Animais e natureza

Um passarinho silvestre, o coleirinho, lidera os casos de apreensão de fauna do Ibama em 2025, com Espírito Santo à frente na fiscalização, aponta a base de dados abertos do órgão federal

Os dados abertos do Ibama sobre termos de apreensão de fauna em 2025 mostram que passarinhos silvestres, como coleirinho e baiano, respondem pela maior parte dos casos registrados. Poucas batidas contra peixe de aquário, porém, concentram a maior quantidade de bichos por operação, um contraste que muda a leitura do problema.

Canário-da-terra, espécie que também aparece nos casos de apreensão de fauna do Ibama em 2025, fotografado em Santa Catarina

Canário-da-terra fotografado em Urupema, em Santa Catarina, em maio de 2015: a espécie também aparece entre as mais apreendidas pelo Ibama em 2025. Foto: Hector Bottai / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem original, sem recorte de conteúdo.

O coleirinho, um passarinho silvestre comum no Brasil, aparece em 241 termos de apreensão de fauna registrados pelo Ibama em 2025, mais do que qualquer outra espécie, segundo os dados abertos do próprio órgão federal.

Baiano, trinca-ferro-verdadeiro e galo-da-campina completam a lista das espécies mais recorrentes, todas aves de canto historicamente visadas para cativeiro ilegal, de acordo com o conjunto fiscalização-termo-de-apreensão do Ibama, atualizado periodicamente pelo órgão.

A apreensão de fauna do Ibama em 2025 tem duas caras diferentes. Por número de casos, passarinhos de canto dominam a lista, presentes em centenas de operações separadas pelo país. Por quantidade de bichos, porém, poucas batidas contra peixe ornamental de aquário somam dezenas de milhares de indivíduos, um padrão bem diferente.

Coleirinho lidera os casos de apreensão de fauna registrados pelo Ibama em 2025

Entre janeiro e dezembro de 2025, o Ibama abriu 1.614 termos de apreensão de fauna em todo o país, envolvendo 372 espécies diferentes, de acordo com os dados abertos do órgão federal.

O coleirinho aparece em 241 desses termos, o equivalente a quase 15% de todos os casos de fauna do ano, um recorde entre as espécies consultadas na base.

Gráfico de barras com as dez espécies com mais casos de apreensão de fauna do Ibama em 2025, coleirinho em primeiro lugar
O ranking das dez espécies com mais casos de apreensão de fauna do Ibama em 2025, contando o número de termos, não a quantidade de bichos. Arte: Watts & Wild, com dados públicos do Ibama.

Por que passarinhos de canto são o alvo mais recorrente do tráfico de fauna

Coleirinho, baiano, trinca-ferro-verdadeiro, galo-da-campina e canário-da-terra têm em comum o canto forte e a facilidade de captura com redes ou alçapão, características que os tornam alvo histórico do comércio ilegal de aves.

Filhotes retirados do ninho antes de aprender a voar também alimentam essa prática, o que reduz muito a chance de sobrevivência, tema explicado no texto sobre o que fazer ao encontrar um filhote de ave caído no Brasil.

Coleirinho, a espécie que mais aparece nos casos de apreensão de fauna do Ibama em 2025, pousado em um galho
Coleirinho fotografado na Fazenda Vô-Vó, em Piraju, no interior de São Paulo, em dezembro de 2008. Foto: Dario Sanches / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0. Imagem original, sem recorte de conteúdo.

Peixe de aquário concentra a maior quantidade de bichos apreendidos numa só batida

Quando a conta muda de número de casos para quantidade de indivíduos apreendidos, o retrato muda por completo. O peixe-tetra-negro (black tetra) e a paulistinha somam 57.677 exemplares apreendidos em apenas 43 termos no país inteiro, a maior parte deles em Minas Gerais.

Só em Minas Gerais, essas duas espécies de peixe somaram 52.295 indivíduos apreendidos em apenas 8 termos, o equivalente a 97% de todos os bichos contados no estado durante o ano.

Peixe-tetra-negro, a espécie com mais indivíduos apreendidos pelo Ibama em 2025, fotografado em aquário
Peixe-tetra-negro (Gymnocorymbus ternetzi), a espécie com mais indivíduos apreendidos pelo Ibama em 2025, fotografado em aquário em dezembro de 2018. Foto: Sven Kullander / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem original, sem recorte de conteúdo.

