Animais

Cobras venenosas se destacam mais que as inofensivas contra o habitat, mostra estudo com 458 espécies

Pesquisadores da University of Galway, na Irlanda, compararam fotos de 458 espécies de cobras com o fundo onde elas vivem. As venenosas tendem a se destacar mais do que as inofensivas. O estudo saiu em outubro de 2026 na Journal of Animal Ecology e não ensina a reconhecer uma cobra perigosa pela cor.

Cobra-coral de anéis vermelhos, pretos e brancos sobre musgo verde, uma das cobras venenosas que se destacam no habitat

Cobra-coral (Micrurus corallinus) sobre musgo, registrada em fevereiro de 2016. Foto: Whaldener Endo, Wikimedia Commons, domínio público (CC0), recortada.

As cobras venenosas se destacam mais contra o ambiente em que vivem do que as não venenosas, segundo um estudo com 458 espécies. A equipe de Amy Duclaux, da University of Galway, publicou o trabalho na revista Journal of Animal Ecology, DOI 10.1111/1365-2656.70351.

Os autores são Duclaux, Dugon e Healy. Eles juntaram imagens de cada espécie no iNaturalist, plataforma de ciência cidadã em que qualquer pessoa registra fotos de bichos, e criaram uma medida nova: quanto a cobra contrasta com o seu entorno natural.

Como a equipe mediu o contraste das cobras

Até aqui, boa parte dos estudos olhava a cor do animal isolada. Uma cobra de faixas fortes parece chamativa numa foto de fundo branco, mas pode sumir no folhiço da mata. Por isso o artigo mede a cor em relação ao ambiente, e não só a cor em si.

Com essa medida, a equipe testou três coisas: se a cobra tem veneno, se o veneno é mais potente e se ele causa mais dor. Para o primeiro ponto, a resposta foi sim. Segundo o resumo do artigo, as espécies venenosas são significativamente mais contrastantes do que as não venenosas.

O que isso diz sobre o aviso de perigo

É o que os biólogos chamam de aposematismo: o bicho exibe cores fortes para avisar o predador de que não vale a pena atacar. Vespas, sapos venenosos e corais-verdadeiras são os exemplos mais conhecidos, segundo o comunicado da universidade, reproduzido pelo Phys.org.

Duclaux disse que os resultados reforçam a ideia de que a coloração de alerta evoluiu para sinalizar perigo a predadores. Segundo o comunicado, o trabalho também mostra como fotos de ciência cidadã ajudam a estudar a evolução dos animais em grande escala.

O que o estudo não encontrou

O contraste com o ambiente não acompanhou a força do veneno. O resumo diz que os dados usados não mostraram relação com a potência nem com a capacidade de causar dor. Uma cobra mais chamativa não é, por isso, necessariamente a mais perigosa.

O próprio comunicado da universidade lembra que muitas cobras venenosas não são coloridas. Um número grande delas tem cores e desenhos marcantes, mas não todas.

A coral-verdadeira e a falsa-coral no Brasil

O caso brasileiro mais conhecido é o da coral-verdadeira. Segundo o Instituto Butantan, em nota de 12 de março de 2025, o Brasil tem 41 espécies de coral-verdadeira e mais de 60 de falsas-corais, que copiam o padrão de vermelho, preto e branco sem ter o mesmo veneno.

Ou seja, a cor de alerta também é imitada por espécies inofensivas, e o Butantan diz que algumas são tão parecidas que diferenciar é quase impossível. A matéria sobre as diferenças entre coral-verdadeira e falsa-coral mostra o que se pode e o que não se pode conferir a olho.

O que fazer ao encontrar uma cobra

O recomendado pelo Butantan diante de qualquer serpente é se afastar e, em área urbana, chamar ajuda profissional: Corpo de Bombeiros, Defesa Civil ou Controle de Zoonoses da cidade. O passo a passo para o caso de cobra dentro de casa depois da chuva está na matéria que reúne a orientação do Ministério da Saúde.

Outro estudo recente, sobre como a paisagem muda a reação das pessoas a cobras, ajuda a entender por que o susto muda conforme o lugar em que a cobra aparece.

O que este estudo não permite concluir

O resultado vale para as 458 espécies em conjunto, não para um bicho que aparece no quintal. Muitas venenosas não se destacam e algumas inofensivas se destacam. Cor sozinha nunca diz se a cobra é perigosa.

A medida usa fotos do iNaturalist, que variam em luz e qualidade, e o resumo não relaciona o contraste à potência do veneno. As conclusões são dos autores e da universidade. Nós não tivemos acesso ao texto completo do artigo, só ao resumo e ao comunicado.

Fontes: Duclaux et al., Journal of Animal Ecology, 2026 (DOI). University of Galway, comunicado publicado no Phys.org. Instituto Butantan, nota de 12 de março de 2025.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Animais e natureza →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.