Um projeto do Instituto Homem Pantaneiro vai usar 40 câmeras e inteligência artificial para identificar cada onça-pintada pelo padrão de pintas na Serra do Amolar, no Pantanal de Corumbá
A partir de 2026, o Instituto Homem Pantaneiro vai espalhar armadilhas fotográficas pela Serra do Amolar, no Pantanal de Corumbá (MS), para estimar, pela primeira vez, quantas onças-pintadas vivem nesse corredor de mata dentro do bioma.
A onça-pintada é o alvo do novo monitoramento na Serra do Amolar. Foto: André Zumak/Instituto Homem Pantaneiro.
O Instituto Homem Pantaneiro começa em 2026 a instalar 40 armadilhas fotográficas pela Serra do Amolar, no Pantanal de Corumbá, para registrar mais de 120 mil imagens de fauna em 12 meses. A inteligência artificial vai ajudar a reconhecer cada onça-pintada pelas rosetas, as manchas únicas de cada animal.
Quarenta armadilhas fotográficas vão ocupar a mata da Serra do Amolar a partir de 2026, no início de um projeto do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) batizado de Luz Alliance no Pantanal. A meta é descobrir quantas onças-pintadas vivem nesse trecho do Pantanal, no município de Corumbá, Mato Grosso do Sul.
Segundo nota do próprio instituto, a coleta vai gerar mais de 120 mil imagens de fauna em até 12 meses, catalogadas com apoio de inteligência artificial e analisadas pela equipe técnica do IHP. O projeto tem financiamento do Fundo Luz Alliance, administrado pela BrazilFoundation, e dialoga com o Plano de Ação Nacional (PAN) da Onça-Pintada, do Cenap/ICMBio.
Na prática, a novidade não é a onça em si, mas o método: em vez de capturar os animais, os biólogos vão reconhecer cada indivíduo pelas rosetas, tão únicas quanto uma impressão digital. É esse reconhecimento individual que permite calcular a densidade populacional da espécie num dos maiores corredores de biodiversidade do Pantanal.
Como as 40 câmeras vão cobrir a Serra do Amolar
As armadilhas fotográficas foram compradas em parceria com a empresa LogNature e vão formar uma grade de monitoramento espalhada pela mata da Serra do Amolar. O projeto se divide em duas etapas: primeiro o grid de câmeras, depois o trabalho direto com as comunidades da região.
Chegar até os pontos de instalação exige deslocamentos de mais de 400 quilômetros pelo rio Paraguai, já que grande parte da Serra do Amolar só tem acesso por barco ou avião pequeno. É esse mesmo relevo isolado que preserva um dos últimos grandes blocos de mata contínua do Pantanal.
O papel da inteligência artificial na triagem de 120 mil imagens
Cada armadilha dispara sozinha quando sente calor e movimento por perto, e ao longo de um ano a expectativa é reunir mais de 120 mil fotos de fauna na Serra do Amolar. Sem ajuda de máquina, revisar esse volume à mão levaria meses de trabalho braçal da equipe.
É aí que entra a inteligência artificial: o sistema cataloga as imagens e ajuda a equipe técnica do IHP a separar rapidamente os registros de onça-pintada dos milhares de fotos de outros bichos, do vento balançando a vegetação ou de nada. Depois da triagem, cabe aos biólogos confirmar cada animal e cruzar os dados.
Por que o padrão de pintas funciona como impressão digital
A onça-pintada tem rosetas, manchas em forma de anel com um pontinho escuro no meio, espalhadas pelo corpo num desenho que não se repete de um animal para outro. Esse desenho é tão exclusivo quanto uma digital humana e não muda ao longo da vida do bicho.
É por isso que pesquisadores reconhecem cada onça-pintada sem precisar capturar nem colocar coleira: basta comparar as fotos batidas pelas câmeras. A mesma lógica vale para o Projeto Onças do Iguaçu, que identificou a onça Manchita pelo desenho das pintas ao flagrá-la cruzando sozinha para o lado brasileiro.
Quantas onças-pintadas existem na Serra do Amolar?
Ninguém sabe ainda, e é exatamente essa lacuna que o projeto do IHP quer preencher. Antes do início do monitoramento, a Serra do Amolar não tinha uma estimativa própria de abundância e densidade da espécie, só registros pontuais feitos ao longo dos anos por pesquisadores e guias da região.
