Animais e natureza

Grande e abundante dentro das reservas, pequeno fora delas: o tambaqui, um dos peixes mais importantes da mesa amazônica, é espécie vulnerável, e uma pesquisadora do Inpa explica por que a população vem caindo

O tambaqui está na lista oficial de espécies ameaçadas como vulnerável, e o Inpa detalhou em 24 de setembro o que pesa contra ele: no eixo Solimões-Amazonas, a maioria dos peixes capturados é menor que o tamanho de reprodução das fêmeas. Na bacia amazônica, o defeso começa em 1º de outubro.

Tambaqui adulto, peixe amazônico classificado como vulnerável à extinção, nadando em aquário

Tambaqui adulto no Aquário de Vancouver, no Canadá: na natureza, o peixe vive nos rios da bacia amazônica e pode chegar a 1 metro. Foto: Bloopityboop/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O tambaqui, peixe de escamas dos rios da bacia amazônica, está oficialmente classificado como espécie vulnerável à extinção. Em nota publicada em 24 de setembro de 2026, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicou a explicação da pesquisadora Cristhiana Röpke sobre o que a nova categoria significa.

Cristhiana coordena o Laboratório de Dinâmica de Populações de Peixes do Inpa. A avaliação que mudou a categoria foi feita pelo ICMBio e reconhecida na Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, a mesma que atualizou a lista nacional de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados.

Vulnerável não quer dizer extinto, nem que a pesca do tambaqui acabou. A categoria indica forte pressão sobre a espécie e uma população que encolhe de forma acentuada e contínua. Pesca, transporte e venda seguem as regras já vigentes até o Plano de Recuperação, previsto para novembro.

Tambaqui vulnerável não é tambaqui extinto: o que a categoria quer dizer

A pesquisadora do Inpa resume a classificação como um sinal de que, com o conhecimento atual, a espécie sofre forte pressão e o tamanho da população vem diminuindo ao longo do tempo. Para ela, a categoria funciona como "um alerta para frear essa tendência".

O Ministério do Meio Ambiente, em nota de 19 de agosto, informa que a avaliação coordenada pelo ICMBio inferiu uma redução estimada entre 30% e 40% das populações naturais ao longo de três gerações. Na avaliação anterior, de 2018, o peixe aparecia como Quase Ameaçado.

Dentro das reservas ainda há peixe grande, no eixo Solimões-Amazonas quase só pequeno

Cristhiana descreve um quadro dividido, comum a espécies de ampla distribuição e muito pescadas. Em unidades de conservação e em áreas distantes dos grandes centros urbanos, ainda há abundância e tambaquis de grande porte.

Fora dessas áreas, o cenário muda. No eixo central do rio Solimões-Amazonas, os peixes capturados são principalmente pequenos, abaixo do tamanho em que a maioria das fêmeas começa a se reproduzir. Isso compromete a renovação da população, porque sai do rio justamente quem ainda não deixou filhotes.

Quanto um tambaqui precisa crescer antes de se reproduzir pela primeira vez?

Uma revisão científica publicada em 2017 na revista Scientia Amazonia e registrada pela Embrapa Amazônia Ocidental reúne as medidas conhecidas. Em lagos e rios, a fêmea está madura aos 58 centímetros por um estudo e aos 70 centímetros por outro.

Esse tamanho corresponde a 4 ou 5 anos de idade, embora haja relatos de peixes maduros aos três anos. Um tambaqui pescado antes disso sai da água sem ter se reproduzido nenhuma vez.

Tambaqui de pequeno porte segurado com as mãos à beira de um rio
Tambaqui de pequeno porte segurado com as mãos, em registro feito na Bolívia em 2014: o peixe também vive nos rios amazônicos fora do Brasil. Foto: Vincent A. Vos/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

Um peixe de até 1 metro que come os frutos da floresta alagada

O tambaqui (Colossoma macropomum) foi descrito pelo naturalista Georges Cuvier em 1816. Nativo das bacias do Amazonas e do Orinoco, pode chegar a 100 centímetros e 30 quilos. Na Venezuela e na Colômbia é chamado de cachama, e no Peru, de gamitama.

Os dentes robustos, parecidos com molares, ajudam o peixe a comer frutos e sementes que caem na água durante a cheia. Na fase adulta, o tambaqui é considerado frugívoro e, na cheia, come principalmente frutas e sementes da floresta inundada. A expectativa de vida na natureza é estimada entre 13 e 14 anos.

A viagem rio acima começa na vazante e a desova, no início da enchente

Quando a água baixa, cardumes de adultos deixam a várzea e sobem o rio principal e os afluentes, numa migração conhecida localmente como piracema. A desova costuma acontecer no início da enchente, em rios de água barrenta, ricos em nutrientes.

