Animais e natureza

Filhote de onça-parda entra em uma casa do bairro Capitão Cesário, em Itaí, no interior de São Paulo, é resgatado pela Defesa Civil e levado ao Cempas, centro de animais selvagens da Unesp em Botucatu

Um filhote de onça-parda entrou numa casa do bairro Capitão Cesário, em Itaí, no interior de São Paulo, na manhã de 23 de setembro. A Defesa Civil fez o resgate com segurança para moradores e animal, e o filhote seguiu para o Cempas, centro de animais selvagens da Unesp em Botucatu.

Filhote de onça-parda deitado no chão de uma casa em Itaí, no interior de São Paulo, antes do resgate da Defesa Civil

O filhote de onça-parda no chão da casa em Itaí, pouco antes do resgate, com as pintas típicas da idade. Foto: Prefeitura de Itaí/Divulgação, via Portal 014.

A Defesa Civil de Itaí, no interior de São Paulo, resgatou na manhã de quarta-feira, 23 de setembro de 2026, um filhote de onça-parda que tinha entrado em uma casa no bairro Capitão Cesário. O caso foi divulgado no mesmo dia pela Prefeitura de Itaí.

O filhote não ficou na casa nem foi solto na mata. A equipe fez o atendimento com segurança e o levou ao Cempas, da Unesp de Botucatu, onde ele receberá os cuidados necessários e passará por avaliação especializada.

A onça-parda, também chamada de suçuarana ou puma, é o segundo maior felino das Américas e vive em todos os biomas brasileiros. Entender por que um filhote dela acaba dentro de uma casa ajuda a entender a paisagem em volta.

O que aconteceu na manhã chuvosa no bairro Capitão Cesário

Pela nota da prefeitura, publicada na seção da Defesa Civil, a equipe foi acionada depois que o filhote entrou na residência. O atendimento, diz o texto oficial, preservou tanto a integridade dos moradores quanto o bem-estar do animal.

O Portal do Sudoeste Paulista, que publicou o caso na tarde de quarta, registrou que chovia no momento do resgate. A foto divulgada mostra o filhote deitado no piso da casa, perto de um tapete de retalhos, olhando para a câmera.

Gaiola vermelha de transporte na caçamba de uma caminhonete da Defesa Civil de Itaí, usada no resgate do filhote de onça-parda
A gaiola de transporte na caçamba da caminhonete da Defesa Civil de Itaí, antes da viagem até Botucatu. Foto: Reprodução/Portal do Sudoeste Paulista.

Na imagem do transporte, a gaiola vermelha aparece na caçamba de uma caminhonete da Defesa Civil, com a lataria molhada de chuva. Segundo o portal regional, a oncinha estava dentro dela, pronta para seguir até o Cempas.

Onde fica Itaí e o que existe em volta do bairro

Itaí fica no sudoeste do estado de São Paulo. O bairro Capitão Cesário, segundo o Portal do Sudoeste Paulista, faz divisa com uma grande área de lavouras e trechos de mata banhados pela Represa de Jurumirim.

É um mosaico comum no interior paulista: plantação, pedaços de floresta e água por perto. Paisagens fragmentadas assim aparecem nos estudos reunidos pelo ICMBio sobre onde a onça-parda ainda vive no estado.

Mapa do estado de São Paulo com o município de Itaí destacado em vermelho no sudoeste paulista
Itaí, em vermelho, no sudoeste do estado de São Paulo. Ilustração: Raphael Lorenzeto de Abreu/Wikimedia Commons (CC BY 2.5).

A Represa de Jurumirim tem quatro vezes a água da Baía de Guanabara

A represa nasceu do barramento do rio Paranapanema e banha dez municípios do centro-sul paulista. Tem cerca de 100 quilômetros de comprimento e, em alguns trechos, passa de três quilômetros de largura, segundo a Prefeitura de Paranapanema.

O reservatório ocupa 449 quilômetros quadrados e guarda um volume de água quase quatro vezes maior que o da Baía de Guanabara. O portal regional descreve o entorno da Vila Capitão Cesário como um habitat razoavelmente bom para onças-pardas.

Represa de Jurumirim vista de uma área de lavoura, com árvores e céu com nuvens, no interior de São Paulo
A Represa de Jurumirim, no rio Paranapanema, vista de uma área de cultivo. Foto: Lauana Fogaça de Almeida/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Cempas, o hospital da Unesp que recebe bicho selvagem desde 1993

O Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens começou em 1993 como uma sala dentro do Hospital Veterinário da Unesp de Botucatu. Virou centro próprio em 2005 e cresceu em 2007, ao ocupar prédios antes usados para estudo de animais peçonhentos, conta o Jornal da Unesp.

Ao longo da história, o Cempas já atendeu cerca de 25 mil animais. Hoje consegue abrigar até 200 bichos ao mesmo tempo e recebe perto de 2 mil por ano, a maioria aves, seguidas de mamíferos e répteis.