O coordenador técnico de Biodiversidade e Mudanças Climáticas do IHP, Wener Hugo Moreno, quer chegar num número: "queremos estimar a abundância e densidade desse animal no território da Serra do Amolar, que forma um grande corredor de biodiversidade dentro do Pantanal", disse ele. Ele também prevê um desdobramento social, para reduzir o atrito entre onças e moradores.
O corredor de biodiversidade entre a Serra do Amolar e o resto do Pantanal
A Serra do Amolar fica no Pantanal de Corumbá e funciona como um imenso corredor de mata que liga áreas de conservação e propriedades rurais dentro do bioma. Preservar esse corredor importa porque a onça-pintada precisa de território extenso para caçar e se reproduzir.
A onça-pintada é considerada espécie guarda-chuva: proteger o espaço que ela precisa para viver protege, de tabela, centenas de outras plantas e animais que dividem o mesmo habitat. É o mesmo raciocínio usado, num contexto diferente, para justificar áreas protegidas como o Sesc Pantanal, onde outro projeto de monitoramento já registrou o raro cachorro-vinagre em áreas protegidas.
A etapa social: como o projeto pretende reduzir conflitos com moradores
Além de contar onças, o projeto tem uma segunda frente, dedicada às famílias que vivem na região da Serra do Amolar e no Alto Pantanal. A equipe vai ouvir como essas comunidades enxergam a presença do felino no dia a dia, inclusive quando ele ataca animais domésticos.
Esse levantamento de percepções locais deve orientar estratégias para diminuir a predação de animais domésticos e amenizar o conflito entre onças e pessoas. No time que vai a campo estão biólogos, médicos-veterinários, brigadistas ambientais como os que atuam nas queimas controladas do ICMBio no Pantanal, assistente social, auxiliares de reserva e piloteiros do próprio instituto.
De onde vem o dinheiro: Fundo Luz Alliance e BrazilFoundation
O projeto foi aprovado dentro do Fundo Luz Alliance, criado em 2020 pela Luz Foundation para dar ajuda humanitária durante a pandemia e que, a partir de 2021, passou a financiar também projetos de proteção e regeneração ambiental. Quem administra o fundo é a BrazilFoundation.
A BrazilFoundation foi fundada em 2000 pela jornalista Leona Forman, que atuou décadas na ONU antes de criar a organização para ligar a filantropia internacional a projetos sociais de base no Brasil. Em 25 anos, ela já investiu mais de 57 milhões de dólares em iniciativas espalhadas por 300 cidades, o Pantanal entre elas.
Como os dados podem virar política pública e pagamento por serviços ambientais
Os números levantados na Serra do Amolar não vão parar só num relatório interno. A ideia é virarem base para o Plano de Ação Nacional (PAN) da Onça-Pintada, ligado ao Cenap, centro de pesquisa de carnívoros do ICMBio, hoje em atualização para o ciclo 2025-2030.
O IHP é uma das instituições que ajuda a construir esse plano nacional. A expectativa também é que a catalogação com inteligência artificial alimente estratégias de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), como o projeto Jaguar Stewardship in the Pantanal Conservation Network, ligado a créditos de biodiversidade.
O que a Serra do Amolar ainda não tem é um número fechado de onças
O projeto começa em 2026 e as primeiras 40 câmeras ainda vão para o campo, o que significa que a Serra do Amolar segue sem uma contagem populacional oficial de onças-pintadas até que o monitoramento avance. Os resultados prometidos, como densidade e abundância da espécie, dependem de meses de coleta antes de qualquer número sair.
A inteligência artificial ajuda a organizar o volume de fotos, mas não substitui a conferência humana: cada registro de onça-pintada passa por biólogos do IHP antes de entrar nas estatísticas do projeto. Só depois dessa conferência os números viram ciência publicável.
A Serra do Amolar ganha, enfim, um retrato técnico da sua população de onças
Com as câmeras no campo a partir de 2026, a Serra do Amolar passa a ter, pela primeira vez, um retrato contínuo e técnico da presença da onça-pintada no território. O resultado deve, aos poucos, alimentar tanto a ciência quanto as políticas de convivência entre a espécie e quem mora no Pantanal.
Ainda não dá para saber quantas onças-pintadas vivem na Serra do Amolar, mas o primeiro censo por câmeras e inteligência artificial começa em 2026. Você já parou pra pensar em quantos bichos passam despercebidos perto de onde você mora? Conta pra gente nos comentários.



