Humano não é tão “programado” para matar: estudo com 100 primatas separa briga do dia a dia de violência letal
Quem briga muito não é, por isso, quem mais mata. Pesquisadores da Universidade de Lincoln, no Reino Unido, compararam cinco tipos de agressão em 100 espécies e subespécies de primatas, humanos incluídos, e viram que a violência letal segue um caminho evolutivo à parte da briga comum.
Chimpanzé no Zoo de Karlsruhe (Alemanha), em março de 2018. A espécie, com duas subespécies, está entre os primatas comparados. Foto: H. Zell, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0, recortada.
A briga do dia a dia e a violência letal não evoluíram juntas entre os primatas. É a conclusão de Bonaventura Majolo, Samantha Wakes e Marcello Ruta, da Universidade de Lincoln, em artigo de março de 2026 na Evolution Letters (volume 10, páginas 207 a 216). A universidade divulgou o resultado em comunicado, republicado no ScienceDaily.
O que o estudo com 100 primatas comparou
A equipe reuniu dados de pesquisas publicadas e inéditas sobre 100 táxons: 98 espécies e dois pares de subespécies, de 43 gêneros e 11 famílias. Entraram só grupos selvagens, sem comida dada por humanos, de espécies que vivem em grupos estáveis. O resumo do artigo diz que os humanos estão na amostra.
Os pesquisadores separaram cinco tipos de agressão, que a tabela abaixo resume. Cada um tem unidade de medida própria. Para os três tipos letais, a falta de dados detalhados obrigou o grupo a registrar apenas se o comportamento aparece ou não na espécie.
Quem briga mais não mata mais
Espécies com mais briga leve, entre grupos ou dentro do grupo, não têm maior potencial de matar. Os dois tipos de agressão leve mostraram ligação fraca com a violência letal, segundo o artigo. A influência da árvore genealógica também foi menor sobre a briga leve do que sobre a letal.
O ponto contraria uma ideia comum em teorias sobre as origens da violência, a de que a agressão é um traço único: quem briga bastante estaria mais perto de matar. Os autores escrevem que o salto da briga para a morte segue padrões mais complexos do que os modelos atuais preveem.
| Tipo de agressão | O que conta | O que o estudo achou |
|---|---|---|
| Briga leve entre grupos | Gritos, gestos, perseguições, empurrões e mordidas sem risco de vida, em encontros entre grupos | Pouco ligada à violência letal |
| Briga leve dentro do grupo | Os mesmos comportamentos, de um adulto contra outro do mesmo grupo | Pouco ligada à violência letal |
| Morte de adulto entre grupos | Um ou mais adultos matam adultos de outro grupo | Liga-se à morte de adulto dentro do grupo e ao infanticídio |
| Morte de adulto dentro do grupo | Um ou mais adultos matam adultos do próprio grupo | Liga-se às outras duas formas de violência letal |
| Infanticídio | Morte de filhotes | Liga-se às duas formas de morte de adulto, com força moderada |
Arte: Watts & Wild, com dados do artigo de Majolo, Wakes e Ruta na Evolution Letters (2026).
Matar adultos e matar filhotes andam mais juntos
Os três tipos de violência letal tiveram correlação positiva entre si. A força dessa ligação foi moderada, e menor quando o agressor era fêmea do que quando era macho. Por isso o artigo recomenda cautela ao juntar todas as formas de morte em uma só categoria.
A morte de adultos teve influência genealógica maior que a briga leve, sobretudo quando os pesquisadores separaram os dados pelo sexo de quem ataca. Cerca de um quinto dos táxons da amostra mostrou morte de adulto, entre grupos ou dentro do grupo.
Por que a briga não vira morte
O artigo propõe três explicações possíveis, todas hipóteses dos autores. As condições ecológicas e sociais que empurram uma briga para a morte, como recurso valioso ou rivais de força parecida, podem ser raras nas espécies mais briguentas.
Matar também pode custar caro demais, em risco e em esforço do corpo. A terceira hipótese é que essas espécies desenvolveram freios mais eficazes, como estratégias para administrar conflitos.
Infanticídio aparece três vezes mais que a morte de adultos
Na amostra, o infanticídio apareceu cerca de três vezes mais que a morte de adultos. Os autores dizem que isso pode refletir pesquisa mais sistemática sobre filhotes ou o risco menor para o agressor.
Matar um adulto, por sua vez, exige cooperação entre atacantes e planejamento, como emboscadas. Nos primatas não humanos, os autores dizem que isso tende a ocorrer sem plano, por acaso, com possível exceção dos chimpanzés.
Outro estudo recente com a espécie, o do abacaxi roubado de amigos, saiu aqui.
O que Majolo diz sobre a natureza humana
Majolo, professor de evolução social em Lincoln, resumiu a conclusão no comunicado. Em tradução livre, o estudo mostra que a evolução da agressão segue padrões mais complexos que os dos modelos anteriores:
“É biologicamente incorreto ordenar espécies pela propensão geral à agressão, e precisamos de uma abordagem mais nuançada ao discutir se os humanos são inerentemente violentos.”
O artigo vai na mesma direção: humanos e outros animais não podem ser descritos como violentos, nem como pacíficos, de forma indiscriminada. O debate sobre a origem da violência humana, que de um lado põe a história evolutiva profunda e de outro a agricultura e as sociedades com Estado, segue aberto, segundo o comunicado.
O que a comparação entre primatas não prova
O trabalho compara espécies e não mede quantas mortes ocorrem. Por falta de dados, os autores não puderam analisar a frequência da violência letal, só se ela existe ou não em cada táxon. Ter potencial de matar e matar muito, afirmam, podem ter origens diferentes.
O número de espécies com morte de adulto, um quinto, deve ser conservador, porque esses eventos são raros e difíceis de observar na natureza. A diferença entre infanticídio e morte de adultos também pode refletir quanto cada tema foi estudado. O artigo não afirma que humanos sejam pacíficos nem que não sejam violentos.
Onde ler o artigo e os dados
O artigo é de acesso aberto, sob licença CC BY 4.0, e está no PubMed Central. Os dados usados na comparação estão no repositório da Universidade de Lincoln. Quem acompanha pesquisas sobre origem humana encontra outra, de reconstrução de rosto, em a cara do Homo sapiens mais antigo.
Fontes: Majolo, Wakes e Ruta, Evolution Letters 10(2):207-216, 2026. Texto completo no PubMed Central. Comunicado da Universidade de Lincoln, republicado no ScienceDaily. Conjunto de dados, Universidade de Lincoln.



