Butantan sequencia o genoma da jararaca-ilhoa, serpente só do Brasil
Uma cobra que não existe em nenhum outro lugar do planeta teve o DNA lido de ponta a ponta. A equipe do Instituto Butantan sequenciou o genoma da jararaca-ilhoa, da Ilha da Queimada Grande (SP), e achou no veneno genes que a seleção natural continua moldando.
Jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) na ARIE Ilhas Queimada Grande e Queimada Pequena. Foto: Rafael Mitsuo, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Pesquisadores do Instituto Butantan fizeram o primeiro sequenciamento do genoma de uma serpente insular endêmica do Brasil, a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis). Segundo o comunicado do instituto, é a análise mais completa já feita entre as serpentes do gênero Bothrops e vai servir de referência para estudos sobre veneno e conservação.
A espécie vive só na Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo. O trabalho é liderado por Inácio Junqueira de Azevedo, pesquisador científico e diretor do Laboratório de Toxinologia Aplicada do Butantan.
O que é o genoma da jararaca-ilhoa, em uma frase
É o conjunto do material genético de um ser vivo e a ordem em que ele aparece. O Butantan compara a um livro com as instruções para o organismo se formar e funcionar.
O grupo já conhecia parte da história. Em 2002, publicou o transcriptoma da glândula de veneno da jararaca-ilhoa, que mostrou quais genes estavam ativos produzindo toxinas. O genoma vai além: traz também os genes que não estão em uso naquele momento.
Genes do veneno ainda em mudança
Alguns genes de toxinas do veneno da jararaca-ilhoa estão evoluindo sob seleção natural. Isso quer dizer que pequenas mudanças no veneno dão vantagem de sobrevivência, em vez de se fixarem ao acaso.
Inácio explica que o sinal aparece nos genes de algumas lectinas e metaloproteases, toxinas importantes no veneno da espécie. Os pesquisadores também detectaram mudanças na estrutura desses genes que alteram a proteína final.
Um veneno afinado para pegar aves?
Na Queimada Grande não há roedores, o alimento principal da jararaca do continente. A jararaca-ilhoa come aves migratórias que visitam a ilha ao longo do ano.
Daí a hipótese: o veneno das duas serpentes é muito parecido, mas poucas trocas de aminoácidos poderiam fazer a toxina se ligar com mais facilidade a um receptor das aves. Inácio é cauteloso: "esse é um ponto que demanda aprofundamento de estudos bioquímicos".
As duas jararacas lado a lado
| Jararaca (continente) | Jararaca-ilhoa (Queimada Grande) | |
|---|---|---|
| Onde vive | Várias regiões do continente | Só na Ilha da Queimada Grande, litoral sul de São Paulo |
| Alimento principal | Roedores | Aves migratórias que passam pela ilha |
| Genoma sequenciado | Sim, artigo na PNAS em 2021 | Sim, a análise anunciada agora pelo Butantan |
| Situação de ameaça | Não citada no comunicado | Criticamente ameaçada, segundo IUCN e ICMBio |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado do Instituto Butantan.
Quando a espécie ficou presa na ilha
Além do indivíduo principal, outros sete exemplares da jararaca-ilhoa tiveram o genoma mapeado de forma mais simples, para medir a variabilidade da população. Com isso, a equipe estimou quando a espécie se isolou.
A análise preliminar indica mais de um período de isolamento, com reconexão ao continente em algum momento do passado. A última separação teria ocorrido entre 15 mil e 10 mil anos atrás.
Pouca variação, mas saudável
A jararaca-ilhoa tem baixa variabilidade genética, como se esperava para uma população numa ilha. O estudo mostra, porém, padrões genéticos e demográficos saudáveis para a espécie se manter lá.
Hoje ela figura entre as espécies criticamente ameaçadas de extinção, segundo a lista da IUCN e o ICMBio. Os dados do genoma dão a base de comparação para quem cuida de animais fora da natureza: com a variação esperada na ilha como régua, dá para monitorar plantéis mantidos em cativeiro.
O que ainda é preliminar
O comunicado do Butantan apresenta a análise, mas não cita a revista em que os dados saíram nem traz data de publicação. O artigo de 2021 sobre a jararaca do continente está na PNAS.
A hipótese das aves é uma possibilidade levantada pelo próprio pesquisador, ainda sem teste bioquímico, e a datação do isolamento é uma estimativa preliminar.
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Fontes: Instituto Butantan, comunicado sobre o sequenciamento do genoma da jararaca-ilhoa. PNAS, genoma da jararaca (2021). Gene, transcriptoma da glândula de veneno de B. insularis (2002). IUCN Red List, Bothrops insularis.



