Uma pesquisadora encontrou 16 bolsas de sereia em Noronha e o que elas guardam muda o que se sabia sobre o tubarão-lixa
Na quarta-feira (16/09), uma pesquisadora achou 16 bolsas de sereia enterradas na areia de Fernando de Noronha, e o achado virou a prova que faltava de que o arquipélago também é berçário do tubarão-lixa.
Cena do vídeo sobre o caso. Reprodução/YouTube (@TVTamar).
Na quarta-feira (16 de setembro de 2026), a pesquisadora Mariana Rêgo, do projeto Ecotuba, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), encontrou 16 cápsulas de ovos de tubarão-lixa nos Alagados dos Tubarões, em Fernando de Noronha (PE). As estruturas, populares como bolsa de sereia, indicam que a região é usada pela espécie também para reprodução, e não só para se alimentar e acasalar, segundo reportagem da CNF PE.
É a maior quantidade de cápsulas já registrada de uma vez na ilha: o achado mais citado até então era o de uma única bolsa de sereia, já vazia, fotografada por um mergulhador em 2021 perto da Ilha Rata. Com 16 cápsulas juntas, o registro de Rêgo passa de curiosidade isolada para evidência concreta de que os tubarões-lixa escolhem aquele pedaço de Noronha para procriar.
Uma pesquisadora da UFRPE achou 16 cápsulas de bolsa de sereia em Fernando de Noronha, dentro de um estudo de 12 anos sobre tubarões no arquipélago. Bolsa de sereia não significa que toda fêmea de tubarão-lixa "põe ovo" do jeito simples que a expressão sugere, porque a reprodução da espécie é mais complexa do que isso.
Onde ficam os Alagados dos Tubarões, o pedaço de praia que virou berçário
Os Alagados dos Tubarões ficam dentro da Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha, num trecho de água rasa e barrenta que os pesquisadores já classificavam como ponto de alimentação e acasalamento de tubarões-lixa. Foi ali, monitorando a rotina da espécie pelo projeto Ecotuba, que Mariana Rêgo avistou as 16 bolsas de sereia na quarta-feira (16/09).
Fernando de Noronha já tinha uma baía famosa por abrigar filhotes de tubarão, a do Sueste, usada por outra espécie que vive nas águas rasas da ilha. Agora os Alagados dos Tubarões entram numa lista parecida, mas como área de cria do tubarão-lixa, o que muda o mapa de onde a espécie se reproduz no litoral brasileiro.
O que é, afinal, essa tal de bolsa de sereia
A bolsa de sereia é uma cápsula parecida com a casca de um ovo, só que mais flexível, dentro da qual o embrião do tubarão-lixa se desenvolve antes de nascer. A gestação dura de 5 a 6 meses, e uma fêmea pode gerar cerca de 35 filhotes por vez, segundo os dados do projeto Ecotuba repassados à imprensa.
O nome popular vem do formato: parece mesmo uma bolsinha de couro escuro, do tamanho de uma mão, que o mar costuma jogar na areia depois que o filhote já saiu de dentro. Antes desse achado em Noronha, quem trabalha com tubarão via a estrutura como algo raro de se documentar ainda cheia, com o ovo por dentro.
Tubarão põe ovo?
Sim, pelo menos parte da história é essa: o tubarão-lixa produz uma cápsula que funciona como ovo, só que ela não fica largada no mar por meses, como a de uma galinha. "A fêmea gesta. Na hora da eclosão, ela expele o ovo e a cria ao mesmo tempo", explicou o engenheiro de pesca Leonardo Veras, especialista em tubarões, à reportagem do Farol da Bahia.
Veras contou que, em 31 anos estudando a espécie, nunca tinha visto um ovo de tubarão-lixa boiando no mar, só bolsas de sereia já vazias na areia. É por isso que achar 16 cápsulas de uma vez, no mesmo lugar e no mesmo dia, chamou tanto a atenção de quem estuda o bicho.
Quem é Mariana Rêgo e o que ela faz há três meses dentro d'água em Noronha
Mariana Rêgo integra o projeto Ecotuba, da UFRPE, que retomou em Fernando de Noronha o monitoramento de tubarões que a universidade já fazia na Região Metropolitana do Recife entre 2004 e 2014. O acompanhamento na ilha começou em junho de 2026 e faz parte de um estudo de 12 anos sobre o comportamento da espécie no arquipélago.
A rotina da equipe envolve mergulhos periódicos, ultrassom em fêmeas para checar gestação e expedições para instalar transmissores que rastreiam o deslocamento dos tubarões. Segundo a pesquisadora, achados como o das 16 cápsulas "reforçam evidências sobre o comportamento reprodutivo da espécie" na região, o que ajuda a entender por quanto tempo Noronha precisa proteger aquela área.
O achado muda alguma coisa pra quem vai mergulhar em Noronha?
Na prática, sim: áreas identificadas como berçário costumam ganhar reforço de proteção dentro da Área de Proteção Ambiental, com restrição de mergulho ou pesca no entorno, como já acontece perto da Baía do Sueste. Quanto mais dados o Ecotuba reúne sobre os Alagados dos Tubarões, mais peso ganha o argumento de manter aquele trecho fora do circuito turístico mais movimentado.
É também por isso que a notícia pegou tração fora do meio científico: perguntas como "tubarão põe ovo" e "o que é bolsa de sereia" são clássicas no Google, e um achado com número exato e universidade por trás é o tipo de resposta que costuma circular rápido. Curiosidade com bicho raro sempre acha público, seja com a onça Manchita cruzando a fronteira, o felino batizado de tilcayo ou a cobra que picou uma turista nas Cataratas do Iguaçu.
Antes de imaginar uma maternidade garantida todo ano
As fontes não garantem que as 16 cápsulas viraram filhotes, nem que os Alagados dos Tubarões vão repetir esse volume em outra época do ano: o achado é de um único dia de monitoramento, dentro de um projeto que ainda está nos primeiros meses de atividade em Noronha. Ciência de comportamento animal se confirma com repetição, e é isso que a equipe do Ecotuba ainda vai acumular nas próximas temporadas.
Boa parte do que se ensina sobre tubarão-lixa descreve a espécie como um animal que dá à luz filhotes já formados, sem casca por fora. Encontrar bolsas de sereia inteiras é uma peça que ainda intriga até quem estuda o bicho há décadas, caso do próprio Leonardo Veras, e mostra que a reprodução dessa espécie ainda tem detalhe para explicar.
Noronha soma mais um capítulo à lista de berçários de tubarão no Brasil
Com as 16 bolsas de sereia catalogadas, os Alagados dos Tubarões entram no radar de quem estuda onde o tubarão-lixa nasce no litoral brasileiro, ao lado de outras áreas já conhecidas por proteger filhotes de tubarão na ilha. O projeto Ecotuba segue os próximos meses de olho em novas cápsulas, ultrassons e transmissores para transformar esse primeiro achado em série histórica.
Fica a pergunta pra quem já foi a Noronha ou pretende ir: você sabia que existia bolsa de sereia, ou essa foi a primeira vez que ouviu falar de um tubarão que "põe ovo"? Conta aqui embaixo o que mais te chamou atenção nessa história.



