Chimpanzés roubam menos abacaxi de amigos: 61% das tentativas, contra 70% com não amigos
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley deixaram 26 chimpanzés de um santuário de Uganda roubar abacaxi uns dos outros. Quando a vítima era amigo, o roubo caiu de 70% para 61% das tentativas. O estudo saiu em setembro na revista Evolution and Human Behavior.
Chimpanzé no Santuário da Ilha de Ngamba, em Uganda, em agosto de 2016. É o mesmo santuário do estudo, mas não há indicação de que este animal tenha participado. Foto: Pavlo Baranov, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Chimpanzés seguram a mão diante de um amigo, mas só um pouco. Entre parceiros próximos, eles puxaram a bandeja de abacaxi do outro em 61% das tentativas. Entre animais sem vínculo, a taxa foi de 70%, segundo o comunicado de Berkeley de 30 de setembro.
Como o teste do abacaxi funcionou
A equipe observou os 26 chimpanzés por mais de 800 horas no Santuário de Chimpanzés da Ilha de Ngamba, em Uganda. Anotou quem catava quem, quem convivia no dia a dia e quem ficava ao alcance do braço de quem. Com isso, separou pares de amigos e pares sem vínculo.
No teste, um chimpanzé ficava numa sala com três bandejas de abacaxi. Uma corda ligada às bandejas passava para a sala ao lado, onde outro chimpanzé, o ladrão, podia puxá-la e levar a fruta ou deixá-la em paz. Segundo o resumo do artigo, amigos e não amigos foram pareados por sexo e por posição na hierarquia.
Chimpanzés roubam menos abacaxi de amigos: a diferença de 9 pontos
Os números são 70% de roubo contra não amigos e 61% contra amigos. Nove pontos percentuais parecem pouco, mas cada chimpanzé passou pelas duas condições. Para a equipe, isso dá mais segurança de que a diferença não veio do acaso.
O mais comum, mesmo entre amigos, foi roubar. Seis em cada dez tentativas contra um parceiro próximo terminaram com a corda puxada. O estudo mostra um freio parcial, e não uma regra de lealdade.
Oded Ritov, doutorando de Berkeley e primeiro autor, disse que este é o primeiro estudo a mostrar que chimpanzés conseguem segurar o comportamento antissocial com amigos (tradução livre do comunicado).
O que gritos e batidas revelaram
Os pesquisadores também mediram como a vítima reagia: batidas no chão, socos e gritos. Quando o ladrão era amigo, a reação veio mais forte no começo e foi ficando mais fraca a cada tentativa. Com não amigos, ela se manteve mais estável.
Do outro lado, quem roubava de um não amigo mostrou sinais negativos por mais tempo. Os autores leem isso como sinal de que o ladrão tratava o encontro como mais hostil.
| O que foi medido | Entre amigos | Entre não amigos |
|---|---|---|
| Tentativas em que o chimpanzé puxou a corda e levou o abacaxi | 61% | 70% |
| Reação de quem perdeu a comida | Mais forte no início, mais fraca com as repetições | Mais estável ao longo das tentativas |
| Sinais negativos de quem tirou a comida | Menos | Mais, por mais tempo |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da Universidade da Califórnia em Berkeley, de 30 de setembro de 2026, e do resumo do artigo.
Expectativa entre amigos, segundo os autores
Jan Engelmann, professor de psicologia em Berkeley e um dos autores seniores, disse que os resultados sugerem que chimpanzés esperam mais dos amigos e talvez exijam tratamento especial. Para ele, essas expectativas podem estar na base de princípios morais humanos (tradução livre).
O artigo parte de trabalhos anteriores que mostraram chimpanzés mais prestativos com amigos: catam mais, ajudam mais e dividem mais comida. A novidade é medir o outro lado, o de tirar vantagem de alguém.
Outros bichos que escolhem com quem lidar
A escolha social aparece em outros grupos. Um estudo recente mostrou que macacos-prego da Serra da Capivara preferem pedras já usadas por outros, e outro, com 458 espécies, mostrou que cobras venenosas chamam mais atenção no próprio habitat. Nenhum dos dois mediu amizade, como o de Ngamba.
O que o abacaxi não prova
O estudo tem 26 animais, todos do mesmo santuário, e a diferença entre as duas condições é de 9 pontos. O comunicado lembra que alguns cientistas hesitam em chamar essas relações de amizade, porque não dá para medir a vida emocional do animal. O critério foi comportamental: catação, convívio e proximidade.
O artigo completo, com os métodos e os dados, está em Evolution and Human Behavior, volume 47, número 6, edição de novembro de 2026.
Fontes: Ritov et al., Evolution and Human Behavior, DOI 10.1016/j.evolhumbehav.2026.106948. Resumo do artigo no portal de pesquisa da Universidade de Portsmouth. Comunicado da Universidade da Califórnia em Berkeley, 30 de setembro de 2026.



