Animais e natureza

O pinguim-gentoo, tratado até agora como uma espécie só, foi dividido em quatro, e a nova, das ilhas Kerguelen, tem como exemplar oficial a pele de um macho coletado em 1897

O estudo saiu em abril na revista Communications Biology e ganhou divulgação da Universidade da Califórnia em Berkeley em setembro. Ele junta 64 genomas de pinguins e peles de museu do século 19. Veja quem são as quatro espécies, por que ninguém tinha notado a diferença e por que a nova preocupa.

Pinguim-gentoo das ilhas Kerguelen, a espécie nova de pinguim, com bico e pés laranja e as asas abertas sobre o chão de um ninhal, com o mar e montanhas ao fundo

Pinguim-gentoo nas ilhas Kerguelen, a população que agora é a espécie Pygoscelis kerguelensis, em novembro de 2020. Foto: Antoine Lamielle, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

A espécie nova é o pinguim-gentoo-do-sudeste, Pygoscelis kerguelensis, das ilhas Kerguelen. O exemplar que serve de referência oficial para ela é a pele de um macho adulto coletado lá em 31 de dezembro de 1897, guardada no Museu Americano de História Natural, em Nova York.

A descrição está no estudo de Daly Noll e colegas, publicado em 23 de abril de 2026 na revista Communications Biology. A Universidade da Califórnia em Berkeley divulgou o trabalho em setembro, e o comunicado saiu no ScienceDaily em 21 de setembro.

Segundo o comunicado, é a primeira espécie nova de pinguim nomeada em mais de 100 anos. O mesmo estudo dividiu o pinguim-gentoo, que era tratado como uma espécie só, em quatro.

Uma espécie nova descrita com peles de museu

Toda espécie nova precisa de um exemplar de referência, o holótipo. No caso do gentoo-do-sudeste, os autores escolheram uma pele guardada há mais de um século: um macho adulto coletado por Robert Hall na Ilha Kerguelen no último dia de 1897.

A pele foi preparada aberta, no formato que os museus usam para guardar aves, e entrou nas medições do estudo. Pela descrição, ele tem cabeça preta com uma faixa branca de sobrancelha a sobrancelha, costas cinza-azuladas escuras, barriga branca, bico laranja de ponta preta e pés laranja-rosados.

Outros exemplares de apoio, chamados parátipos, são ainda mais antigos. Dois foram coletados por George Comer em Kerguelen em 1888. Quatro vieram da Expedição Challenger, que passou por Christmas Harbour, em Kerguelen, em janeiro de 1874.

Ao todo, o time mediu 50 pinguins de coleções de museus. O resultado: o gentoo-do-sudeste tem tamanho intermediário, menor que o gentoo-do-norte e maior que o gentoo-do-sul.

Pinguim-gentoo adulto de bico laranja inclinado sobre filhotes de penugem cinza num ninho de galhos secos, com montanhas nevadas ao fundo
Adulto com filhotes num ninhal das ilhas Kerguelen, em novembro de 2020. Foto: Antoine Lamielle, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

Por que ninguém viu que era outra espécie?

Porque por fora ele é quase igual aos parentes. O comunicado de Berkeley diz que, tirando pequenas diferenças no tamanho do corpo e na voz, ele tem a mesma barriga branca e o mesmo dorso preto dos outros gentoos.

A diferença está no DNA. Os cientistas chamam esse caso de espécie críptica: parece igual, mas é geneticamente diferente.

O estudo sequenciou os genomas de 64 pinguins-gentoo de dez colônias espalhadas pelo Oceano Austral. Segundo Berkeley, é a primeira vez que a amostra cobre quase toda a área onde a ave vive.

“Provavelmente não existe espécie de pinguim cuja classificação tenha sido mais debatida que a do gentoo”, disse Rauri Bowie, professor da universidade e um dos autores principais, em tradução livre. “Há mais de 100 anos existe polêmica sobre quantas espécies ou subespécies existem.”

Quem são as quatro espécies de gentoo

A divisão segue a geografia e uma fronteira no mar, a Frente Polar Antártica, onde a temperatura e o sal da água mudam de repente.

Gentoo-do-norte (Pygoscelis papua): fica restrito às Malvinas e à Ilha Martillo, na Argentina. É a única das quatro que vive na América do Sul.

Gentoo-do-sul (Pygoscelis ellsworthi): vive na Península Antártica, no litoral da Antártida e na Geórgia do Sul. É o único dos quatro na Antártida e o mais numeroso.

Gentoo-do-leste (Pygoscelis taeniata): ao norte da frente polar, nas ilhas Crozet, Marion e Macquarie.

Gentoo-do-sudeste (Pygoscelis kerguelensis): a espécie nova, perto da frente polar. É uma população pequena, que evoluiu em Kerguelen e provavelmente na vizinha Ilha Heard.

Segundo o comunicado, as quatro se separaram nos últimos 300 mil a 500 mil anos.

Gráfico de barras com as quatro espécies de pinguim-gentoo: gentoo-do-sul 65% da população, do norte 24%, do sudeste, a nova, 9%, e do leste 2%, com a projeção de habitat para 2050
As quatro espécies, a fatia de cada uma na população e o que o estudo projeta para 2050. Arte: Watts & Wild com dados da Communications Biology.

