Alta de 244% ou de 282%? Os focos de calor no Amazonas chegaram a 3.365 entre 1º e 24 de setembro de 2026, e a diferença entre os dois números está no pedaço do calendário que cada conta compara
O Amazonas somou 3.365 focos de calor de 1º a 24 de setembro de 2026, 278% acima dos mesmos dias de 2025, segundo o INPE. Os 282% que circularam comparam 1º a 19 de setembro nos dois anos; os 244% põem 22 dias de 2026 contra todo o setembro de 2025.
Barco navega no rio Madeira em meio à fumaça das queimadas, perto da balsa entre Humaitá e Apuí, no Amazonas, em agosto de 2020. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
O Amazonas chegou a 3.365 focos de calor entre 1º e 24 de setembro de 2026, segundo o painel de estatísticas por estado do Programa Queimadas, do INPE, atualizado na manhã de 25 de setembro. Nos mesmos dias de 2025, foram 890 focos, e a alta ficou em 278%.
Até o dia 23, o estado somava 3.259 focos, número detalhado na cobertura dos focos de calor no Amazonas em setembro. O dia 24 acrescentou 106 focos, contra 17 na mesma data do ano passado. Nesse meio tempo, uma segunda alta, de 244%, passou a circular ao lado da de 282%.
As duas porcentagens partem de dados corretos do INPE, mas medem coisas diferentes: os 282% comparam intervalos iguais, e os 244% comparam 22 dias de 2026 com 30 dias de 2025. Pelo mesmo intervalo, de 1º a 22 de setembro, a alta seria de 319%.
Os 244% põem 22 dias de 2026 contra o setembro inteiro de 2025
Entre 23 e 24 de setembro, sites de notícias publicaram que o Amazonas teve 3.240 focos de 1º a 22 de setembro, alta de 244% sobre os 942 do mesmo período de 2025. O número 3.240 confere com o painel do INPE para esses 22 dias.
O 942, porém, é o total do setembro inteiro de 2025, do dia 1º ao dia 30. De 1º a 22 de setembro do ano passado, o satélite de referência contou 773 focos no Amazonas, e a alta para os mesmos dias é de 319%.
Os 282% comparam de 1º a 19 de setembro nos dois anos
A alta de 282% vem de 2.384 focos entre 1º e 19 de setembro de 2026, contra 624 no mesmo intervalo de 2025. Aqui os dois períodos têm o mesmo tamanho, e a conta bate com os dados diários do INPE: alta de 282,1%.
O painel do instituto mostra lado a lado os focos de cada dia do mês corrente e do mesmo mês do ano anterior. Com essa correspondência dia a dia, a porcentagem compara períodos equivalentes, sem somar dias a mais de um lado só.
Um único dia com 363 focos mudou a alta de 236% para 282%
Os focos não chegam em ritmo constante. Em 2026, o dia 22 teve 520 focos e o dia 16 não teve nenhum; em 2025, o dia 23 somou 100. Cortar a conta um dia antes ou depois, então, mexe bastante na porcentagem.
Até o dia 18, a alta era de 236%. Com os 363 focos do dia 19, subiu para 282%. Chegou a 319% no dia 22 e caiu para 273% no dia 23, que teve 19 focos em 2026 e 100 em 2025.
Em todos os 24 recortes possíveis a partir do dia 1º, a alta sobre 2025 ficou acima de 236%. A direção não muda com a data escolhida, só o tamanho do número.
No dia 6, o acumulado de 2026 já passava todo o setembro de 2025
Com 400 focos em 6 de setembro, o acumulado de 2026 chegou a 1.163 e deixou para trás os 942 do setembro inteiro de 2025. Até o dia 24, o total do mês já equivalia a 3,6 vezes o setembro anterior completo.
Setembro de 2025 foi o mais fraco para o Amazonas desde 2001 na série histórica do INPE. Uma base tão baixa faz qualquer alta parecer gigante em porcentagem, e por isso o número absoluto conta tanto quanto o percentual.
Com seis dias ainda por contar, setembro de 2026 supera 17 dos 28 anteriores
A série do INPE para o Amazonas começa em 1998. Dos 28 setembros entre 1998 e 2025, 17 terminaram com menos focos do que os 3.365 contados em 2026 até o dia 24. A média desses 28 meses é de 3.211 focos.
O recorde de setembro segue com 2022, que fechou com 8.659 focos. Para igualar essa marca, o estado precisaria somar mais 5.294 focos entre 25 e 30 de setembro, mais do que tudo o que o satélite contou no mês até o dia 24.
Novo Aripuanã, Lábrea e Autazes lideram os focos do mês no estado
Novo Aripuanã, no sul do Amazonas, concentra 452 focos de 1º a 24 de setembro, contra 51 nos mesmos dias de 2025. Lábrea e Autazes vêm logo atrás, empatados com 232 cada, e Apuí aparece em quarto, com 218.
Manacapuru teve 201 focos no período, contra 8 um ano antes, e Manaquiri teve 115, contra 7. Os dez municípios com mais focos respondem por 62% do total do estado, que teve registros em 55 cidades.
Arquivo bruto e painel do INPE dão o mesmo total em cada um dos 24 dias
O Programa Queimadas publica os focos de duas formas: em arquivos com um registro por ponto detectado e no painel de estatísticas por estado. Filtrados pelo satélite de referência, os arquivos trazem exatamente os totais do painel em cada dia de setembro.
Foco de calor é um ponto quente detectado pelo satélite, e não um incêndio contado no chão nem área queimada. A mesma base do INPE sustenta o ranking dos 20 municípios brasileiros com mais focos em 2026.
A alta dos focos chega com o Amazonas em emergência por estiagem
Desde 21 de setembro, o estado está em situação de emergência por estiagem. O decreto estadual de 180 dias estima que a seca possa afetar cerca de 648 mil pessoas no Amazonas.
Na capital, a Prefeitura de Manaus mediu 188,5 microgramas de partículas finas por metro cúbico de ar em 23 de setembro. Com esse nível, a qualidade do ar em Manaus foi classificada como péssima.
Quando o painel do INPE mostra o setembro de 2026 fechado?
O painel do INPE é atualizado todos os dias com os dados até a véspera. O total de 25 de setembro entra na atualização do dia 26, e o fechamento do mês, com os focos do dia 30, fica disponível em 1º de outubro.
Até lá, a comparação justa continua sendo a de dias iguais nos dois anos. Na próxima porcentagem de focos que aparecer no seu celular, qual período ela compara de verdade, e contra quantos dias do ano anterior?



