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Tráfico de papagaios migra para as cidades, mostra estudo no México

Um estudo da revista PNAS analisou mais de 6 mil apreensões de papagaios e araras no México, entre 1997 e 2024. O resultado: o tráfico deixou de seguir a pobreza do campo e passou a acompanhar o tamanho das cidades. O Brasil não entrou na análise, mas o autor diz que o método serve aqui.

Papagaio-verdadeiro verde pousado num galho seco com outros papagaios amarelo-alaranjados, imagem do tráfico de papagaios que o estudo mapeou

Papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) no Parque Nacional de Ilha Grande, em 2012. A espécie é brasileira e não entrou no estudo mexicano. Foto: Rogério Depieri, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O tráfico de papagaios no México passou a seguir as cidades, e não mais a pobreza rural. Pesquisadores da Australian National University (ANU) e da Arizona State University (ASU) publicaram o resultado na PNAS em 24 de agosto de 2026, com DOI 10.1073/pnas.2609240123.

O que 28 anos de apreensões mostram

A equipe usou mais de 6 mil registros de aves apreendidas entre 1997 e 2024. Dividido por 28 anos, dá pelo menos 214 apreensões por ano, em média. Os dados vêm de autoridades mexicanas, segundo o G1.

Até 2008, a quantidade de aves apreendidas em cada estado tinha relação clara com indicadores de pobreza. Para o G1, isso combina com captura de ocasião, uma renda extra para famílias perto da mata.

A partir de 2009, a pobreza perde peso e o tamanho da população passa a explicar mais. O autor George Olah, da ANU, resume: “O motor desse mercado passou da necessidade econômica de sobrevivência para a procura de consumo em cidades mais populosas”.

Um mapa montado como circuito elétrico

Para saber por onde as aves andam, a equipe tratou o país como uma rede elétrica. Populações selvagens de papagaios viraram fontes de corrente, pontos de apreensão viraram destinos e estradas viraram fios, conforme o comunicado da ASU.

O cálculo mostrou corredores de risco, sobretudo no sudeste do México e na Península de Iucatã, segundo a ANU. Muitas aves apareceram a centenas de quilômetros de onde vivem, inclusive na Cidade do México.

Arara-vermelha de costas contra o céu claro, pousada na ponta de um galho seco na Selva Lacandona, em Chiapas
Arara-vermelha (Ara macao) na Selva Lacandona, em Chiapas, no México, em 2017. O gênero Ara é um dos mais capturados, segundo o estudo. Foto: Pequeño mar, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

Quais aves os traficantes mais procuram

Nos três períodos analisados, araras do gênero Ara e papagaios do gênero Amazona foram capturados em proporção maior do que a presença deles na natureza. São aves grandes, coloridas e de alto valor, descreve o G1.

Papagaio-de-cabeça-amarela de cabeça baixa num galho, com o olho alaranjado voltado para a câmera e a mancha amarela na cabeça
Papagaio-de-cabeça-amarela (Amazona oratrix) no parque Xcaret, no México, em 2012. É do gênero Amazona, citado no estudo. Foto: ImagePerson, Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0, recortada.

Metade das 20 espécies nativas analisadas, ou seja 10, é ameaçada diretamente pela captura, diz a ASU. Desde 1993, nenhum papagaio mexicano melhorou de status de conservação.

O México proibiu em 2008 a captura e o comércio de papagaios nativos. Essa mudança de lei e a pandemia de covid-19 estão entre os choques que a equipe usou para medir como as redes de tráfico se adaptam.

E o Brasil, entra nessa conta?

Não entrou. Os dados são mexicanos. Olah diz ao G1 que os dois países têm muitos psitacídeos, grandes áreas de mata, redes de estradas e cidades enormes, condições parecidas para o tráfico funcionar.

Segundo o pesquisador, o método poderia ajudar as autoridades brasileiras a achar os corredores mais usados e a direcionar a fiscalização. Isso é uma possibilidade que ele aponta, não um resultado medido no país.

Por aqui, as aves são mais de 60% dos animais traficados, segundo o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). A arara-azul-de-lear, classificada como Em Perigo, está entre as mais cobiçadas pelo tráfico internacional, diz o ICMBio. Os números do Ibama para 2025, com o coleirinho no topo, estão em outra matéria do site.

Comprar ou transportar ave sem origem é crime

A Lei de Crimes Ambientais prevê detenção de seis meses a um ano e multa para quem vende, compra, guarda, transporta ou mantém em cativeiro fauna silvestre sem licença, no artigo 29, parágrafo 1º, inciso III.

O parágrafo 2º deixa o juiz livre para não aplicar a pena na guarda doméstica de espécie não ameaçada, conforme o caso. A exceção cobre guardar em casa, não vender nem transportar.

Quem encontra ave silvestre ferida ou à venda pode procurar o órgão ambiental do estado. O caminho para entregar um animal está em a matéria sobre os Cetas, e um flagrante com aves em caixas dentro de um ônibus está em o caso de Aguaí, em São Paulo.

O que o mapa não garante

O mapa mostra onde o tráfico tem mais chance de passar, não as rotas reais. O próprio estudo ressalta, segundo o G1, que os corredores vêm de um modelo baseado sobretudo em rodovias e nos dados de apreensão disponíveis.

A plataforma com os corredores por espécie e por jurisdição é restrita a autoridades verificadas, de acordo com a ANU. O leitor não consulta o mapa, e as informações aqui vêm do G1 e dos comunicados da ANU e da ASU.

Fontes: PNAS, artigo de Olah e outros, DOI 10.1073/pnas.2609240123, 24 de agosto de 2026. ANU, comunicado sobre o estudo. ASU News, 24 de agosto de 2026. G1 Terra da Gente, 5 de outubro de 2026. Lei 9.605/1998, art. 29.

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