As ondas de calor deixaram de ser episódios e viraram traço permanente dos climas tropicais e semiáridos do Brasil, com piora desde 2010, mostra estudo que dividiu o país por tipo de clima, e não por estado
Em vez de contar ondas de calor por estado ou região, pesquisadores brasileiros agruparam as estações do Inmet pelo tipo de clima. Com 30 anos de temperaturas máximas diárias, o mapa que sai daí mostra calor extremo mais frequente, mais longo e fora de época nas áreas tropicais.
Banhistas no Guaíba durante onda de calor em Porto Alegre, em 11 de fevereiro de 2025. Foto: Alex Rocha/Prefeitura de Porto Alegre, Wikimedia Commons, uso com atribuição, recortada.
As ondas de calor se intensificaram no Brasil entre 1991 e 2020, sobretudo depois de 2010, e viraram uma característica estrutural dos climas tropicais e semiáridos. É o que mostra um estudo publicado em 30 de setembro na The Science of The Total Environment.
Clima no lugar de fronteira
A maioria das análises separa o país por estado ou região. Este trabalho usou a classificação climática de Köppen, que agrupa lugares pelo regime de chuva e temperatura. Foram oito tipos de clima analisados, com frequência, intensidade, duração, época do ano e tendência dos episódios.
Como uma onda de calor foi contada
Os pesquisadores usaram as temperaturas máximas diárias do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Onda de calor, no estudo, é uma sequência de pelo menos seis dias seguidos acima do percentil 90 da climatologia, ou seja, entre os 10% de dias mais quentes do normal daquele lugar.
O critério usado pelo Inmet nos avisos do dia a dia é outro, e está explicado em como o Inmet define onda de calor.
As ondas de calor por tipo de clima
| Clima (sigla de Köppen) | O que o estudo encontrou, 1991 a 2020 |
|---|---|
| Am, tropical de monção | Entre os mais vulneráveis |
| As, tropical com verão seco | Episódios mais persistentes, com mais de 15 dias por mês |
| Aw, tropical com inverno seco | Episódios mais persistentes, com mais de 21 dias por mês, e fora da estação habitual |
| Amazônia | Episódios passando da estação seca tradicional |
| Climas tropicais e semiáridos | Tendência de alta estatisticamente significativa |
Prado e outros, The Science of The Total Environment, 30/9/2026, com dados diários do Inmet.
Faça a conta com a gente: Brasília, Manaus e Recife somam 140 dos 232 episódios do gráfico, seis em cada dez. Três cidades de calor tropical, cada uma num canto do país. No outro extremo fica São Gabriel, na Amazônia de floresta úmida o ano todo, com 13. Do topo à base, quase quatro vezes de diferença.
A virada depois de 2010
O primeiro resultado é uma intensificação consistente do calor extremo ao longo das três décadas, mais forte a partir de 2010. A tendência de alta foi estatisticamente significativa principalmente nos climas tropicais e semiáridos.
Calor fora de época
Os episódios também passaram a aparecer fora da estação esperada. Na Amazônia, elas avançaram além da estação seca tradicional. Nos climas As e Aw, ficaram mais persistentes, com mais de 15 e mais de 21 dias por mês, respectivamente.
O alongamento da temporada de calor também aparece em escala mundial, como mostrou o estudo sobre a temporada de ondas de calor 39 dias mais longa.
De episódio a rotina
Para os autores, o calor extremo deixou de ser um episódio e passou a ser uma característica estrutural dessas regiões. Os climas tropical de monção (Am) e tropical de savana (As e Aw) aparecem como os mais vulneráveis.
O calor deste ano no interior do país também chamou atenção, como os 41 °C em Goiás com umidade de 10%.
O Brasil como espelho de outras regiões
Como o método se baseia no tipo de clima, os padrões podem valer para regiões parecidas no mundo, como a África Central, o sul e o leste da Índia, o Sudeste Asiático continental e o norte da Austrália.
Quem assina
O estudo é de Leonardo Prado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Ana Carolina Lenz de Assis, da Unesp, Daniel Araújo Machado da Silva, da Universidade Estadual do Arizona, e Patrick Nascimento, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Os dados foram processados com o HEATpulse, um pacote para a linguagem R.
Os limites da contagem por clima
A série termina em 2020, antes das ondas de calor dos últimos anos. As falhas nas medições foram preenchidas por técnicas estatísticas, e cada clima aparece representado pela estação de uma cidade. Ou seja, o 50 de Brasília conta o que o termômetro de lá registrou, não o que aconteceu no Centro-Oeste inteiro.



