristóbal, Santa Cruz e Isabela, e as de Mike e Jason são faixas pequenas na costa sul de Isabela
A área de cada uma das 9 tartarugas: em laranja, a área de vida; em vermelho, a mais usada; a estrela marca onde ela foi capturada. Ilustração: figura 1 de Muñoz-Pérez e colegas, Frontiers in Amphibian and Reptile Science, licença CC BY 4.0.

Do tamanho da cidade de São Paulo

Para dar escala, a redação comparou as áreas com a da cidade de São Paulo, que tem 1.522,7 km², segundo o IBGE. Cristian, macho capturado na ilha Española, usou 1.497,9 km², 98% da capital paulista. Ainoa sozinha usou o equivalente a 18 cidades de São Paulo.

Cinco das nove usaram áreas menores que a cidade. Mike, Jason e Roberto, os três mais caseiros, ficaram abaixo de 120 km².

Gráfico de barras em escala logarítmica com a área de vida de cada tartaruga: Ainoa 27.316 km², Leandro 3.386,2, Bernardo 3.224, Sara 2.238,9, Cristian 1.497,9, John 591,3, Roberto 112,9, Jason 64,6 e Mike 23,9, com uma linha marcando a área da cidade de São Paulo, 1.522,7 km²
Só uma tartaruga, Ainoa, usou uma área muito maior que a cidade de São Paulo. Cristian ficou quase exatamente do tamanho dela. Arte: Watts & Wild com dados do artigo e do IBGE.

A média do resumo coincide com a tartaruga do meio

O resumo do artigo (doi 10.3389/famrs.2026.1837921) chama de área de vida média o valor de 1.497,9 km².

A redação somou os nove valores da tabela 3 do próprio estudo e dividiu por nove. A conta dá 4.272,9 km². O número de 1.497,9 coincide com a mediana da tabela 3: a área de Cristian, que fica exatamente no meio da lista.

A diferença vem de Ainoa: sozinha, com 27.316 km², ela puxa a média para cima. Sem ela, a média das outras oito cai para 1.392,5 km². A outra média do artigo, a da área mais usada, de 863,8 km², bate com a tabela.

O detalhe não muda a conclusão principal, de que nenhuma tartaruga saiu de Galápagos. Os próprios autores avisam que a precisão dos transmissores era limitada, e o estudo tem só 9 animais, o que pede cuidado para generalizar.

Por que o resultado importa para a reserva?

As tartarugas-verdes de Galápagos estão dentro da Reserva Marinha de Galápagos, de 1998, e da Reserva Marinha Hermandad, de 2022. Juntas, protegem quase 200 mil km² de mar, segundo o artigo.

Para os autores, os resultados mostram que manter a qualidade dos trechos de costa e a ligação entre as ilhas é importante, porque esses caminhos podem funcionar como corredores para essa forma pouco conhecida da espécie.

A IUCN tirou a tartaruga-verde da categoria em perigo e a passou para pouco preocupante, numa revisão recente citada pelo artigo, mas ela segue sob ameaças humanas, lembra o estudo.

E a tartaruga-verde do Brasil?

É a mesma espécie, a Chelonia mydas, chamada aqui de tartaruga-verde ou aruanã. Segundo o Projeto Tamar, ela faz cerca de 4.000 ninhos por temporada no Brasil, a maioria nas ilhas de Trindade, no Atol das Rocas e em Fernando de Noronha.

Nas praias do continente são cerca de 200 ninhos por temporada, principalmente no litoral norte da Bahia.

A tartaruga-verde não está na lista oficial de espécies ameaçadas do Brasil, a Portaria MMA 148, de 2022, e o Tamar a classifica como quase ameaçada. Ela pode chegar a 143 cm de casco e 230 kg, bem mais que as tartarugas do estudo.

Quais tartarugas marinhas estão ameaçadas no Brasil?

As outras quatro tartarugas marinhas da lista estão: a cabeçuda e a oliva como vulneráveis, a de-pente em perigo e a de-couro criticamente em perigo. Criticamente em perigo é a categoria de ameaça mais grave da lista.

Aqui no site, tem também o rastreamento por satélite das rotas da tartaruga-de-couro, o guia da desova das tartarugas marinhas e o tubarão preso num canal da Coreia que escapou do resgate.

Perguntas rápidas

As tartarugas-verdes de Galápagos migram?

Parte delas, sim: fêmeas da forma preta já foram vistas indo para a costa da América Central depois da desova, segundo estudos citados no artigo. Mas as 9 da forma amarela seguidas entre 2015 e 2018 não saíram do arquipélago, com sinal de 45 a 418 dias.

O que é a tartaruga-verde amarela de Galápagos?

É uma das duas formas geneticamente distintas da tartaruga-verde que vivem no Pacífico. A amarela é associada ao oeste do Pacífico; a preta, ao leste. Galápagos é o único lugar conhecido onde as duas dividem as mesmas águas.

A tartaruga-verde existe no Brasil?

Sim. É a tartaruga-verde ou aruanã, com cerca de 4.000 ninhos por temporada no Brasil, a maioria nas ilhas de Trindade, Atol das Rocas e Fernando de Noronha, segundo o Projeto Tamar.

A tartaruga-verde está ameaçada de extinção?

No Brasil, ela não está na lista oficial de espécies ameaçadas, a Portaria 148 de 2022, e é classificada como quase ameaçada. No mundo, a IUCN a passou recentemente de em perigo para pouco preocupante, segundo o artigo.

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