Cocaína em rios do Rio aparece em 59 de 60 amostras e faz mal a peixes, mostra a Fiocruz
Pesquisadores coletaram água todo mês, por um ano, em cinco rios e canais que deságuam na Baía de Guanabara. Das 60 amostras, só uma ficou sem cocaína, e todas tinham o subproduto que o corpo gera ao processar a droga. Em laboratório, embriões de peixe expostos a essas doses morreram mais e nasceram com malformações.
Margens do Rio Meriti, na Baixada Fluminense, em 2013. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil, Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 BR, recortada.
Cocaína apareceu em 59 de 60 amostras de água de cinco rios e canais do Rio de Janeiro, segundo uma pesquisa liderada pela Fiocruz. A equipe achou também, em todas as amostras, a benzoilecgonina, subproduto que sai na urina de quem usou a droga, de acordo com o comunicado da Fiocruz de 6 de outubro.
Os níveis foram maiores que os medidos em estudos parecidos na Bélgica, na Espanha e nos Estados Unidos. Os dados saíram na revista científica Aquatic Toxicology.
Cinco rios e canais, doze meses de coleta
A água foi coletada todo mês entre julho de 2022 e junho de 2023. Os pontos foram os rios Irajá e Carioca e os canais do Cunha e do Mangue, na capital, e o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Todos deságuam na Baía de Guanabara.
O estudo é coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), com Ensp, INCQS, UERJ, UFRJ e Unirio, e teve financiamento da Faperj. Faz parte da tese de doutorado de Gabriel de Farias Araujo, orientada pelo pesquisador Enrico Saggioro.
Cinco pontos por doze meses dão 60 amostras. Em 59 delas havia cocaína, ou 98%, e em todas havia o subproduto. A tabela resume o que a Fiocruz descreve.
| O que se mediu em 12 meses de coleta | Resultado |
|---|---|
| Amostras de água (5 rios e canais x 12 meses) | 60 |
| Amostras com cocaína | 59 (98%) |
| Amostras com benzoilecgonina, o subproduto | 60 (100%) |
| Amostras com mais subproduto do que cocaína | quase todas |
| Amostras com padrão inverso | 1 (cocaína 4 vezes maior) |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da Fiocruz de 6 de outubro de 2026. O percentual é conta da redação.
De onde vem a droga que aparece no rio
A benzoilecgonina é o que o organismo produz depois de metabolizar a cocaína e eliminar pela urina. Em quase todas as amostras, havia mais dela do que da droga original, e isso combina com a chegada por esgoto que carrega dejetos de usuários, segundo o comunicado.
A exceção foi uma amostra em que a cocaína estava quatro vezes acima do subproduto. Para os pesquisadores, esse padrão invertido indica possível descarte da droga na água.
O que a cocaína em rios do Rio faz com os peixes
Para medir o efeito, a equipe usou embriões de peixe-zebra, o paulistinha dos aquários, bicho muito usado em testes de toxicidade ambiental. Eles foram expostos às mesmas concentrações achadas nos rios.
O resultado foi mais mortes, deformações e alterações no coração e no sistema nervoso, entre outros danos. O subproduto foi ainda mais nocivo que a própria cocaína: houve dano com apenas 13% da concentração medida no ambiente, pouco mais de um oitavo.
Mais que na Bélgica, na Espanha e nos EUA
A comparação com outros países aparece no comunicado como um dado do estudo: as concentrações nos rios cariocas ficaram acima das encontradas em pesquisas semelhantes nesses três lugares.
Os autores defendem, na conclusão do artigo, incluir a cocaína e o subproduto nos programas de monitoramento e nas avaliações de risco ecológico de regiões muito urbanizadas.
Rios de cidade e a vida que sobra neles
O achado se soma a outras pesquisas recentes sobre o que a cidade faz com a água que corre dentro dela. Um estudo em córregos da Grande São Paulo mostrou a cadeia alimentar encolhendo com a urbanização.
A maré vermelha lembra que toxina na água chega ao peixe e ao marisco, e a revisão da lista de peixes e invertebrados ameaçados mostra quanta vida aquática já está sob risco no país.
Laboratório não é a Baía de Guanabara inteira
Os testes de efeito foram feitos com embriões em laboratório, e não com peixes que vivem na baía. As coletas cobrem cinco rios e canais, entre 2022 e 2023. Dizer o que isso significa para cada espécie local ainda depende de novos dados.
A própria equipe ampliou o trabalho. Uma segunda etapa coletou água em 13 rios do estado entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. As análises estão em andamento, com conclusão prevista para o primeiro semestre de 2027.
As concentrações exatas, por rio e por mês, estão no artigo da revista, com o DOI abaixo.
Fontes: Fiocruz, notícia de 6 de outubro de 2026. Araujo et al., Aquatic Toxicology, DOI 10.1016/j.aquatox.2026.108032, título conferido no registro do Crossref.



