Animais e natureza

Uma fêmea de elefante-marinho-do-sul deu à luz um filhote no litoral de Jaguaruna, no Sul de Santa Catarina, longe das colônias da espécie, e mãe e filhote ficam sob vigilância diária por pelo menos três semanas

O PMP-BP e o Museu de Zoologia da Unesc atenderam no sábado, 26 de setembro, uma fêmea de elefante-marinho-do-sul com o filhote recém-nascido em Jaguaruna. A espécie costuma se reproduzir em ilhas subantárticas, o litoral catarinense não é área de reprodução, e a orientação ao público é ficar longe da dupla.

Fêmea de elefante-marinho-do-sul deitada na areia com o filhote escuro recém-nascido encostado ao corpo, à beira-mar no litoral de Jaguaruna

A fêmea de elefante-marinho-do-sul e o filhote de pelagem escura na areia de Jaguaruna, em 26 de setembro de 2026. Frame de vídeo: PMP-BP/Divulgação (via Portal Engeplus).

Uma fêmea de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina) foi encontrada com um filhote recém-nascido no litoral de Jaguaruna, no Sul de Santa Catarina, na manhã do sábado, 26 de setembro de 2026. A área foi isolada e a dupla passou a ser vigiada todos os dias.

O atendimento ficou com o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Pelotas (PMP-BP) e o Museu de Zoologia da Unesc, com apoio dos Bombeiros Voluntários de Jaguaruna, segundo o portal TN Sul.

Por que o caso chama atenção? Porque o elefante-marinho-do-sul costuma nascer em colônias bem mais ao sul, e não em praia catarinense. Quem cruzar com a dupla deve manter distância, não tocar nos animais e não chegar perto para fazer foto ou vídeo.

O aviso chegou à equipe por volta das 8h de sábado

Pelo relato do TN Sul, a equipe foi acionada perto das 8h. No local, estavam a mãe e o filhote recém-nascido, que passaram a ser atendidos pelas equipes de monitoramento e pelos bombeiros voluntários.

A coordenadora pediu que a população evite ir até o local, para não provocar aglomeração em volta dos animais. A área em volta da dupla foi isolada pelas equipes.

Mãe e filhote no litoral de Jaguaruna, no vídeo de 39 segundos divulgado pelo PMP-BP. Vídeo: PMP-BP/Divulgação (via Portal Engeplus, no YouTube).

O som parecido com choro é o filhote pedindo leite

Nas imagens, o filhote vocaliza ao lado da mãe com um som que lembra choro de criança. O TN Sul explica que o chamado parece choro, mas indica fome.

Mãe e filhote aparecem sempre colados um ao outro nas imagens. A fêmea está em terra para amamentar, e o pedido das equipes é que ninguém chegue perto da dupla.

Filhote de elefante-marinho de pelagem escura com a boca aberta, vocalizando, deitado ao lado da mãe cinzenta na areia da praia
Mãe e filhote juntos na areia de Jaguaruna, com a fêmea de boca aberta. Frame de vídeo: PMP-BP/Divulgação (via Portal Engeplus).

Santa Catarina não é área de reprodução da espécie

"Essa é uma ocorrência rara porque o nosso litoral não é uma área de reprodução", disse ao TN Sul Morgana Gaidzinski, coordenadora do Setor B do PMP-BP e do Museu de Zoologia da Unesc. Ao Só Notícia Boa, ela lembrou que as colônias costumam se formar mais ao sul.

A espécie se reproduz em colônias densas, sobretudo em ilhas subantárticas, onde as fêmeas sobem à praia para parir entre setembro e novembro. Mais da metade da população mundial se concentra na Geórgia do Sul, de acordo com a Coalizão da Antártida e do Oceano Austral (ASOC).

Em Garopaba, o PMP-BS registrou em 2024 o primeiro nascimento no Brasil

A própria coordenadora citou um caso de dois anos atrás. Em 11 de outubro de 2024, uma fêmea e um filhote foram achados em Garopaba, também em Santa Catarina, e o bebê tinha provavelmente nascido na noite anterior.

Aquele atendimento foi do Instituto Australis, pelo Trecho 2 do PMP-BS, com apoio veterinário do PMP-BS/Udesc. Na nota do Comunica Bacia de Santos, a Petrobras descreveu o episódio como a primeira vez que o nascimento de um filhote da espécie foi registrado no país.

O macho chega a três toneladas; o filhote nasce com cerca de 40 quilos

Os machos adultos chegam a 3.000 quilos, e as fêmeas pesam de 300 a 900 quilos antes do parto, segundo o Programa Antártico Australiano.

Ao nascer, o filhote pesa cerca de 40 quilos pela conta australiana; a nota da Petrobras de 2024 fala em média de 45. São médias medidas nas colônias da espécie.

