Três em cada quatro florestas tropicais tiveram seca e calor inéditos em 2023-24; Amazônia é a mais vulnerável
Cerca de 75% das áreas de florestas tropicais do mundo passaram por pelo menos seis meses seguidos de seca e calor sem precedentes durante o El Niño de 2023-24. Estudo publicado em 7 de outubro na Earth's Future vê nisso uma prévia das próximas duas décadas.
Foz do rio Amazonas vista pelo satélite Copernicus Sentinel-2A em 22 de agosto de 2017. No canto superior esquerdo, áreas de mata já derrubadas. A imagem é anterior ao período do estudo. Imagem: Copernicus Sentinel/ESA, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0 IGO, recortada.
Três em cada quatro florestas tropicais do planeta sofreram seca e calor sem precedentes no El Niño de 2023-24, e a Amazônia é a região mais vulnerável. O estudo foi publicado em 7 de outubro na Earth's Future, e a Agência FAPESP ouviu autores ligados à Unicamp.
Se as emissões de gases de efeito estufa não caírem, o que foi extremo em 2023-24 deve virar rotina nas próximas duas décadas. A conclusão é da equipe internacional que assina o trabalho.
Como os cientistas chegaram aos 75%
A equipe combinou dados de satélite e de observação com projeções de 24 modelos climáticos, em quatro cenários de emissões. O passado vai de 2000 a 2024 e o futuro, até 2100.
Cada região foi medida contra o próprio clima de referência. Um evento só conta como extremo se for fora do normal para aquele lugar, o que permite comparar florestas em continentes diferentes.
Johanna Van Passel, autora correspondente, é cientista da Universidade Ghent (Bélgica) e pesquisadora visitante no Instituto de Biologia da Unicamp. Ela disse à agência que a área e a duração das secas e ondas de calor de 2023-24 foram as maiores dos últimos 25 anos.
Por que a Amazônia está no alerta máximo
A Amazônia é a região tropical mais vulnerável ao novo padrão. Se as emissões continuarem crescendo, a chance de o bioma sofrer secas tão severas quanto as do último biênio pode subir até nove vezes até o fim do século, e isso mesmo em anos sem El Niño.
O estudo também olhou só para a chuva. Os níveis baixos de 2023-24 podem ficar de duas vezes (Nordeste do Brasil) a nove vezes (Amazônia) mais prováveis nos dois cenários mais altos de emissões.
As projeções de chuva divergem mais de uma região para outra do que as de temperatura. Amazônia, América Central, África Austral e parte do leste da Ásia devem ficar mais secas, e o resto dos trópicos tende a ficar mais úmido.
Quando as florestas tropicais passam a emitir carbono
Sob estresse térmico desse tamanho, segundo os pesquisadores, a floresta entra em colapso funcional. Em vez de absorver gases que aquecem o planeta, ela passa, temporariamente, a emitir carbono para a atmosfera.
Todos os modelos indicaram que cerca de 80% dos meses de calor extremo caíram na estação chuvosa. Isso importa porque o efeito sobre a fotossíntese muda com a época.
Na chuvosa, mais luz e água para transpirar podem até ajudar a planta. Na seca, o solo não tem água para resfriar as folhas, o transporte de água pelo xilema pode falhar e parte das copas morre.
Quando seca e calor chegam juntos e duram, o dano se soma. Os autores dizem que os mecanismos por trás disso ainda são pouco esclarecidos.
O que 2023-24 deixou no Amazonas
No Brasil, os rios do Amazonas baixaram até os menores níveis registrados e isolaram comunidades.
A água quente dos lagos matou mais de 300 botos, uma mortandade inédita no Estado. Em um único dia de 2023, com a água acima de 39 °C, voluntários encontraram 70 carcaças, segundo a legenda de foto do Instituto Mamirauá publicada pela agência.
Um levantamento do MapBiomas apontou que 38% das localidades da região amazônica, 2.172 de 5.673, tiveram alta exposição à seca de setembro a novembro de 2024.
O Inpe já vê parte desse futuro na floresta brasileira
A agência lembra que o resultado vai na mesma direção de dois estudos liderados pelo Inpe. Eles indicam estações secas que passam de quatro para até seis meses e déficit hídrico acima de 150 milímetros na Amazônia brasileira.
No El Niño 2023-24, as áreas queimadas cresceram 9% em média e os alertas de degradação florestal, 19%. Os autores leem isso como um ciclo de seca, fogo e degradação que se fortalece.
Para ver como andam os focos neste ano, há a matéria sobre os focos de calor de setembro de 2026, e sobre o limite de desmatamento, a que traz a fala de Carlos Nobre sobre o ponto de não retorno.
O El Niño 2026-27 já está a caminho
A agência diz que o El Niño 2026-27 está próximo, com efeitos já sentidos na América do Sul. As previsões indicam que ele deve chegar à categoria "muito forte" até o início do verão, a máxima da escala. Os últimos "super El Niño" no século foram em 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
O de 2023-24 não foi "super", mas teve efeitos intensos. A literatura científica ligou isso ao aquecimento do planeta: 2024 foi o ano mais quente da história, com 1,55 °C acima do período pré-industrial, segundo a Organização Meteorológica Mundial.
"Estamos preocupados porque agora pode ser ainda pior, infelizmente", disse Van Passel.
Ela também afirmou que o futuro depende da trajetória das emissões: "A previsão é ruim, mas temos opções." No Brasil, o fenômeno costuma dar mais chuva no Sul e menos no Norte e no Nordeste, e o assunto já foi tratado em o El Niño mais forte desde 1950.
Os números do estudo, traduzidos
| Número do estudo | O que significa |
|---|---|
| Cerca de 75% | Parcela das áreas de florestas tropicais do mundo com pelo menos seis meses seguidos de seca e calor sem precedentes em 2023-24 |
| Até 9 vezes | Quanto a Amazônia pode ficar mais exposta a secas tão severas quanto as do último biênio até 2100, se as emissões seguirem subindo |
| 2 a 9 vezes | Aumento da chance de chuva tão baixa quanto a de 2023-24, do Nordeste do Brasil (2x) à Amazônia (9x), nos dois cenários mais altos de emissões |
| Pelo menos 6 vezes | Aumento da chance de temperaturas médias altas em todas as regiões tropicais, mesmo no cenário de emissões mais baixas |
| Cerca de 80% | Parcela dos meses de calor extremo que caiu na estação chuvosa, em todos os modelos |
Arte: Watts & Wild, com dados da Agência FAPESP sobre o estudo publicado na Earth's Future em 7 de outubro de 2026.
O que o estudo não fecha
Os números acima vêm da Agência FAPESP, que entrevistou dois autores. O artigo completo, "The 2023-2024 El Niño as a preview of future tropical forest climate", está na revista Earth's Future, em doi.org/10.1029/2026EF008071.
O "novo normal" é uma projeção e depende do caminho das emissões. Mesmo no cenário mais baixo, as temperaturas altas ficam pelo menos seis vezes mais prováveis. As projeções de chuva variam por região, e a chance de seca extrema na Amazônia sobe mais nos cenários de emissões altas.
Fontes: Agência FAPESP, 7 de outubro de 2026. Agência FAPESP, estudos do Inpe sobre secas na Amazônia. Earth's Future, artigo original. Imagem: Wikimedia Commons / ESA.



