Ciência

Até 6.800 fungos por mililitro a 556 metros de profundidade: 13 espécies podem ser novas

Fungos vivem na água de poços de gás de Michigan, nos Estados Unidos, a até 556 metros de profundidade, numa densidade de 4.200 a 6.800 células por mililitro. A equipe da Universidade de Michigan cultivou 205 linhagens e diz que 13 podem ser espécies novas. O estudo saiu em julho.

Fungos a 556 metros de profundidade: filamentos brancos de fungo isolado do subsolo de Michigan, vistos ao microscópio eletrônico sobre superfície de rocha

Fungo isolado do subsolo profundo de Michigan e cultivado pela equipe, visto ao microscópio eletrônico (barra de escala: 30 micrômetros). Foto: Quinn Moon, Universidade de Michigan (divulgação, comunicado), recortada.

Dos 205 fungos cultivados a partir dessa água, 13 são candidatos a espécie nova, e nenhum deles tem ainda descrição formal. Os números vêm do artigo de Quinn Moon, Timothy James e colegas na The ISME Journal (DOI 10.1093/ismejo/wrag184) e do comunicado da universidade de 29 de julho de 2026.

Fungos a 556 metros de profundidade, num xisto que produz metano

O grupo amostrou o xisto Antrim, uma camada rica em matéria orgânica que se estende sob boa parte da região dos Grandes Lagos. A água saiu de poços de gás perfurados nessa rocha. No resumo do artigo, a profundidade vai de 247 a 556 metros, o que dá de 810 a 1.824 pés.

O comunicado da universidade cita outra faixa, de 650 a 1.640 pés (de 198 a 500 metros). A diferença é do texto de divulgação: o dado do artigo é o de 247 a 556 metros, e é o que vale aqui.

Até 6.800 células em cada mililitro

A contagem por microscopia deu de 4.200 a 6.800 células de fungo por mililitro. A universidade traduz assim: cerca de 250 células numa só gota, o mesmo que numa gota de água do mar, e mais de 12 trilhões numa piscina olímpica.

Bactérias continuam na frente. A proporção de fungos para bactérias, em células, ficou entre 1 para 7.028 e 1 para 713. Em biomassa, a mediana foi de 1 fungo para 4,7 bactérias, uma conta que usa fatores de conversão criados para sistemas oceânicos.

Os números do estudo, lado a lado

O que o estudo mediuResultadoComo ler
Células de fungo por mililitro de água4.200 a 6.800Cerca de 250 por gota, segundo a universidade
Fungos para cada bactéria, em número de célulasDe 1 para 7.028 a 1 para 713As bactérias seguem muito mais numerosas
Fungos para bactérias, em biomassa (mediana)1 para 4,7Usa fatores de conversão criados para o oceano
Grupos de DNA de fungos (OTUs)689, em seis filosNão são 689 espécies descritas
Linhagens isoladas e cultivadas205Hoje na coleção do Herbário da U-M
Candidatas a táxon novo13Ainda sem descrição formal

Fonte: resumo do artigo na The ISME Journal (PubMed) e comunicado da Universidade de Michigan. Arte: Watts & Wild.

689 grupos de DNA não são 689 espécies

O artigo fala em 689 unidades taxonômicas operacionais (OTUs) de fungos, em seis filos. OTU é um agrupamento de sequências de DNA parecidas, usado como aproximação de espécie. O comunicado escreve "689 espécies", mas o texto científico é mais cauteloso, e a diferença importa.

As classes dominantes foram Agaricomycetes e Dothideomycetes. Na superfície, os dois grupos são conhecidos por degradar compostos de carbono difíceis de quebrar, e os autores sugerem que façam algo parecido no subsolo.

13 candidatas a espécie nova, sem nome ainda

Além do DNA, a equipe isolou e cultivou 205 linhagens. Em 13 delas, o material genético indica táxons novos. Uma espécie só é nova de verdade depois de descrita e publicada, e isso ainda não aconteceu, por isso o artigo as chama de "candidatas".

As linhagens ficam no Herbário da Universidade de Michigan, a primeira coleção pública de fungos do subsolo profundo, segundo a universidade. Moon testa agora se elas quebram carvão, xisto, petróleo e plástico, mas o comunicado não traz resultado dessa etapa.

Água que viu a superfície pela última vez há 11 mil anos

Os isótopos da água indicam que ela provavelmente vem do derretimento das geleiras que cobriam Michigan no fim da última Era do Gelo. Segundo Moon, boa parte dela "foi a última vez em contato com a superfície há 11 mil anos". O artigo fala em recarga subglacial como explicação provável para a chegada dos micróbios.

O carbono do metano da rocha mostra que o gás vem sobretudo da conversão microbiana de carbono fóssil. Ou seja: o xisto é a comida na base dessa cadeia. Fenômeno parecido, com metano preso em rocha antiga, aparece na matéria sobre as geleiras de Svalbard que soltam metano.

Tardígrados, vermes e uma cadeia alimentar no escuro

Segundo o comunicado, a equipe achou também tardígrados, os "ursos-d'água", e pequenos vermes segmentados. Para os autores, os organismos formam uma teia alimentar subterrânea, com bichos que comem outros e talvez parasitas.

Bloco ilustrado do subsolo com camadas de xisto, fungos, bactérias, tardígrados e vermes em fissuras da rocha cheias de água
Esquema da cadeia alimentar subterrânea proposta pelos autores, com a coluna de rochas do Antrim Shale à direita (rótulos em inglês). Ilustração: John Megahan, Universidade de Michigan (divulgação, comunicado).

A universidade diz acreditar que é a primeira vez que a abundância de fungos foi medida com sucesso num ponto profundo do subsolo. Sobre outro limite da vida complexa, veja a ameba que se reproduz a 63 graus.

O que muda para o carbono guardado nas rochas

Carbono preso em rocha costuma ser tratado como guardado de vez. Se fungos e bactérias convertem parte dele em gás, o subsolo é mais ativo do que se supunha. "Fungos precisam entrar nos modelos de ciclagem e sequestro de carbono no subsolo", disse Timothy James, curador de fungos do herbário e autor sênior.

Moon defende que a biomassa e a diversidade de fungos do planeta podem estar subestimadas, porque o subsolo nunca entrou nessas estimativas. Para ela, há locais parecidos pelo mundo, e reservatórios de petróleo e gás também podem abrigar comunidades ainda sem descrição.

Um único sítio e uma conta de biomassa emprestada do oceano

Tudo isso vem de um conjunto de poços no xisto Antrim. Não dá para dizer que os números valem para outras rochas. A razão de biomassa depende de fatores de conversão desenvolvidos para sistemas oceânicos, não para fungos do subsolo.

Também falta saber se esses fungos nasceram aí ou foram levados pela água. James admite que, de um jeito ou de outro, muitos têm adaptações para crescer e mexer no carbono em profundidade. É um único estudo, publicado há dois meses.

Onde conferir o estudo

O resumo está no PubMed e a página do artigo na Oxford Academic. O comunicado completo, com fotos e a lista de coautores, fica no site de notícias da Universidade de Michigan.

Fontes: Moon et al., The ISME Journal, DOI 10.1093/ismejo/wrag184. PubMed, registro 42521249. Universidade de Michigan, comunicado de 29 de julho de 2026.

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