Animais e natureza

Um estudo com drone na Flórida mostrou que o tubarão-galha-preta, espécie que também vive no litoral brasileiro, reage a um som grave tocado a até 74 metros e vira para o lado oposto ao da fonte

Pesquisadores filmaram de cima tubarões soltos no mar enquanto tocavam sons debaixo d'água. Os animais viravam e fugiam da caixa de som, inclusive de longe, onde a ciência achava que eles nem percebiam esses sons. Veja o que o experimento mostrou, onde a espécie vive no Brasil e o que falta saber.

Tubarão-galha-preta nada de frente para a câmera em água azul, com a boca entreaberta, os dentes à mostra e as fendas das brânquias visíveis

Tubarão-galha-preta em Aliwal Shoal, perto de Durban, na África do Sul, em fevereiro de 2025. A foto não é do estudo. Foto: Borut Furlan, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

Sim, o tubarão ouve sons distantes e sabe de onde eles vêm. Num teste no mar da Flórida, tubarões-galha-preta reagiram a um som grave tocado a até 74 metros e viraram para o lado oposto ao da caixa de som. Nenhum reagiu ao som agudo de controle.

O experimento é da Florida Atlantic University, nos Estados Unidos, e foi publicado na revista Integrative Organismal Biology em 30 de junho. A universidade divulgou o resultado nesta terça-feira, 29 de setembro. O artigo é aberto e pode ser lido de graça no PubMed Central.

Segundo os autores, é a primeira medição de que tubarões soltos no mar percebem a direção de um som no chamado campo distante, a região em que a onda sonora já se afastou da fonte.

Como foi o experimento

A equipe ancorou um barco em águas rasas, de 2 a 5 metros de fundo, perto das barras de Jupiter, Palm Beach e Pompano Beach, no sudeste da Flórida. Uma caixa de som ficava na água, a até 19 metros do barco, para que a embarcação não influenciasse o resultado.

Um drone a 40 ou 50 metros de altura filmava tudo. Nessa altura, segundo o estudo, os tubarões não percebem o drone. Quando um tubarão entrava no quadro, os pesquisadores tocavam 5 segundos de som de controle, 5 segundos de silêncio e depois uma das três faixas de teste.

As faixas eram graves: de 100 a 200 Hz, de 200 a 400 Hz e de 400 a 800 Hz. O controle era um som agudo de 10.000 Hz, acima do que se sabe que os tubarões ouvem.

Hidrofones mediam o volume do som em cada ponto, e a distância de cada tubarão foi medida quadro a quadro no vídeo.

Tubarão-galha-preta cinza-claro passa rente ao fundo de areia enquanto um grupo de mergulhadores com cilindros observa logo atrás
Tubarão-galha-preta e mergulhadores nas Bahamas, em 2000. A foto não é do estudo. Foto: Albert Kok, domínio público, Wikimedia Commons.

A 74 metros, o tubarão virou e fugiu

A reação mais distante observada foi de 74 metros, com o som de 100 a 200 Hz, o máximo de uma faixa só. É uma vez e meia o comprimento de uma piscina olímpica. Nas três faixas juntas, o estudo resume que os tubarões responderam a partir de pelo menos 62 metros.

Com a faixa de 200 a 400 Hz, a reação mais distante foi a 66,1 metros; com a de 400 a 800 Hz, a 61,8 metros.

Na média, os tubarões reagiram a 40,7 metros no som mais grave, a 41 metros no intermediário e a 30 metros no mais agudo. Ao ouvir, faziam uma curva brusca de cerca de 73 graus, em média, e nadavam rápido para longe.

Gráfico: com o som de 100 a 200 Hz, o tubarão reagiu a até 74 metros, em média a 40,7 metros; com 200 a 400 Hz, a até 66,1 metros; com 400 a 800 Hz, a até 61,8 metros; o campo distante começa em 45, 22,5 e 11,3 metros
Distância máxima e média em que os tubarões reagiram a cada faixa de som, e onde começa o campo distante. Arte: Watts & Wild com dados do estudo.

Por que isso surpreendeu os cientistas?

Perto de uma fonte, o som na água é sobretudo um vaivém das partículas, o que os cientistas chamam de campo próximo. Mais longe, ele vira uma onda de pressão. Peixes com bexiga natatória, um saco de gás, captam essa pressão. Os tubarões não têm esse órgão.

Por isso, a hipótese mais aceita era que eles só detectassem esses sons de perto. Pela conta do estudo, o campo distante começa a 45 metros no som de 100 Hz, a 22,5 metros no de 200 Hz e a 11,3 metros no de 400 Hz. 71,6% das reações aconteceram além desse limite.

Na faixa de 400 a 800 Hz, foram 96,6% das reações no campo distante. Para os autores, isso indica que os tubarões captam o movimento das partículas da água mesmo longe da fonte.

