Gato-mourisco no Pantanal: o felino parecido com lontra que a IUCN rebaixou para "quase ameaçado"
De longe, parece uma lontra que saiu do rio. De perto, é um felino sem manchas, de pernas curtas e cauda comprida, que anda de dia e por isso engana quem conta bichos. Uma foto feita no Pantanal virou assunto, e a lista da IUCN mudou o rótulo dele.
Gato-mourisco (jaguarundi) em foto de arquivo de novembro de 2011, não é o animal flagrado no Pantanal. Foto: Hugo Hulsberg, Wikimedia Commons, domínio público (CC0), recortada.
O gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) foi reclassificado pela IUCN de "pouco preocupante" para "quase ameaçado". A nova avaliação estima cerca de 13 mil adultos em toda a área onde ele vive, do México à Argentina, segundo a Mongabay.
A mudança chega junto com um flagrante no Pantanal. O fotógrafo de vida selvagem Andrés Novales, guatemalteco que atua como guia na região, procurava onças-pintadas quando o bicho apareceu na margem de um rio.
Ele achou, de início, que era uma lontra, conta o Portal Tempo Novo, que cita publicação do portal Terra. O registro viralizou nos últimos dias.
Um gato que não parece gato
O gato-mourisco também é chamado de jaguarundi, gato-preto e gato-vermelho. Tem corpo alongado, pernas curtas, cabeça pequena, orelhas arredondadas e cauda comprida. A pelagem é lisa, sem manchas, e vai do cinza-escuro ao avermelhado.
Pesa até uns 7 quilos e tem vocabulário raro entre os felinos, com sons que lembram o pio de uma ave, segundo a Mongabay. Em inglês, ganhou o apelido de "otter cat", gato-lontra.
Por que a lista mudou o rótulo do gato-mourisco
O responsável pela revisão foi Tadeu de Oliveira, copresidente do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN. Ele conta que a avaliação precisou vencer uma ideia errada: a de que o animal é comum e, portanto, não corre risco.
O motivo da confusão é o horário. O gato-mourisco anda e caça de dia, em áreas abertas, e é visto mais do que felinos de mata fechada.
Ele também aguenta paisagens degradadas, como floresta que virou savana. "É mais fácil de ver e, por isso, as pessoas acharam que era comum", disse Oliveira. "Quando você quantifica com dados, mostra o contrário."
Com os dados reunidos por pesquisadores de toda a área de ocorrência, a equipe concluiu que a espécie é rara e está entre os felinos menos abundantes em quase todo o território, com exceção de alguns pontos do México e do Brasil.
A Amazônia deixou de ser abrigo
Outro peso na decisão foi a Amazônia. A região era vista como possível refúgio, mas isso mudou, em parte porque o animal precisa de muito espaço: machos chegam a circular por até 100 km² em alguns lugares. "O gato não é realmente abundante em lugar nenhum", resumiu Oliveira.
O que pesa contra o felino, em números e em fatos
| Característica | O que dizem as fontes | Por que importa |
|---|---|---|
| Hábito diurno | Anda e caça de dia, em espaço aberto | É visto com frequência e parece comum |
| População | Cerca de 13 mil adultos em toda a área, do México à Argentina | Número baixo para um território tão grande |
| Território | Machos chegam a percorrer até 100 km² em alguns lugares | Precisa de muita área ligada, não só de reservas |
| Amazônia | Deixou de ser vista como refúgio seguro | Sem refúgio garantido, a margem de segurança some |
| Ameaças | Conflito com criadores, atropelamento, cães, sarna e raiva | Nenhuma delas é resolvida só protegendo mata |
Arte: Watts & Wild, com dados da Mongabay (17 de agosto de 2026) e do Portal Tempo Novo (8 de outubro de 2026).
Entre as ameaças listadas pela Mongabay estão a morte em represália quando o bicho ataca galinheiros, os atropelamentos, o ataque de cães domésticos e ferais e doenças como a sarna e a raiva. É um quadro parecido com o de outros bichos de beira de estrada, como mostra o caso do tamanduá-bandeira no interior paulista.
O que a nota brasileira já dizia
No Brasil, o alerta vinha de antes. A última avaliação nacional, coordenada por Flávia Tirelli, tinha classificado o gato-mourisco como vulnerável, categoria mais séria do que "quase ameaçado". Tirelli disse que a mudança global mostra a necessidade de olhar para espécies de ampla distribuição, mas com abundância muito variável de um lugar para outro.
O felino ocorre em todos os biomas do país, segundo o Tempo Novo.
O Cerrado e a Caatinga aparecem entre os ambientes que a avaliação cita como prioritários, e a avaliação destaca a necessidade de conectar as áreas, além de proteger o habitat. No Pantanal, onde a área queimada quase triplicou em 2026, a imagem viral é também um lembrete do que está em jogo.
Quase ameaçado não é o mesmo que ameaçado
Na escala da IUCN, "quase ameaçado" fica abaixo de "vulnerável": significa que a espécie ainda não cumpre os critérios de ameaça, mas está perto.
Pouca gente estuda o gato-mourisco, ao contrário do que ocorre com felinos que ganham manchete por serem novidade. Boa parte do que se sabe vem de imagens de armadilhas fotográficas feitas para outros bichos, segundo a pesquisadora Mariam Weston-Flores.
Uma foto de agora e uma decisão de meses atrás
A foto de Novales circula nos últimos dias, mas a reclassificação é anterior.
O Tempo Novo situa a decisão em julho, e a Mongabay publicou sua reportagem em 17 de agosto de 2026. A Lista Vermelha exige login para consulta completa, então a data exata e o texto oficial da avaliação não foram vistos diretamente no site da IUCN.
O número de 13 mil adultos é uma estimativa da equipe de revisão, não uma contagem. A foto da capa é de arquivo e a imagem do Pantanal, de Novales, não foi cedida à redação. Quem quiser conferir o status da espécie pode buscar Herpailurus yagouaroundi na Lista Vermelha da IUCN.
Fontes: Mongabay, 17 de agosto de 2026. Portal Tempo Novo, 8 de outubro de 2026. IUCN Red List.