Desde 2024, o centro tem licença estadual de triagem e reabilitação

Em junho de 2024, o Cempas recebeu autorização da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo para atuar como Centro de Triagem e Reabilitação. Esse tipo de centro tem autonomia para fazer triagem, recuperação, reabilitação e encaminhamento de animais silvestres.

Na prática, isso significa que o filhote de Itaí chegou a um lugar autorizado a cuidar da reabilitação e do destino dele. A equipe trabalha sob o comando da professora Sheila Canevese Rahal, chefe de serviço do centro, segundo o Jornal da Unesp.

Suçuarana, puma, leão-baio: os muitos nomes do mesmo felino

O nome científico é Puma concolor, e a lista de apelidos brasileiros é longa. A avaliação do ICMBio registra onça-parda, suçuarana, onça-vermelha, onça do lombo preto, leão-baio, leãozinho-da-cara-suja e bodeira.

O nome suçuarana vem do tupi e quer dizer cor de veado, explica a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da capital. Apesar do nome, ela é do gênero Puma, e não do gênero Panthera da onça-pintada, e não emite rugidos.

Por que o filhote tem pintas se a onça-parda adulta é lisa

Quem vê a foto de Itaí estranha as manchas escuras no corpo do filhote. É normal. Pela avaliação do ICMBio, os filhotes nascem com pelagem cinza a bege, salpicada de grandes pintas marrons.

Essa coloração vai sumindo e dura até o início da idade adulta, por volta dos 18 meses. O adulto tem pelo uniforme, do amarelo pardo ao avermelhado, com a barriga e a parte de dentro das pernas mais claras.

Filhote de onça-parda com manchas escuras no rosto e no corpo, sentado entre pedras
Filhote de onça-parda nos Estados Unidos, com as manchas que desaparecem até a idade adulta. Foto: Serviço Nacional de Parques dos EUA/Wikimedia Commons (domínio público).

Um adulto pode passar de 70 quilos e 1,5 metro de corpo

A onça-parda só perde em tamanho, nas Américas, para a onça-pintada. É a segunda maior espécie de felino do continente e a quarta maior do mundo, segundo o ICMBio.

Um macho adulto pesa de 40 a 72 quilos, e uma fêmea, de 34 a 48 quilos. O comprimento médio de cabeça e corpo é de 1,08 metro, podendo chegar a pouco mais de 1,5 metro. A cauda, à parte, mede de 63 a 96 centímetros, segundo a Prefeitura de São Paulo.

Onça-parda adulta macho registrada por armadilha fotográfica em mata semidecídua de Rubineia, no interior de São Paulo
Macho adulto de onça-parda flagrado por armadilha fotográfica em Rubineia, no noroeste paulista, em abril de 2025. Foto: Miguelrangeljr/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

Gestação de três meses e ninhada de até seis filhotes

A gestação da onça-parda dura de 82 a 98 dias. Nascem de um a seis filhotes por vez, cada um com cerca de 400 gramas, e os dois sexos só ficam maduros para reproduzir a partir dos 24 meses de idade.

Na natureza, a espécie costuma viver de 8 a 10 anos, podendo chegar a 13. Há registro de uma fêmea selvagem com cerca de 15 anos no Paraná, citado na mesma avaliação do ICMBio.

Canavial, eucalipto e estrada: a vida da suçuarana no interior

A onça-parda tem uma flexibilidade rara entre os grandes predadores. O ICMBio descreve o uso cada vez maior de áreas alteradas pelo homem, como reflorestamentos de pinheiro e eucalipto, seringais e plantações de cana-de-açúcar.

O problema é que, nesses lugares, o bicho fica exposto. Durante o corte e a queima das plantações, os filhotes são os mais atingidos, porque não conseguem fugir rápido, e as estradas de tráfego pesado que cortam essas áreas somam atropelamentos.

O filhote de Cerqueira César que se feriu numa colheita de cana

Em outubro de 2025, trabalhadores acharam um filhote de onça-parda ferido durante a colheita de cana na zona rural de Cerqueira César, também no interior paulista. O animal, com cerca de um mês de vida, foi levado à Unesp de Botucatu, como registrou o Jornal da Comarca, com base no g1.

O veterinário Gabriel Corrêa de Camargo, do Cempas, contou à TV TEM que o filhote passou por cirurgia por causa das fraturas. Por ser muito novo, disse ele, era totalmente dependente da mãe e não teria condições de sobreviver sozinho na natureza.

Em Assis, outro filhote apareceu num quintal em abril de 2025

O caso de Itaí não é isolado. Em 25 de abril de 2025, um filhote macho de onça-parda com menos de 90 dias foi achado assustado e debilitado no quintal de uma casa perto do Horto Florestal de Assis, segundo a CNN Brasil.