Quantas vezes o tubarão reagiu

Os tubarões viraram e fugiram em 81,9% dos testes com o som de 100 a 200 Hz, em 87% com o de 200 a 400 Hz e em 71,1% com o de 400 a 800 Hz. Com o som agudo de controle, tocado em volume parecido, não houve nenhuma reação em 209 testes.

O controle vinha antes de cada uma das 209 apresentações dos sons de teste (72, 54 e 83). É o que dá peso ao experimento: indica que os animais reagiam ao tipo de som, e não à presença do barco, do drone ou das pessoas.

Gráfico: os tubarões viraram e fugiram em 81,9% dos testes com som de 100 a 200 Hz, 87% com 200 a 400 Hz, 71,1% com 400 a 800 Hz e em nenhum dos 209 testes com o som de controle de 10.000 Hz
Proporção de testes em que o tubarão reagiu, por faixa de som. O controle agudo, de 10.000 Hz, não provocou nenhuma reação. Arte: Watts & Wild com dados do estudo.

Como o tubarão ouve sem orelha?

O tubarão não tem orelha por fora, mas tem ouvido interno. Uma das estruturas desse ouvido, a mácula neglecta, tem células ciliadas, sensoriais, que ajudam a captar a vibração do som na água.

Em duas espécies do mesmo gênero do galha-preta, essas células vão de 200 mil a 260 mil. O tubarão-lombo-preto (Carcharhinus falciformis) tem, segundo estudos citados no artigo, a maior mácula neglecta e o maior número dessas células já contado num vertebrado.

O tubarão-galha-preta vive no Brasil?

Vive. A espécie do estudo, Carcharhinus limbatus, aparece no Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil com o nome de tubarão-galha-preta. Ela ocorre em águas quentes e tropicais do mundo todo.

Na base internacional GBIF, consultada pelo Watts & Wild nesta quarta-feira, há 35 registros da espécie no Brasil, 16 deles do ICMBio. Os 25 registros com estado identificado ficam em 12 estados, do Amapá ao Paraná. A lista vermelha da IUCN classifica a espécie como vulnerável no mundo.

O que o galha-preta come e quem come ele

Segundo o artigo, o galha-preta come peixes ósseos, lulas e polvos, crustáceos e raias e tubarões pequenos. Ele também é presa de tubarões maiores, como o tubarão-martelo-grande.

Para os autores, ouvir de longe e saber a direção ajuda um animal a achar comida, fugir de predadores e encontrar parceiros. Na Flórida, a espécie forma grandes grupos de janeiro a março em água rasa e clara, o que permite observar os animais do alto sem incomodá-los.

Uma pista de 1964 que ninguém tinha medido

Segundo o artigo, só um trabalho anterior tinha visto tubarões se orientando a um som do campo distante. Um resumo de 1964 descreve pesquisadores num avião vendo tubarões se orientarem em relação a um emissor de som submerso a mais de 200 jardas, ou seja, mais de 180 metros.

O estudo completo nunca foi publicado, e ninguém mediu aquelas reações. O drone permitiu fazer agora o que o avião só deixou ver de relance.

O que o estudo não mostra

O som tocado foi alto de propósito: 140 decibéis a 1 metro, pela medida usada debaixo d'água, cerca de 80 decibéis acima do ruído de fundo mais baixo já registrado. A ideia era provocar um susto. Por isso, o teste mostra fuga, e não se um tubarão seria atraído por um som parecido em volume baixo.

O estudo não testou barulho de barco, de motor ou de pessoas na água.

Os autores também não mediram diretamente o movimento das partículas, e reconhecem que parte do som grave pode ter vazado para frequências mais baixas, o que empurraria o campo próximo para mais longe. Mesmo assim, as reações à faixa de 400 a 800 Hz, segundo eles, mantêm a conclusão.

Outros bichos do mar aparecem em matérias do site. Veja o tubarão preso num canal de Busan, as tartarugas-verdes que não saíram de Galápagos e a caravela-portuguesa no litoral brasileiro.

Perguntas rápidas

De que distância o tubarão ouve um som?

No estudo da Florida Atlantic University, tubarões-galha-preta reagiram a um som grave, de 100 a 200 Hz, tocado a até 74 metros. A distância média de reação a essa faixa foi de 40,7 metros. O teste usou um som alto de propósito.

O tubarão-galha-preta existe no Brasil?

Sim. O Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil registra o nome tubarão-galha-preta para a espécie Carcharhinus limbatus, e a base GBIF tem registros dela em 12 estados, do Amapá ao Paraná.

Tubarão tem ouvido?

Tem. Os tubarões não têm orelha por fora nem bexiga natatória, mas têm ouvido interno, com uma estrutura chamada mácula neglecta, que capta a vibração do som na água.

O barulho atrai ou espanta tubarão?

Depende do som. Estudos antigos atraíram tubarões com sons graves e pulsados em volume moderado. Neste estudo, o som foi alto e repentino de propósito, para provocar susto, e os tubarões fugiram. Ele não testou barulho de barco nem de banhista.

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