Animais e natureza

Dia Mundial contra a Raiva: o Brasil está há 10 anos sem caso humano pela variante do cão, e o morcego já lidera a lista, com 23 dos 54 casos registrados desde 2010

Neste 28 de setembro, Dia Mundial contra a Raiva, o dado do Ministério da Saúde é duplo. O Brasil não registra raiva humana pela variante do cão desde 2015. Mas o vírus mudou de dono: morcegos, saguis e outros bichos silvestres hoje respondem pela maioria dos casos.

Dia Mundial contra a Raiva: em vacinação antirrábica da Prefeitura de Jacareí, agente de saúde de luvas se prepara para vacinar um cachorro preto no colo do dono

Vacinação antirrábica de cães e gatos em campanha anterior em Jacareí (SP). Foto: Divulgação/Prefeitura de Jacareí.

De 2010 a junho de 2026, o Brasil registrou 54 casos de raiva humana, segundo a página de situação da raiva humana do Ministério da Saúde, atualizada em 11 de junho. O morcego foi o transmissor em 23 deles.

Os primatas não humanos, como os saguis, aparecem em seguida, com 12 casos. O cão, que por décadas foi o grande transmissor da doença, soma 10. Depois vêm felinos, com 5, raposas, com 2, e um boi e um cervo.

A vacina anual de cães e gatos continua sendo a principal proteção da casa: o Ministério da Saúde diz que ela previne a raiva nos animais e, por consequência, a raiva humana.

Gráfico de barras dos 54 casos de raiva humana no Brasil de 2010 a junho de 2026 por animal agressor: morcego 23, primata não humano 12, cão 10, felino 5, raposa 2, boi 1 e cervo 1
Casos de raiva humana por animal agressor, 2010 a junho de 2026. Ilustração: Watts & Wild com dados do Ministério da Saúde.

Dia Mundial contra a Raiva: dez anos sem a raiva do cão

Os dois últimos casos humanos transmitidos por cães com a variante típica do cão foram em 2013, no Maranhão, e em 2015, em Mato Grosso do Sul. Desde então, são dez anos sem registro, o dobro dos cinco anos que a OMS exige para declarar uma área livre da raiva canina.

A Organização Mundial da Saúde fixou 2030 como meta para eliminar a raiva humana transmitida por cães nas Américas. O Brasil se comprometeu a chegar antes: o objetivo é obter a validação de área livre de raiva canina pela OMS e pela Opas até 2026.

O morcego virou o principal transmissor

Com o cão sob controle, o quadro mudou. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, a transmissão por morcegos é a principal fonte de infecção da raiva em humanos no país, e o número de casos por variantes de animais silvestres aumentou.

Em 2022, foram quatro casos numa aldeia indígena de Minas Gerais e um no Distrito Federal, todos com a variante 3, a mesma dos casos transmitidos por morcegos. O W&W já explicou o que fazer quando um morcego entra em casa.

Saguis e macacos dominam os casos mais recentes

Os quatro casos de 2025 foram todos transmitidos por primatas não humanos. Três tinham a variante do sagui, em Pernambuco, no Ceará e na Paraíba. O quarto, no Amapá, veio de um primata com a variante 3, ligada a morcegos.

Em 2026, até junho, o ministério registra um caso, no Piauí, também causado por primata não humano, com a variante ainda em análise. A orientação oficial vale também para o sagui: nunca tocar em animal silvestre.

O caso do Tocantins mostra o novo risco do cão

Em 2024, um dos dois casos do ano foi no Tocantins. O provável agressor foi um cão, mas a variante identificada foi a 3, ligada a morcegos. Ou seja, o cachorro não carregava a raiva canina clássica, e sim um vírus que veio do ciclo silvestre.

É por isso que o Ministério da Saúde separa "raiva canina", da variante do cão, de "raiva em cães", causada por variantes de bichos silvestres. Cães sem vacina continuam expostos à segunda, principalmente em áreas com morcegos e raposas.

Gráfico do Ministério da Saúde com os casos de raiva em cães e gatos no Brasil de 2002 a 2026, com queda de mais de 700 casos em 2002 para poucas dezenas por ano
Casos de raiva em cães (azul) e gatos (laranja) no Brasil, de 2002 a junho de 2026. Reprodução/Ministério da Saúde.

Em cães e gatos, a queda foi de 635 casos para 13

O número de casos de raiva canina caiu de 635 em 2002 para 13 em 2025, segundo a página de raiva animal do ministério. Até junho de 2026 foram 6, todos com variantes de animais silvestres.

Entre 2015 e 2026, o país somou 270 casos em cães e gatos, 205 deles em cães domésticos. O último caso em cão pela variante AgV1 foi em 2016, em Mato Grosso do Sul, e pela AgV2, em 2019, no Maranhão.

Por que o gato preocupa mais que o cachorro

O gato caça. Pelo comportamento predatório e pelo contato com morcegos, ele pode pegar variantes silvestres do vírus e passá-las para as pessoas. O ministério descreve o gato como elo entre o ciclo silvestre e o urbano da raiva.

O mesmo texto aponta dois problemas: a subnotificação de casos suspeitos em gatos e a vacinação felina mais baixa que a dos cães. Se o gato sai de casa ou caça à noite, a vacina anual pesa ainda mais.

Onde vacinar cão e gato nesta semana

As campanhas são das prefeituras. Em Jacareí (SP), a prefeitura vacina cães e gatos na terça-feira, 29, no Parque Meia-Lua, na Rua da Imprensa, 498, no pátio da igreja, com horário agendado pelo aplicativo Fast Cidadão ou por formulário on-line.

Em outras cidades, a data e o posto ficam no site da prefeitura ou na unidade de saúde do bairro. Vale procurar pelo nome da cidade e "vacinação antirrábica" no site oficial do município.

O que o pet precisa para tomar a vacina

As regras de Jacareí dão uma ideia do que costuma ser pedido. O animal precisa ter mais de quatro meses e estar saudável. Fêmeas prenhas ou amamentando não podem ser vacinadas, e o dono deve levar a carteira de vacinação, se tiver.

Gatos vão em caixa de transporte, e cães, com coleira e guia. Raças consideradas ferozes pela lei precisam de focinheira. Outros cuidados com os bichos de casa estão no texto sobre jiboia e pets.

Mordida, arranhão ou lambida: o que fazer na hora

O Ministério da Saúde orienta lavar o ferimento com bastante água e sabão o quanto antes, aplicar antisséptico e procurar atendimento médico rápido. A decisão sobre vacina ou soro é do médico ou do enfermeiro, conforme o caso.

Se quem mordeu foi um cão ou gato, o ministério recomenda, quando possível, observar o animal por dez dias. Se ele adoecer, sumir ou morrer nesse período, o serviço de saúde deve ser avisado imediatamente.

Por que a raiva não dá segunda chance

A raiva tem letalidade de aproximadamente 100%, segundo a página oficial da doença. Em toda a história dos casos no Brasil, só dois pacientes sobreviveram. O período de incubação no ser humano é, em média, de 45 dias, e pode ser mais curto em crianças.

Depois que os sintomas aparecem, a morte costuma vir em 2 a 7 dias. Por isso, a proteção está antes: vacina anual de cão e gato, distância de cão e gato sem dono e nenhum contato com morcegos ou bichos silvestres caídos ou agindo de forma estranha.

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