A Polícia Ambiental e o Corpo de Bombeiros fizeram o resgate. No centro de triagem da associação protetora de Assis, a equipe encontrou lesões pelo corpo e sinais de desidratação, e só depois da recuperação completa avaliaria uma eventual soltura.

Leia também: o jacaré capturado na porta de uma casa em Buritama, no interior paulista, e a égua resgatada com guincho depois de cair numa fossa em Marília.

A onça-parda está ameaçada de extinção?

A resposta muda conforme a lista. No estado de São Paulo, o Decreto 63.853, de 2018, classifica a espécie como vulnerável. No mesmo decreto, a onça-pintada aparece como criticamente em perigo no território paulista.

Na lista nacional, atualizada pela Portaria MMA 148, de 2022, a onça-parda não está entre os felinos ameaçados. A avaliação do ICMBio publicada em 2013, porém, a classificava como vulnerável no país.

O que mais mata onças-pardas no Brasil

O ICMBio aponta três causas que parecem ser as principais na perda de indivíduos: destruição e fragmentação do habitat, abate em retaliação a ataques a criações e atropelamentos. No nordeste paulista, pesquisadores registraram 11 onças-pardas atropeladas entre 2004 e 2008, dez delas machos.

A estrada também pesa na rotina do Cempas. O centro recebeu 103 animais atropelados em 2024, contra 97 em 2023 e 57 em 2022, e 71 dos 103 morreram. Um estudo da USP citado pelo Jornal da Unesp estima 39,6 mil mamíferos médios e grandes atropelados por ano nas rodovias paulistas.

O que fazer se uma onça-parda aparecer no quintal?

A primeira regra é não tentar pegar o animal. A Polícia Militar Ambiental de São Paulo não recomenda que a população resgate por conta própria um animal silvestre ferido: a pessoa pode piorar as lesões, e o bicho pode atacar para se defender.

O caminho é acionar o Corpo de Bombeiros, pelo 193, ou o Policiamento Ambiental da região. Em Itaí, quem atendeu foi a Defesa Civil municipal, que responde pelo número de emergência 199.

Em um encontro cara a cara, o ICMBio orienta falar alto e firme, sem gritar, parecer grande levantando os braços e pegar crianças no colo, segundo a CNN Brasil. O instituto lembra que a onça-parda normalmente tem medo do homem e tende a evitar pessoas.

Voltar para o mato não é garantido para quem cresce perto de gente

Filhote órfão é o paciente mais delicado do Cempas. A veterinária Paolla Nicole Franco explicou ao Jornal da Unesp que esses animais se acostumam com a presença humana, o que dificulta a reabilitação, porque exige cortar o vínculo.

O próprio jornal da universidade dá o exemplo de uma onça adolescente que aprende a pedir comida a pessoas: ela pode acabar baleada ou atacada por cães ao chegar perto de uma fazenda. Por isso, em muitos casos, o destino mais seguro é um zoológico.

Na mesma reportagem sobre vítimas de atropelamento, Paolla estimou em cerca de 25% a sobrevivência dos animais atendidos, e em 10% a parcela que consegue voltar à natureza. O futuro do filhote de Itaí depende da avaliação feita em Botucatu.

Ficar com o filhote em casa é crime ambiental

A tentação de adotar um bicho tão pequeno existe, mas a Lei de Crimes Ambientais é clara. O artigo 29 pune quem apanha, guarda ou mantém em cativeiro animal silvestre sem autorização, com detenção de seis meses a um ano e multa.

A pena aumenta pela metade quando a espécie é considerada ameaçada, ainda que só no local da infração, e a onça-parda consta como vulnerável na lista paulista. Pela Polícia Militar Ambiental, animal silvestre de estimação só vem de criador autorizado.

Leia também: o furão-da-amazônia resgatado depois de viver sete meses como pet e a onça-pintada capturada em Corumbá e solta na Serra do Amolar.

Eleita pelos paulistanos, a suçuarana é o bicho símbolo da capital

A relação de São Paulo com esse felino vai além do interior. Em 2010, uma votação online organizada pela prefeitura escolheu a onça-parda como animal símbolo da cidade, entre 15 candidatos indicados por técnicos e pesquisadores, segundo a Prefeitura de São Paulo.

A suçuarana passou semanas em quarto lugar e só disparou nas últimas quatro semanas de votação. Na época, a prefeitura a apresentou como o maior felino registrado no município, encontrado em duas áreas da zona sul, entre elas o Núcleo Curucutu da Serra do Mar.

Espaço de anúncio

O filhote que entrou numa casa de Itaí numa manhã de chuva foi entregue a quem trata bicho selvagem há mais de três décadas em Botucatu. Na sua cidade, alguém já avistou uma suçuarana perto de casa ou na beira da estrada?

Mais do Watts & Wild

Mais em Animais e natureza →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.