Drone térmico acha mais de 60 muriquis-do-norte em parque de Minas
O muriqui passa a vida no alto das árvores e quase nunca se deixa contar. Um drone com câmera de calor mudou isso no Alto Cariri, em Minas, e a conta saiu muito maior do que os pesquisadores conheciam desde 2004.
Muriqui-do-norte na Reserva Biológica da Mata Escura (MG). Foto de arquivo, não é o registro do drone. Foto: Ednardo Martins, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Um drone térmico identificou mais de 60 muriquis-do-norte, divididos em pelo menos três grupos, no Parque Estadual do Alto Cariri, em Minas Gerais. O equipamento achou os animais pelo calor do corpo, entre as copas das árvores, segundo o g1 Terra da Gente de 7 de outubro de 2026.
O drone foi emprestado pelo biólogo Fabiano Rodrigues de Melo, o Bião Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa, ao gestor do parque, Jones Lacerda. O parque é administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e tem 6,1 mil hectares.
O drone térmico entra onde o olho não chega
O muriqui vive no alto das árvores, e é por isso que contar o bicho é tão difícil. A câmera de calor do drone capta o calor corporal e destaca cada animal contra a folhagem, o que facilita achar os grupos e contar os indivíduos.
Bião Melo foi pioneiro na América Latina no uso de drones para trabalhar com primatas em florestas tropicais, segundo a reportagem.
Como a equipe achou os grupos
O drone não saiu voando às cegas. Os voos seguiram um mapa de áreas com mais chance de ter o bicho, feito com o monitoramento que o parque já fazia. As equipes chegaram por trilhas existentes e, quando deu, decolaram de pontos mais altos do terreno.
Os registros saíram durante uma atividade de monitoramento ao amanhecer, com os muriquis nas copas. Lacerda descreveu o momento como de grande emoção e realização profissional.
De 4 a 7 muriquis em 2004 para mais de 60 hoje
Bião Melo conta que descobriu os animais ali em 2004 e só conhecia de 4 a 7 indivíduos, de um único grupo. Agora são mais de 60 em pelo menos três grupos, ou seja, ao menos oito vezes mais do que se sabia.
Nas palavras dele, a equipe não tinha noção do tamanho da população.
A comparação tem uma ressalva. A conta de 2004 mostra o que os pesquisadores conseguiam ver, e não quantos muriquis viviam lá. O que mudou foi o método, e é por isso que o número saltou.
| Marco | O que se contava | Fonte da conta |
|---|---|---|
| 2004 | 4 a 7 muriquis, de um só grupo | Fabiano Rodrigues de Melo, da UFV |
| Voos do drone no Alto Cariri | Mais de 60 muriquis, em pelo menos 3 grupos | Parque Estadual do Alto Cariri |
| Brasil, estimativa de especialistas | Cerca de 1.000 muriquis-do-norte, em 12 populações conhecidas | g1 Terra da Gente |
| Parte do Alto Cariri no total | Ao menos 6%, se as duas contagens valerem | Conta da redação |
Arte: Watts & Wild, com dados do g1 Terra da Gente de 7 de outubro de 2026. A conta de 6% divide 60 por 1.000 e é só uma ordem de grandeza.
Por que o muriqui-do-norte é tão raro
O muriqui é o maior primata sul-americano e pode pesar até 15 quilos. Tem braços longos e uma cauda preênsil que funciona como um quinto membro, usada para se apoiar e se mover entre os galhos.
Especialistas estimam cerca de 1.000 muriquis-do-norte na natureza, em 12 populações conhecidas. A maioria vive hoje em unidades de conservação. Quando um grupo corre risco, os animais podem ser levados para áreas mais protegidas.
Por que o grupo só aparece agora
Para Bião Melo, o aumento dos registros em Minas vem de várias frentes: unidades de conservação criadas em 2008, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural em 2009 e o Parque Nacional do Alto Cariri, na Bahia, ao lado do parque mineiro, em 2010.
Ele diz que a região ficou mais protegida e que a caça foi estancada. Em 2022, viu um grupo que fugiu da equipe, sinal, nas palavras dele, de que ainda guardava a lembrança da caça.
Quem acompanha a vida dos primatas pode ler também sobre o macaco-prego que escolhe pedras já usadas e o censo do mico-leão-dourado na Mata Atlântica.
O que vem depois do drone
A equipe também coletou fezes para estudo genético das populações. Para o parque, os dados ajudam a definir prioridades e a acompanhar os grupos ao longo do tempo.
Existem ainda um Plano de Ação Nacional para os primatas da Mata Atlântica e um programa de manejo populacional do muriqui-do-norte, política pública oficializada pelo ICMBio.
O monitoramento no Alto Cariri inclui educação ambiental e prevenção de incêndios florestais. Sobre a relação do ser humano com outros primatas, veja o estudo com 100 espécies.
O que a contagem ainda não prova
Mais de 60 é uma contagem de campo, não um censo fechado, e o número pode mudar com novos voos. A estimativa de cerca de 1.000 muriquis na natureza vem de especialistas, e não de uma contagem única do país inteiro.
A reportagem cita falas de Lacerda e de Bião Melo, mas os dados do estudo genético ainda vão ser analisados. Por ora, o que existe é a contagem pelo calor do corpo e o registro do parque.
Fontes: g1 Terra da Gente, 7 de outubro de 2026, atualizada em 8 de outubro. Fotos: Ednardo Martins, Wikimedia Commons e Kenny Ross, Wikimedia Commons.



