Peixe laranja de menos de 3 cm é nova espécie descrita no Amapá
Ele cabe na ponta do dedo e tem mais cor que peixe de aquário. O macho do Laimosemion laranja exibe pintas e faixas alaranjadas e vive em poças de mata do Rio Cajari, no sul do Amapá. Foi descrito em agosto, e os autores já pedem proteção.
Macho do Laimosemion laranja (holótipo, 26,8 mm), coletado em Laranjal do Jari (AP). Foto: Yuri Abrantes, Zoosystematics and Evolution, licença CC BY 4.0, recortada.
O peixe laranja é o Laimosemion laranja, uma espécie nova de killifish, descrita em 20 de agosto de 2026 na revista Zoosystematics and Evolution. Ele vive em poças perto de riachos do Rio Cajari, em Laranjal do Jari, no sul do Amapá, e o maior macho medido tem 27,8 mm.
Seis pesquisadores assinam a descrição, liderados por Yuri Gomes Abrantes. Eles propõem que a espécie seja classificada como Em Perigo pelos critérios da IUCN, porque a área onde ela foi achada é pequena e perde mata, segundo o artigo.
Um peixe de 27 milímetros que parece pintado à mão
O macho tem de quatro a cinco fileiras de pintas laranja na parte da frente do corpo e de cinco a seis faixas oblíquas, em forma de V, perto da cauda. A nadadeira dorsal é laranja com grandes manchas azuis, e a cauda é azul-clara com barras laranja.
A fêmea é mais discreta, com pintas esparsas, e fica menor: a maior chegou a 20,6 mm. O nome diz tudo, e também homenageia Laranjal do Jari, o município que o peixe ocupa e que foi fundado em 17 de dezembro de 1987.
Como os cientistas souberam que era outra espécie
A equipe comparou o formato do corpo, a contagem de escamas, de raios nas nadadeiras e de vértebras, além do esqueleto da cauda. O peixe laranja tem oito escamas em série transversal e 13 a 14 raios na nadadeira anal.
Depois veio o DNA. Pelo gene cox1, o novo peixe diverge 5,3% dos parentes mais próximos, L. agilae e L. strigatus, 9,2% do L. dibaphus e 12,3% do L. geayi, que vive no Oiapoque, também no Amapá.
| Espécie do mesmo grupo | Escamas em série transversal | Distância genética do peixe laranja (cox1) |
|---|---|---|
| Laimosemion laranja (a nova) | 8 | 0 |
| L. strigatus | 7 | 5,3% |
| L. agilae | 9 a 10 | 5,3% |
| L. dibaphus | 7 | 9,2% |
| L. geayi | 9 | 12,3% |
Arte: Watts & Wild, com dados do artigo de Abrantes e colegas na Zoosystematics and Evolution (2026).
Poças de mata com meio metro a um metro de fundo
Os pesquisadores coletaram o peixe laranja em poças ao lado de riachos de floresta, com plantas flutuantes, água clara com correnteza leve, fundo de areia ou lama e profundidade de meio metro a um metro.
Num dos pontos, ele dividia a água com outros peixes, entre eles Anablepsoides jari e o jeju, e com a espécie Poecilia waiapi. O exemplar-tipo foi coletado em 21 de junho de 2025 no Igarapé Massaranduba.
Três locais, os três sob pressão
O primeiro ponto fica a poucos metros do limite da Reserva Extrativista do Rio Cajari e tinha árvores queimadas. Moradores contaram aos pesquisadores que algumas poças são restos de garimpo, com água vermelha e cheia de sedimento.
O local-tipo está 24 km ao sul, a 180 m da subestação de energia de Laranjal do Jari. O terceiro fica três quilômetros além, num riacho de mata dentro da cidade, onde a urbanização tira habitat e deixa plástico nas áreas alagadas.
Por que os autores veem um peixe laranja em perigo
Com os pontos de coleta, o artigo calcula uma extensão de ocorrência de 25 km² e uma área de ocupação de 12 km². Os dois números são pequenos e, somados à perda contínua de habitat, levam à proposta de classificar a espécie como Em Perigo, pelos critérios B1ab(iii)+B2ab(iii) da IUCN.
Os autores também pedem mais coletas dentro e ao redor da Reserva Extrativista e recomendam ampliar a área protegida para incluir o local vizinho. O artigo lembra que há contaminação por mercúrio documentada em áreas do Amapá, inclusive protegidas.
Mais um achado na lista de peixes do Amapá
Com o peixe laranja, o artigo conta seis espécies de rivulídeos de água doce no estado. Pequenos peixes assim passam despercebidos, mas mostram o que a mata e a água ainda guardam, como nesta outra espécie nova, uma cobra-cega do Rio de Janeiro.
Na Amazônia, a pressão sobre peixes vai de poças a rios grandes: o tambaqui, espécie vulnerável, e a seca declarada no Amazonas em 2026 mostram o outro lado dessa conta.
O que a proposta de proteção ainda não é
A categoria Em Perigo é uma recomendação dos autores, calculada com os critérios da IUCN. O artigo não traz uma avaliação oficial da União Internacional para a Conservação da Natureza, e a lista só muda depois dessa análise.
A árvore genealógica usou um só gene e tem apoio estatístico moderado. Duas espécies do grupo, L. mabura e L. cladophorus, ficaram de fora do DNA por falta de material, e os autores dizem que as relações podem mudar com mais dados.
Fontes: Abrantes et al., Zoosystematics and Evolution 102, 20 de agosto de 2026 (DOI 10.3897/zse.102.187659).



