O tamanduá-bandeira está entre os animais silvestres mais atropelados nas rodovias do Cerrado, no interior de São Paulo, aponta estudo da Unesp na Estação Ecológica de Santa Bárbara, em Avaré
Um estudo de doutorado da Unesp, com apoio da Fapesp, monitorou tamanduás-bandeira por GPS e fotos dentro da Estação Ecológica de Santa Bárbara, entre Avaré e Águas de Santa Bárbara. A pesquisa mediu perda de população e mostrou como audição fraca, visão pequena e passo lento tornam a espécie vulnerável às estradas do Cerrado paulista.

Tamanduá-bandeira fotografado no Pantanal em novembro de 2005, mesma espécie hoje monitorada no Cerrado paulista. Foto: Pick-Nick / Wikimedia Commons, domínio público. Capa com recorte técnico, sem alteração do conteúdo da imagem.
Na Estação Ecológica de Santa Bárbara, entre os municípios de Avaré e Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, pesquisadores da Unesp acompanharam tamanduás-bandeira por meses para entender por que a espécie perde espaço no Cerrado paulista.
Segundo a Agência Fapesp, a tese de doutorado de Alessandra Bertassoni usou coleiras de GPS em oito animais e câmeras para reconhecer indivíduos pela pelagem, revelando como estradas, fogo e perda de habitat ameaçam a população local.
O atropelamento é apenas um dos golpes que a espécie sofre. Segundo a pesquisa e o plano nacional do ICMBio, o tamanduá-bandeira soma perda de habitat, caça, queimadas e atropelamento entre as ameaças no Cerrado. A Unesp estimou pelo menos 30% de queda na população da Estação Ecológica de Santa Bárbara em dez anos, e as rodovias entram nessa conta.
O que faz o tamanduá-bandeira demorar tanto para fugir da pista
O tamanduá-bandeira ouve mal, enxerga pouco e pesa até 35 quilos, com passada lenta, segundo o projeto Bandeiras e Rodovias, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas), que estuda o atropelamento da espécie em rodovias de outros estados do Cerrado e do Pantanal.
A pelagem escura e os olhos pequenos, que refletem pouco a luz dos faróis, dificultam a visualização à noite, quando boa parte dos atropelamentos de fauna silvestre acontece nas estradas brasileiras.
O estudo da Unesp na Estação Ecológica de Santa Bárbara
Leia também: Por que o lobo-guará depende da lobeira do Cerrado
A tese de doutorado de Alessandra Bertassoni, financiada pela Fapesp, monitorou tamanduás-bandeira na Estação Ecológica de Santa Bárbara, uma das maiores unidades de conservação de Cerrado do estado de São Paulo, próxima a Avaré.
Segundo a Agência Fapesp, oito animais receberam coleiras de GPS por cerca de 91 dias, e nove indivíduos foram identificados por armadilhas fotográficas, um método que reconhece cada tamanduá pelo desenho único da pelagem.
Quanto da população já foi perdida no Cerrado paulista
A pesquisa da Unesp estimou que a população de tamanduás-bandeira da região já perdeu pelo menos 30% dos indivíduos em dez anos, de acordo com a Agência Fapesp.
No cenário mais pessimista traçado pelo estudo, a população sobreviveria por apenas 20 anos. Sem queimadas prescritas na unidade de conservação, a projeção de sobrevivência sobe para 30 anos, segundo a mesma fonte.
Machos cruzam estradas, fêmeas ficam mais protegidas
O monitoramento por GPS mostrou diferença clara de comportamento entre os sexos: fêmeas mantiveram os deslocamentos dentro dos limites da área protegida, enquanto machos se arriscaram para fora, cruzando estradas e áreas de cana e pastagem, segundo a Fapesp.
Esse comportamento mais exploratório expõe os machos a mais pontos de risco, como estradas, plantações de cana e pastagens, áreas fora dos limites protegidos da estação ecológica.
O Cerrado paulista concentra mesmo esse risco?
Um levantamento consultado pelo Jornal da USP, feito por concessionárias de rodovias em parceria técnico-científica no estado de São Paulo, registrou muitos atropelamentos de tamanduás-bandeira nos três biomas paulistas monitorados: Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal.
A mesma reportagem cita outro estudo segundo o qual mais de 37 mil mamíferos são atropelados por ano nas rodovias paulistas, volume que ajuda a situar por que uma espécie lenta como o tamanduá-bandeira concentra tantos casos no Cerrado do estado.
Passagens de fauna já reduziram mortes em outras rodovias
Passagens subterrâneas, pontes vegetadas e cercamento ao longo de trechos críticos já foram testados em rodovias brasileiras e reduziram a mortandade de animais silvestres em cerca de 80%, segundo o mesmo levantamento citado pelo Jornal da USP.
O resultado mostra que infraestrutura pensada para a fauna, como viadutos e passagens subterrâneas, ajuda a reduzir esse tipo de acidente nas rodovias que cruzam áreas de Cerrado e outros biomas brasileiros.
O plano oficial do ICMBio para proteger a espécie
O ICMBio mantém o PAN Tamanduá e Tatus, plano de ação nacional voltado à conservação do tamanduá-bandeira e de três espécies de tatu, com o objetivo de reduzir as principais ameaças à espécie ao longo de cinco anos, segundo a página oficial do órgão.
O segundo ciclo do plano, com vigência entre 2026 e 2031, cobre seis biomas brasileiros, entre eles o Cerrado, e trata mortes em rodovias, perda de habitat, queimadas e exposição a agrotóxicos como ameaças a combater.
O que o motorista pode fazer para evitar um atropelamento
O projeto Bandeiras e Rodovias, do Icas, recomenda evitar dirigir ao entardecer e durante a noite sempre que possível, já que entre 80% e 90% dos atropelamentos de fauna silvestre acontecem nesse período, segundo a Conexão Planeta.
Reduzir a velocidade nos trechos sinalizados com a placa de animais selvagens, prevista no Código de Trânsito Brasileiro, e evitar deslocamentos noturnos sem necessidade seguem como as principais recomendações ligadas a esse tipo de acidente nas rodovias do Cerrado.
O que ainda falta medir no Cerrado paulista
A cobertura reunida aqui combina fontes de momentos e lugares diferentes: o estudo da Unesp é de 2017 e falou da Estação Ecológica de Santa Bárbara, enquanto os números de rodovias paulistas e de passagens de fauna vêm de outras pesquisas e de outros trechos do estado.
Não existe, nas fontes consultadas, uma contagem exata e recente de quantos tamanduás-bandeira morrem atropelados só na Estação Ecológica de Santa Bárbara, o que reforça a importância de novos levantamentos locais sobre o tema.
O risco de bichos silvestres cruzarem caminho com pessoas também apareceu recentemente no caso do jacaré flagrado na porta de uma casa em Buritama, outro sinal de como a expansão humana se sobrepõe a áreas de fauna nativa.
A Estação Ecológica de Santa Bárbara segue sob monitoramento
Passado quase uma década desde o início do estudo, a Estação Ecológica de Santa Bárbara segue como uma das principais áreas protegidas de Cerrado no interior paulista, cercada por rodovias, plantações e pastagens que fazem fronteira direta com a unidade de conservação.
O cuidado com espécies monitoradas dentro de unidades de conservação também apareceu recentemente no caso da onça-pintada Manchita, flagrada dentro do Parque Nacional do Iguaçu, outro exemplo de como câmeras e coleiras ajudam a entender a vida de bichos silvestres brasileiros.
Você já passou perto de um tamanduá-bandeira em uma estrada do Cerrado ou soube de algum caso parecido na sua região? Conte a experiência nos comentários.



