Devolver rinoceronte e elefante à natureza pode dar muito errado: o que a ciência ensina
Doze rinocerontes devem sair de uma reserva sul-africana para a região de Waterberg neste outono do Hemisfério Norte. O pesquisador que acompanha a operação lembra o que houve no Malawi, onde 263 elefantes foram levados para outro parque em 2022 e a convivência com os vizinhos virou disputa.
Rinocerontes-brancos com filhote na Reserva Phinda, em KwaZulu-Natal (África do Sul), em outubro de 2014. É a espécie dos mais de 600 animais já movidos pela African Parks. Foto: Charles J. Sharp, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
Doze rinocerontes devem ser levados, neste outono do Hemisfério Norte, de uma reserva da Província do Noroeste, na África do Sul, para uma área protegida em Waterberg. Quem conta é Adam Hart, pesquisador que participa do trabalho de conservação em torno da mudança e da pesquisa que vai acompanhar os animais depois, em artigo publicado pela The Conversation em 5 de outubro de 2026.
Hart usa a operação para alertar: levar bicho grande de um lugar para outro é a parte fácil. O difícil começa quando ele pisa no chão novo. O exemplo que ele dá é o de 263 elefantes movidos no Malawi, em 2022.
Elefantes que saíram da rota prevista
A operação levou 263 elefantes por cerca de 350 km, do Parque Nacional de Liwonde para o de Kasungu, no mesmo país. Kasungu tinha perdido animais para a caça ilegal por décadas, e Liwonde, bem protegido, tinha elefantes de sobra, segundo a African Parks: quase 600 lá, contra 120 em Kasungu.
Depois da soltura, diz Hart, os elefantes passaram dos limites das áreas pensadas para eles e o conflito com quem vive em volta aumentou. Houve plantações e bens destruídos e mortes de pessoas, embora nem todas as mortes ligadas de início à operação tenham envolvido animais transferidos.
Moradores e advogados contra o IFAW
Em 2025, advogados de pessoas que vivem em volta de Kasungu e na vizinha Zâmbia começaram a preparar uma ação contra o Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW), uma das organizações da operação. A banca Leigh Day divulgou o caso em comunicado. Os moradores dizem que elefantes mataram e feriram pessoas e destruíram lavouras, e que as comunidades não foram bem protegidas nem consultadas.
O IFAW contesta as acusações com firmeza, segundo Hart. O artigo não relata decisão da Justiça.
O que mudou em Kasungu depois da soltura
O parque recebeu mais investimento: monitoramento por GPS, equipes de resposta rápida e uma cerca de 133 km. O IFAW diz que os casos de conflito registrados caíram de 690 em 2022 para 94 em 2025. Em seu texto sobre o projeto, a organização afirma que os números são coletados pelas autoridades do parque, com trabalho junto às comunidades.
A conta vem do IFAW, uma das partes citadas na ação. Por isso ela vale como o dado da organização, não como medida independente.
| Kasungu e Liwonde, Malawi | Número |
|---|---|
| Elefantes movidos de Liwonde para Kasungu, em 2022 | 263 |
| Distância aproximada da viagem | 350 km |
| Elefantes em Liwonde antes da operação (African Parks) | quase 600 |
| Elefantes em Kasungu antes da operação (African Parks) | 120 |
| Extensão da cerca na fronteira leste de Kasungu (IFAW) | 133 km |
| Casos de conflito entre pessoas e elefantes, 2022 (IFAW) | 690 |
| Casos de conflito entre pessoas e elefantes, 2025 (IFAW) | 94 |
Arte: Watts & Wild, com dados da African Parks (12 de agosto de 2022) e do IFAW. Os casos de conflito são contados pelas autoridades do parque, segundo o IFAW.
Soltar rinoceronte exige preparo antes e depois
A African Parks comprou em 2023 a criação de rinocerontes-brancos do sul-africano John Hume, com cerca de 2 mil animais. Mais de 600 já tinham sido levados para áreas protegidas da África até o fim de 2025, às vezes em operações com bem mais de 100 bichos, segundo Hart.
A cena do rinoceronte pendurado num helicóptero parece arriscada, mas pesquisa citada por Hart indica que ela é fisiologicamente mais segura do que aparenta. O que pesa mais fica antes da soltura. O local precisa de habitat adequado, comida, água e uma estimativa de quantos rinocerontes comporta. Para o rinoceronte-negro, isso inclui folhas, brotos e plantas lenhosas em quantidade suficiente.
A segurança entra na conta porque esses animais sofrem pressão forte de caçadores. Hart cita equipes antiecaça, unidades com cães, pessoal armado e comunicação confiável. Também é preciso planejar o depois: encher a reserva até o limite aparente deixa pouca folga quando os animais começam a se reproduzir.
Morte no primeiro ano e o lado social ignorado
Um estudo com 682 rinocerontes-negros em 191 translocações, citado por Hart, achou bem mais mortes no primeiro ano quando os animais eram somados a populações que já existiam do que quando formavam uma população nova.
Uma revisão de 550 translocações de conservação, também citada no artigo, concluiu que o lado social foi considerado com muito menos regularidade do que o biológico.
Elefante é bicho social, e isso pesa na mudança
Elefantes são inteligentes, vivem em grupo e andam longe. Segundo Hart, desfazer a organização social deles pode ter efeitos no comportamento por muitos anos. Saber quantos elefantes uma área suporta é só parte do problema. Quais animais são levados, e com quem, também pesa.
E no Brasil?
O texto de Hart trata da África. Mas a lógica de preparar o destino vale para qualquer espécie ameaçada. Em setembro, o ICMBio, com apoio da Polícia Federal, transferiu 69 ararinhas-azuis de um criadouro na Bahia para um centro em Petrolina, como mostrou o Watts & Wild. A história de quem perdeu e de quem manteve seus bichos grandes está em por que a África ainda tem elefantes e o Brasil não.
O que o artigo não resolve
O texto é um artigo de pesquisador, publicado sob licença Creative Commons, e Hart diz que participa da operação dos rinocerontes. Os estudos que ele cita não foram reabertos pelo Watts & Wild, só as páginas da African Parks e do IFAW.
Hart não propõe parar de mover animais: diz que a translocação já devolveu espécies a lugares onde tinham sumido e que, com populações cada vez mais isoladas, pode ser preciso fazer mais dela. Em tradução livre, ele escreve que uma ideia bonita não basta se quem vive ali agora tem de arcar com custos altos ou aceitar riscos para o sustento e a vida. Os 12 rinocerontes de Waterberg ainda não foram levados, então não há resultado para contar.
Fontes: Adam Hart, The Conversation, 5 de outubro de 2026. African Parks, 12 de agosto de 2022. IFAW, projeto Malawi-Zâmbia. Leigh Day, comunicado de 2025.