A mãe passa semanas praticamente sem comer para produzir leite

Durante cerca de três semanas, a fêmea fica em terra quase sem se alimentar e usa a própria gordura para fazer um leite muito nutritivo, segundo o TN Sul. É isso que faz o filhote ganhar peso depressa.

A amamentação dura em média 24 dias, pelo programa australiano, e cerca de 20 dias, pela nota de 2024. Nas colônias, o filhote desmamado pesa em média 120 quilos, e alguns passam de 220.

Fêmea de elefante-marinho-do-sul de pelagem cinza e bege descansando de olhos fechados, com o focinho encostado na areia molhada da praia
A fêmea descansa na areia de Jaguaruna; nesta fase, ela vive das reservas de gordura. Frame de vídeo: PMP-BP/Divulgação (via Portal Engeplus).

Retirar a dupla da praia não é uma opção

Em Garopaba, a nota da Petrobras deixou claro que um resgate era inviável por causa do tamanho da fêmea e da presença do filhote, que depende dela. A saída foi isolar a área e acompanhar.

Em Jaguaruna, o caminho é o mesmo: área isolada e monitoramento diário por pelo menos três semanas, a fase de amamentação, segundo o PMP-BP e a Unesc. Nesse período, o filhote fica em terra com a mãe.

Os prazos das colônias subantárticas não servem de calendário

As equipes se comprometem com pelo menos três semanas de acompanhamento diário. Os números de amamentação medidos nas colônias do Oceano Austral descrevem a espécie, e não funcionam como previsão para a dupla de Jaguaruna.

O prazo divulgado pelo PMP-BP e pela Unesc é o de pelo menos três semanas de acompanhamento diário, com a área isolada. É por ele, e pelo que as equipes observarem a cada dia, que a dupla vai ser acompanhada.

A gripe aviária levou a espécie para a categoria vulnerável em 2026

Em 9 de abril de 2026, a IUCN tirou o elefante-marinho-do-sul da categoria de menor preocupação e o classificou como vulnerável na Lista Vermelha global.

O motivo é a influenza aviária de alta patogenicidade. A doença atingiu quatro das cinco grandes subpopulações e matou mais de 90% dos filhotes recém-nascidos em algumas colônias, pelo comunicado da IUCN.

Na Península Valdés, o H5N1 provocou mortandade maciça em 2023

O surto que atingiu os elefantes-marinhos da Península Valdés, na Patagônia argentina, em outubro de 2023, foi descrito como maciço por pesquisadores num artigo publicado na Nature Communications em 2024.

O estudo, assinado por Marcela Uhart e colegas, registra que o H5N1 matou milhares de mamíferos marinhos na América do Sul desde 2022. Os vírus dos animais marinhos da Argentina formam um grupo com os achados no Peru, no Chile, no Brasil e no Uruguai.

O que fazer se encontrar um elefante-marinho na praia?

Manter distância, não tocar no animal e não se aproximar para foto ou vídeo. Essa é a orientação das equipes em Jaguaruna, repetida pelo Só Notícia Boa. "A aproximação pode estressar a fêmea e fazer com que ela abandone o filhote", disse Morgana.

Em Garopaba, em 2024, o pedido do PMP-BS foi ainda mais concreto: ficar a no mínimo 50 metros e manter os animais domésticos longe da dupla.

Perseguir ou apanhar animal silvestre é crime ambiental

O artigo 29 da Lei 9.605, de 1998, pune quem mata, persegue, caça, apanha ou utiliza espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem autorização da autoridade competente.

A pena prevista é detenção de seis meses a um ano, e multa. O mesmo artigo alcança quem impede a procriação da fauna sem licença, com a mesma pena.

Para quem ligar ao ver um mamífero marinho numa praia de SC?

Para a equipe de monitoramento de praias da região. No Sul catarinense, onde fica Jaguaruna, quem atende é o PMP-BP, e os Bombeiros Voluntários de Jaguaruna apoiaram o caso da dupla. Mais ao norte, na área do PMP-BS, a nota de 2024 sobre Garopaba divulgou o 0800 642 3341 para Santa Catarina e o Paraná.

No trecho de Jaguaruna, a Unesc monitora cerca de 58 quilômetros de praias desde novembro de 2025, segundo o TN Sul, e é essa equipe que acompanha a dupla agora.

O acompanhamento diário do PMP-BP e da Unesc segue nas próximas semanas, com a área isolada em volta da mãe e do filhote no litoral de Jaguaruna.

Leia também: o peixe-boi-marinho, que passou a ser criticamente em perigo no Nordeste, o ciclo completo da desova das tartarugas marinhas no Brasil e as baleias-jubarte em número incomum no litoral do Rio em 2026.

Você já viu algum bicho marinho descansando na areia de uma praia do Sul, e sabia que o certo era chamar a equipe em vez de chegar perto?

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