Um arquipélago longe de tudo

Kerguelen é um arquipélago francês no sul do Oceano Índico, também chamado de Ilhas da Desolação. O comunicado diz que ele fica a quase 2.000 milhas, cerca de 3.200 quilômetros, de qualquer terra com moradores fixos.

Esse isolamento ajuda a explicar a separação. O gentoo come quase tudo o que pega debaixo da água, de peixe e krill a lula e siba. Por isso não precisa ir longe atrás de comida e volta ao mesmo lugar para fazer ninho ano após ano.

Com o tempo, cada ilha foi moldando a sua população. No gentoo-do-sudeste, o estudo achou sinais de seleção natural em quatro genes ligados ao aprendizado do canto nas aves, o que combina com as diferenças de voz.

Quem gosta de bicho que não sai de casa vai lembrar das tartarugas-verdes que não saíram de Galápagos. O caso das baleias é o contrário: veja a jubarte que foi de Abrolhos à Austrália.

Por que a espécie nova preocupa

Hoje a lista vermelha da IUCN trata o gentoo como uma espécie só, classificada como pouco preocupante. O estudo lembra que esse retrato é puxado pelo gentoo-do-sul, que soma cerca de 65% de todos os gentoos do mundo.

O gentoo-do-sudeste responde por cerca de 9%. O do norte tem 24%, e o do leste, 2%.

O número total de gentoos cresceu cerca de 11% desde 2013, mas puxado pelas colônias da Península Antártica. Fora dali há quedas: em Macquarie, os casais reprodutores caíram 50% em três gerações, e uma colônia monitorada em Crozet encolheu 32,6% entre 1992 e 2018.

Em Kerguelen o problema é outro: falta contar. O último censo de Kerguelen citado no estudo é de 1985. O de Crozet é de 1981, e o das Malvinas, de 2010.

Os autores pedem que cada uma das quatro espécies seja avaliada separadamente pela IUCN e que os censos sejam refeitos.

O que o clima pode fazer até 2050

O time projetou onde o ambiente vai servir para cada espécie em 2050, usando temperatura, sal, acidez e produtividade do mar.

Para três delas, a do norte, a do leste e a do sudeste, o resultado é uma forte perda de área adequada em boa parte de onde vivem hoje. O gentoo-do-sudeste ainda pode manter algum habitat em volta da Ilha Heard.

O gentoo-do-sul vai no caminho oposto: a área adequada para ele pode crescer cerca de 9%, principalmente no oeste da Península Antártica.

“Na Antártida, claro, outras espécies, não o gentoo, estão ameaçadas pela mudança do clima”, disse Juliana Vianna, professora da Universidade Andrés Bello, no Chile, e uma das autoras principais. “Mas o gentoo preocupa mais na região subantártica.”

Ela lista outras ameaças para os pinguins fora da Antártida: oceano mais quente, destruição do habitat, ataque de ratos e cachorros, disputa com a pesca comercial e captura acidental em redes.

Dois pinguins-gentoo adultos e um filhote de penugem clara, de pé sobre pedras e musgo, com outros pinguins deitados em volta
Adultos e filhote nas ilhas Kerguelen, em novembro de 2020. Foto: Antoine Lamielle, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

E o Brasil nessa história?

O comunicado lista pesquisadores de vários países, e o Brasil está entre eles. A bióloga Gisele Dantas, do programa de pós-graduação em biologia de vertebrados da PUC Minas, em Belo Horizonte, forneceu amostras e revisou o texto, segundo a seção de contribuições do artigo.

Os autores principais são do Chile e dos Estados Unidos. A primeira autora, Daly Noll, fez a análise dos genomas como aluna de pós-graduação da Universidade do Chile. O artigo registra também a morte de um dos autores, o espanhol Andrés Barbosa.

Juliana Vianna já estuda os mesmos genomas para entender por que alguns pinguins sobrevivem à gripe aviária, diz o comunicado. Espécie com nome escolhido a dedo tem outro exemplo aqui no site: o fóssil de 309 milhões de anos que ganhou o nome de uma mãe.

Perguntas rápidas

Qual é a espécie nova de pinguim?

É o pinguim-gentoo-do-sudeste, Pygoscelis kerguelensis, que vive nas ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, e provavelmente na Ilha Heard. Ele foi descrito num estudo publicado em abril de 2026 na revista Communications Biology.

Por que ninguém tinha percebido antes?

Porque por fora ele é quase igual aos outros gentoos: dorso preto, barriga branca e bico laranja. A diferença aparece no DNA, no tamanho do corpo e na voz. Os cientistas chamam isso de espécie críptica.

O que é o holótipo?

É o exemplar escolhido como referência oficial de uma espécie. No caso do gentoo-do-sudeste, é a pele de um macho adulto coletado em Kerguelen em 31 de dezembro de 1897, guardada no Museu Americano de História Natural, em Nova York.

O Brasil participou do estudo?

Sim. A bióloga Gisele Dantas, da PUC Minas, forneceu amostras e revisou o texto, segundo a seção de contribuições do artigo. As colônias estudadas mais próximas do Brasil ficam nas Malvinas e na Ilha Martillo, na Argentina.

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