Cobra-cega batizada de Maria: nova espécie do Rio homenageia uma mulher escravizada da Floresta da Tijuca
Pesquisadores do Museu Goeldi descreveram uma nova espécie de cobra-cega do Rio de Janeiro e a chamaram de Siphonops maria. O nome homenageia uma Maria escravizada que ajudou a replantar a Floresta da Tijuca no século 19, e também o nome feminino mais comum do Brasil.
Siphonops maria, a cobra-cega que ganhou nome de mulher, coletada na Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Foto: Miguel Relvas Ugalde, cedida para divulgação, via Museu Goeldi, recortada.
A Siphonops maria é uma cobra-cega nova para a ciência, descrita a partir de exemplares do Rio de Janeiro e publicada no Zoological Journal of the Linnean Society. O nome vem de Maria, uma das 11 pessoas escravizadas que plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca entre 1861 e 1874, segundo a Agência FAPESP.
Cobra-cega não é cobra. É um anfíbio, e o nome científico do grupo é cecília. Vive debaixo da terra, tem olhos pequenos e cobertos por pele, e por isso quase ninguém a vê.
Por que cobra-cega é anfíbio e não cobra
As cecílias têm esqueleto, ou seja, são vertebrados, e são bem maiores do que as minhocas com que costumam ser confundidas em foto. O nome vem do latim caecus, que significa cego. A visão é limitada, mas órgãos sensoriais na cabeça ajudam o bicho a perceber o ambiente, segundo a FAPESP.
O corpo muda pouco de uma espécie para outra, e isso atrapalha a identificação a olho nu. O próprio Luís Felipe Toledo, especialista em anfíbios da Unicamp e coautor do estudo, diz: “Eu mesmo só vi no campo uma vez”.
O que a Siphonops maria tem de diferente
Segundo o comunicado do Museu Goeldi, ela mede no máximo 192 milímetros e tem de 110 a 119 anéis no corpo. O holótipo, o exemplar de referência da espécie, foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio, e está depositado no museu, em Belém.
Por anos, esses animais foram tratados como Siphonops hardyi. O primeiro autor, Adriano Oliveira Maciel, diz que notou que o número de anéis e a dentição não batiam com o que se conhecia dessa espécie. O sequenciamento de genes confirmou uma linhagem à parte.
DNA, dentes e tomografia do crânio
A equipe sequenciou três marcadores genéticos mitocondriais (12S, 16S e COI), contou anéis e dentes e fez tomografia de alta resolução dos crânios. A tomografia mostrou detalhes do osso que separam a nova espécie das parentes próximas.
Maciel visitou em 2018 e 2022 o Museu de História Natural de Paris e o Museu Nacional, no Rio. Achou exemplares rotulados como S. hardyi com as marcas da S. maria. Um deles tinha sido coletado em 1902, também na Serra dos Órgãos.
Quem foi a Maria do nome
A Floresta da Tijuca foi replantada por um grupo de 11 pessoas escravizadas, entre 1861 e 1874, com mais de 100 mil árvores. A área hoje integra o Parque Nacional da Tijuca, descrito pela FAPESP como a maior floresta urbana replantada do mundo. O comunicado do Goeldi fala em uma mulher escravizada no século 19.
A escolha tem um segundo sentido. “Aqui há mais de 12 milhões de Marias. Todo mundo conhece uma; por exemplo, a minha mãe e quase todas as minhas tias se chamam Maria”, conta Maciel. Os autores também querem que o nome ajude a tornar o animal conhecido.
Um gênero que muda de nome
O estudo também reuniu o gênero Luetkenotyphlus dentro de Siphonops. As três espécies que eram desse gênero passam a se chamar Siphonops brasiliensis, S. fredi e S. insulanus.
Outros bichos brasileiros ganharam nome de gente nas últimas semanas. A rã-de-vidro de Goiás homenageia a mulher do primeiro autor, e o fóssil de 309 milhões de anos recebeu o nome das mães de duas pesquisadoras.
O que ainda falta provar sobre a cobra-cega Maria
A espécie é, “ao que tudo indica”, exclusiva do Rio de Janeiro, segundo a FAPESP. O “ao que tudo indica” importa: ela só foi comparada com os exemplares que os pesquisadores conseguiram reunir.
Duas outras linhagens parecidas com a S. hardyi, uma em Ubatuba (SP) e outra em Castelo e Domingos Martins (ES), podem ser mais espécies novas. Falta confrontá-las com o holótipo da S. hardyi, de Porto Real (RJ), que a equipe não tem. Toledo conta que o Museu de História Natural de Londres, onde há outros dois exemplares de Porto Real, não autorizou retirar um pedaço de tecido para análise de DNA.
O caminho agora é achar mais exemplares na Mata Atlântica, o que, segundo Maciel, pode levar alguns anos. O artigo completo está na revista, no site da Oxford Academic.
Fontes: Agência FAPESP, 6 de outubro de 2026. Agência Museu Goeldi, 11 de setembro de 2026. Maciel e outros, Zoological Journal of the Linnean Society, 2026.



