Serra do Amolar tem cheia em pleno período de risco de queimadas
Outubro costuma ser mês de fogo no Pantanal, e a Serra do Amolar entrou nele debaixo d'água. O Instituto Homem Pantaneiro conta mais de cinco horas de travessia alagada até a base. Só que o rio Paraguai, em Ladário, segue em queda. Os dois fatos cabem no mesmo mapa.
Foto de arquivo, de 25 de julho de 2018: a Serra do Amolar vista do rio Paraguai, na estação seca. Foto: Roberto Chagas, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
A chuva forte alagou áreas da Serra do Amolar, no Pantanal de MS, mas o rio Paraguai não subiu junto. Em Ladário a cota era de 121 cm em 7 de outubro, abaixo da mediana histórica, com previsão de queda.
O relato do alagamento vem do Capital News, de 8 de outubro. A medição do rio vem do boletim do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Serra do Amolar: mais de cinco horas de travessia na água
Na segunda-feira (5), o presidente do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Angelo Rabelo, registrou imagens da água acumulada na região. Ele afirmou: "Enfrentamos felizes mais de 5 horas de água, oriunda das fortes chuvas, para chegar ao Amolar".
A serra fica no noroeste do Pantanal sul-mato-grossense, na área de Corumbá, perto da divisa com Mato Grosso e da fronteira com a Bolívia. Segundo Rabelo, a chuva veio mais forte do que algumas projeções climáticas que as equipes de proteção acompanham.
"Diferentemente de todas as previsões oriundas do El Niño, chuvas intensas estão demarcando o território", disse ele. O IHP mantém equipes prontas para um eventual retorno do fogo: "Estamos prontos para enfrentar o fogo, mas contemplamos, comemorando cada gota".
O que o boletim do SGB mediu em 7 de outubro
O boletim traz as estações do SGB na bacia, e nenhuma é na Serra do Amolar. A régua de Ladário, no rio Paraguai, marcou 121 cm às 7h de 7 de outubro.
A cota variou 3 cm em sete dias e caiu 17 cm em 14 dias, dentro da faixa de normalidade para a data (de -3 a 349 cm).
O trecho de Ladário a Forte Coimbra está abaixo da mediana histórica de 7 de outubro. A chuva existe na bacia, mas aparece nos afluentes: Palmeiras, no rio Aquidauana, e Miranda, no rio Miranda, estão acima da normalidade.
| Estação (rio) | Situação em 7 de outubro, segundo o SGB |
|---|---|
| Barra do Bugres (Paraguai) | Dentro da normalidade; cota acima da mediana histórica |
| Cáceres (Paraguai) | Abaixo da normalidade; abaixo da mediana; cota em subida |
| Cuiabá (Cuiabá) | Dentro da normalidade |
| Ladário (Paraguai) | 121 cm, dentro da normalidade; abaixo da mediana |
| Palmeiras (Aquidauana) | Acima da normalidade |
| Miranda (Miranda) | Acima da normalidade |
| Porto Murtinho (Paraguai) | Dentro da normalidade; abaixo da mediana; cota em subida |
Arte: Watts & Wild, com dados do boletim do Serviço Geológico do Brasil de 7 de outubro de 2026.
Nos sete meses de março a setembro, a chuva acumulada na bacia foi 23% maior que a média histórica de 1998 a 2025, segundo o mesmo boletim. Em 23 de setembro, o rio Paraguai marcava 138 cm em Ladário, 160 cm abaixo da mediana da data.
A previsão para as próximas semanas
Para os próximos sete dias, o SGB prevê média de 8 mm de chuva na bacia (modelo GEFS, da agência americana NOAA). Os maiores volumes ficam em Palmeiras, com 17 mm, e os menores em Cáceres, com 3 mm.
Para Ladário, a previsão é de queda de 15 cm em sete dias e de 27 cm em 14. Pela conta da redação, isso leva a régua a 106 cm em 14 de outubro e a 94 cm em 21 de outubro.
O boletim traz ainda uma projeção de 180 dias, feita por analogia com os 15 anos da série de 1900 a 2026 que mais se parecem com o padrão recente. A projeção central indica mínimo de 82 cm em 10 de novembro de 2026.
No cenário ameno, parecido com 2001, o mínimo seria de 108 cm em 2 de novembro. No severo, parecido com 1963, a cota chegaria a 20 cm em 12 de janeiro de 2027. O SGB descreve os cenários como não determinísticos.
Por que a Serra do Amolar entra na conta do fogo
A serra é considerada uma das áreas mais sensíveis do Pantanal e já enfrentou grandes incêndios em períodos de seca prolongada, segundo o Capital News. A vegetação é típica do bioma e o acesso é difícil, o que pede monitoramento constante nos meses secos.
O risco sobe quando se juntam altas temperaturas, baixa umidade e queda do nível das águas, segundo o Capital News. É nessa combinação que o monitoramento da região fica mais exigente.
Em 2026 o fogo já vinha forte: o boletim estadual de 18 de setembro mostrava 113.014 hectares queimados no Pantanal de MS até o dia 17, quase o triplo de 2025. O Ibama apontava outubro a dezembro como o período mais crítico.
É também na serra que o IHP mantém armadilhas fotográficas para contar onças: a matéria sobre o censo de onças-pintadas no Amolar mostra o trabalho da mesma equipe.
A chuva do Amolar ainda não prova que o fogo ficou longe
O alagamento descrito pelo IHP é local e foi relatado por quem esteve lá, sem medição de milímetros de chuva na serra. O boletim do SGB mede rios e chuva na bacia inteira, e não fogo.
Os números de área queimada mais recentes que a redação conferiu são de 17 de setembro, antes dessas chuvas. O próprio Rabelo diz que as equipes seguem atentas às análises climáticas.
A chuva também contraria o que se esperava. Em setembro, o Ibama citava nota técnica do Cemtec sobre El Niño reduzindo a chuva no norte do Pantanal. Rabelo diz que choveu mais que o previsto, mas um mês chuvoso não encerra a temporada.
Onde acompanhar a cota e o fogo
O SGB publica o boletim hidrológico da bacia no painel do Pantanal, com a cota de cada estação. Para saber se a Serra do Amolar volta a secar antes do fim da temporada, siga a linha de Ladário: a previsão do SGB é de queda contínua nas próximas semanas.
Fontes: Capital News, 8 de outubro de 2026. SGB, Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai, 7 de outubro de 2026. SGB, painel do Pantanal. Foto da capa, Wikimedia Commons.