As larvas são levadas pela correnteza até a várzea durante 4 a 15 dias, num percurso que vai de 400 metros a 1.300 quilômetros. Depois nadam para os lagos de várzea, onde os jovens crescem entre capins aquáticos.

Floresta alagada na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá, no Amazonas, ambiente onde o tambaqui se alimenta na cheia
Floresta alagada na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), em março de 2018: é nesse tipo de ambiente que o tambaqui adulto busca frutos e sementes durante a cheia. Foto: Cesar Augusto Chirosa Horie/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Pescado desde o século XIX, o tambaqui virou também o principal peixe nativo de criação

A mesma revisão registra que o tambaqui é explorado pela pesca na Amazônia desde o século XIX. Em 5 de outubro de 1865, o artista Jacques Burkhardt pintou em Tefé, no Amazonas, dois tambaquis, um deles identificado como jovem.

A revisão aponta o peixe como a principal espécie nativa cultivada no país. Em 2013, segundo dados do IBGE citados no trabalho, o tambaqui foi a segunda espécie de água doce mais produzida no Brasil, com 139,21 mil toneladas, 29,3% do total nacional.

Aquarela de 1865 com dois tambaquis, um deles identificado como jovem, pintada em Tefé, no Amazonas
Aquarela de Jacques Burkhardt datada de 5 de outubro de 1865, em Tefé (AM), com dois tambaquis; o de baixo aparece anotado como jovem. Ilustração: Jacques Burkhardt/Harvard, via Wikimedia Commons (domínio público).

O tambaqui de piscicultura licenciada fica fora das restrições

Pela nota do MMA, as restrições que decorrem da classificação não valem para peixes de estabelecimentos de aquicultura licenciados pelo órgão ambiental. A categoria de risco se refere só às populações naturais, as que vivem nos rios e lagos.

A própria criação aparece entre as ameaças listadas na avaliação. O ministério cita o escape de peixes cultivados, a transmissão de doenças e possíveis impactos genéticos sobre os tambaquis selvagens.

Sem monitorar o que se desembarca, não há como medir se o tamanho mínimo funciona

Para Cristhiana, outro ponto crítico é a falta de monitoramento pesqueiro. Existe regra de tamanho mínimo de captura, mas não há acompanhamento para saber se ela é cumprida e se funciona. Segundo ela, a classificação como vulnerável acaba exigindo um plano de recuperação.

O MMA aponta a mesma lacuna e soma outras ameaças: pesca sem manejo adequado, captura abaixo do tamanho permitido e degradação das áreas de várzea, ambiente fundamental no ciclo de vida da espécie.

Defeso do tambaqui vai de 1º de outubro a 31 de março na bacia amazônica

O período de defeso do tambaqui na bacia amazônica ocorre todo ano de 1º de outubro a 31 de março, informa o MMA. Até lá, a pesca continua permitida, desde que siga o tamanho mínimo e as demais regras em vigor.

Leia também: as datas do defeso da piracema 2026/2027 em cada estado.

A declaração de estoque no início do defeso também continua sendo feita normalmente. As condições de venda do peixe estocado depois da publicação do plano ainda estão em definição, com participação dos setores envolvidos.

A queda de 30% a 40% é estimativa, e as regras novas de pesca ainda não existem

A redução populacional citada pelo MMA foi inferida pela avaliação de risco, com base nas melhores informações científicas disponíveis. O próprio ministério lista a falta de dados de desembarque como problema e trata o monitoramento como essencial para decisões futuras.

O ministério afirma que não há, por ora, definição de proibição geral da pesca. A Portaria GM/MMA nº 1.666 deu 180 dias para o plano, e a Portaria nº 1.748, de 24 de julho de 2026, adiou a vigência para novembro.

O que a pesquisadora aponta como decisivo para o tambaqui voltar a crescer fora das reservas

Na avaliação de Cristhiana, o ponto-chave é recuperar o tamanho dos peixes fora das unidades de conservação e aumentar o número de fêmeas adultas se reproduzindo nessas áreas. O plano pode aplicar melhor as regras atuais ou criar regras novas de pesca.

Leia também: o peixe elétrico com a maior descarga já medida, descrito pelo Inpa.

O Plano Nacional de Recuperação do Tambaqui deve definir ações de conservação, monitoramento, pesquisa e manejo, além das condições para o uso sustentável da espécie. O plano tem vigência prevista para novembro de 2026, com o defeso da bacia amazônica já em andamento.

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