Bichinho do tamanho de uma unha move até 50 kg de areia por metro de praia por dia
As pulgas-da-areia têm cerca de 1 centímetro e passam o dia enterradas na praia. À noite, saem para comer algas secas e deixam montes de areia para trás. Pesquisadores da Califórnia pesaram esses montes e chegaram a até 50 quilos por metro de costa a cada dia.
Megalorchestia californiana, uma pulga-da-areia da costa oeste dos Estados Unidos, fotografada em dezembro de 2015. Foto: Peter Pearsall/U.S. Fish and Wildlife Service, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.
Pulgas-da-areia do gênero Megalorchestia escavam até 50 quilos de areia por metro de praia por dia, segundo um estudo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB). O artigo saiu em 16 de setembro de 2026 no Journal of Geophysical Research: Earth Surface.
A medição foi feita na praia de Isla Vista, no sul da Califórnia.
Os autores dizem que 50 quilos equivalem a uns 16 baldes de areia de 2 litros. A UCSB compara o efeito dos bichinhos ao de processos que movem areia ao longo da costa e ao de alguns rios do sul da Califórnia.
Como a medição foi feita
A equipe esperou uma noite de verão, depois da maré alta, quando as ondas já tinham alisado a areia e a água começava a baixar. Instalou 21 parcelas com molduras de metal na faixa onde as pulgas costumam cavar e voltou na manhã seguinte para pesar a areia dos montes.
“Quando voltamos de manhã, não conseguíamos nem ver alguns dos quadros. Estavam completamente soterrados”, contou David Hubbard, cientista marinho da UCSB. Por precaução, os pesquisadores tinham deixado bandeiras ao lado deles.
A ideia partiu de Tim Baxter, geógrafo físico que fez pós-doutorado na UCSB com o professor de geografia Ian Walker e hoje é pesquisador na Universidade de Oxford. Ele encontrou nos cientistas marinhos Dave Hubbard, Kyle Emery e Jenny Dugan a mesma curiosidade sobre as pulgas.
“Foi bem impressionante e não estávamos esperando isso”, disse Baxter sobre o resultado. A pesquisa recebeu apoio do California Ocean Protection Council, segundo o registro do artigo.
Os números do estudo sobre as pulgas-da-areia
Na conta por área, o pico foi de 10,38 quilos de areia seca por metro quadrado por dia. O resumo do artigo diz que é uma das maiores taxas já registradas para um agente biogeomorfológico, expressão para seres vivos que mudam o relevo.
Os autores cruzaram essas medições com 8 anos de estimativas de biomassa de pulgas na mesma praia. Daí vem a taxa anual de 2,79 milhões de quilos por hectare, a maior já calculada para um animal terrestre ou costeiro em que se levou em conta a variação da população ao longo dos anos.
| Medida | Valor | De onde vem |
|---|---|---|
| Areia escavada por metro de costa | Até 50 kg por dia | Comunicado da UCSB |
| Areia seca escavada por metro quadrado | Até 10,38 kg por dia | Resumo do artigo |
| Pulgas por metro quadrado na Califórnia | Mais de 1.000 em registros comuns | Resumo do artigo |
| Trecho de 25 km de costa | Cerca de 310 toneladas por dia (estimativa) | Marine Science Institute, UCSB |
| Escavação por ano, por hectare | Cerca de 2,79 milhões de kg (2.790 toneladas) | Resumo do artigo, com 8 anos de dados de biomassa |
Arte: Watts & Wild, com dados do artigo no Journal of Geophysical Research: Earth Surface e dos comunicados da UCSB.
Comparação com rios e com a corrente da costa
Estendida a 25 quilômetros de costa, a escavação diária das pulgas é comparável ao fluxo de sedimento em suspensão de grandes rios da região, segundo o resumo. A página do Marine Science Institute da UCSB fala em 310 toneladas por dia nesse trecho.
Uma conta nossa: se as 310 toneladas valem para os 25 quilômetros inteiros, dá algo entre 11 e 12 quilos por metro de costa. A UCSB não diz se a tonelada é métrica ou curta, por isso a faixa. É a média estimada do trecho, bem abaixo do pico de 50 quilos medido numa noite.
Areia também se move em escala de paisagem pelo vento, como na matéria sobre os Lençóis Maranhenses e as dunas. A diferença é que aqui o motor é um crustáceo.
Por que elas cavam todos os dias
As pulgas se enterram de 10 a 30 centímetros ou se escondem sob algas arrastadas pelo mar, e saem depois do escuro para comer. Não gostam de areia encharcada, onde a toca desaba, nem de areia seca acima da linha da maré alta. Querem a faixa do meio, com a umidade certa.
Segundo o artigo, elas não reaproveitam a toca: abrem uma nova por dia, em areia que o vento ou as ondas acabaram de revirar. É isso que gera tanto monte.
As pulgas comem algas e servem de comida para aves da beira da praia e peixes. Ao cavar, levam nutrientes para camadas fundas e arejam a areia, o que dá oxigênio a micróbios. “Se algas ou carniça caem na praia, elas são enterradas por eles, o que as deixa disponíveis para outro grupo de organismos”, explicou Hubbard.
E as pulgas-da-praia do Brasil?
O estudo mediu só espécies da Califórnia, então os 50 quilos não valem para as praias brasileiras. O Brasil tem o seu talitrídeo, a Atlantorchestoidea brasiliensis, conhecida como pulga-da-praia. Um artigo de 2019 na Marine Biology Research, de Costa e Zalmon, trata de como amostrar essa espécie em estudos de impacto em praias arenosas.
Não encontramos, na busca que fizemos, uma medição equivalente de escavação para a espécie brasileira. O que o trabalho da UCSB deixa é a pergunta: se um bichinho de 1 centímetro move tanta areia na Califórnia, vale medir o que o parente dele faz aqui.
Outro crustáceo da beira do mar com regras próprias é o caranguejo-uçá, tema de nossa matéria sobre o defeso.
O que o número de 50 quilos não diz
Os 50 quilos são o máximo medido, numa praia e numa noite de verão, e não a média do litoral. As 310 toneladas por dia e o total anual são extrapolações dos autores a partir dessas medições e dos 8 anos de biomassa.
O comunicado vem da própria universidade. O artigo passou por revisão de pares e está em acesso aberto, com licença CC BY 4.0. O texto completo e os métodos estão em doi.org/10.1029/2026JF009312.
Fontes: Baxter e colegas, Journal of Geophysical Research: Earth Surface, 2026, DOI 10.1029/2026JF009312. UC Santa Barbara, The Current, 16 de setembro de 2026. Marine Science Institute, UCSB. Costa e Zalmon, Marine Biology Research, 2019.