Quelônios amazônicos somam milhares de indivíduos em dezenas de casos

Tracajá e tartaruga-da-amazônia, duas espécies de quelônio de água doce, somam 6.725 indivíduos apreendidos ao longo de 2025, divididos em 79 termos, um meio-termo entre o padrão dos passarinhos e o dos peixes de aquário.

Ovos e filhotes de quelônios de rio são disputados tanto para consumo quanto para cativeiro, uma pressão diferente da que ameaça as tartarugas marinhas brasileiras, tema também tratado no acompanhamento sobre o rastreamento por satélite da tartaruga-de-couro feito a partir do Espírito Santo.

Tartaruga-da-amazônia, espécie de quelônio entre as mais apreendidas em casos de fauna do Ibama em 2025
Tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) fotografada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em dezembro de 2008. Foto: Whaldener Endo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem original, sem recorte de conteúdo.

A apreensão de fauna do Ibama é sempre sinônimo de tráfico?

Nem toda linha classificada como fauna na base do Ibama é caso de tráfico de animal silvestre. Em 2025, um lote de 1.949 bois domésticos aparece registrado sob a mesma categoria, em 14 termos, sem detalhe sobre o motivo específico da apreensão.

A classificação fauna, sozinha, mistura motivos diferentes de apreensão, do tráfico à infração ambiental comum, o que pede cautela: os números aqui somam tudo que o Ibama chamou de fauna no ano, não uma contagem fechada só de tráfico de animais silvestres.

Espírito Santo lidera o número de casos, à frente de Ceará e Bahia

Por número de casos, o Espírito Santo aparece na frente de qualquer outro estado, com 151 termos de apreensão de fauna em 2025, seguido por Ceará, com 142, e Bahia, com 137, no cruzamento entre cada termo e a unidade federativa.

Pará completa o grupo de estados mais recorrentes, com 135 termos, enquanto Minas Gerais, apesar do recorde em quantidade de bichos, fica apenas na sexta posição quando a conta é feita por número de casos, com 81 termos registrados no ano.

O que acontece com um animal depois que o Ibama faz a apreensão

Depois de apreendido, o animal pode seguir caminhos diferentes, dependendo da espécie e do estado de saúde. Em 2025, 1.272 registros de fauna terminaram como entrega a outra instituição, geralmente um Centro de Triagem de Animais Silvestres, e 883 terminaram em soltura imediata na natureza.

Outros 482 casos resultaram em doação, quase sempre para zoológicos e criadouros autorizados, enquanto 258 terminaram em destruição, destino usado para produto perecível ou sem condição de reaproveitamento, como mostrou o caso do furão-da-amazônia resgatado depois de meses como bicho de estimação em Manaus.

As lacunas que a conta de apreensão de fauna do Ibama não fecha sozinha

Termos antigos continuam sendo digitados e corrigidos meses ou até anos depois do fato, o que muda o tamanho da base pública do Ibama a cada atualização. Nesta conta, 166 linhas de espécime ficaram de fora por pertencerem a termos cancelados, e 193 não bateram com nenhum termo de apreensão correspondente.

Campos de peso e de unidade aparecem misturados na base pública. Linhas registradas em quilo, grama ou saco, como partes de animais ou carne de caça, ficaram fora da soma de indivíduos para não misturar bicho inteiro com pedaço de bicho, um cuidado que reduz o total mas evita erro grosseiro na conta.

O que vem a seguir na fiscalização contra o tráfico de fauna

O Ibama atualiza a base de termos de apreensão em ciclos periódicos, o que deve situar 2025 como ano fechado nos próximos meses, à medida que autos represados forem digitados. Novas operações contra o tráfico de passarinhos seguem acontecendo em feiras e rodovias de vários estados.

Enquanto isso, cada apreensão registrada nesta base pública deixa um rastro que pode ser cruzado, ano após ano, para entender se o tráfico de fauna silvestre está crescendo ou recuando no Brasil. Você já viu algum passarinho preso em gaiola sendo vendido irregularmente perto de onde mora? Conte nos comentários.

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