Animais

Boto-cor-de-rosa está Em Perigo de extinção, diz o ICMBio

O animal que virou lenda nos rios da Amazônia está na lista de espécies ameaçadas. A avaliação do ICMBio, publicada em 2023, cita a pesca da piracatinga, as hidrelétricas e as capturas acidentais, e suspeita de uma queda de pelo menos 50% na população desde o ano 2000.

Focinho comprido e rosado de um boto-cor-de-rosa com a fileira de dentes, espécie classificada Em Perigo pelo ICMBio

Focinho e dentes de um boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), foto de fevereiro de 2022 registrada no Brasil. Foto: Diogo Luiz, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) está na categoria Em Perigo de extinção, segundo o ICMBio. A classificação vale desde 18 de maio de 2018, e a ficha da espécie no sistema SALVE foi publicada em 2023. O órgão aponta a pesca da piracatinga e as hidrelétricas como as pressões principais.

De bicho abundante a espécie em perigo

A ficha do ICMBio descreve o boto como uma espécie dos rios da Bacia Amazônica, onde sempre foi abundante e bem distribuída. Os golfinhos de rio, diz o texto, estão entre as espécies mais ameaçadas por causa do conflito pelo uso da água e dos peixes.

A avaliação foi assinada por uma equipe de 21 pesquisadores, com Camila Domit como primeira autora. A ficha usa o critério A4bcd, que parte de uma queda estimada da população em três gerações, somando passado e futuro.

Na piracatinga, o boto-cor-de-rosa vira isca

Boto-cor-de-rosa visto de cima, com a cabeça clara e o focinho comprido fora da água escura
Boto-cor-de-rosa com a cabeça fora da água, em foto de junho de 2016. Foto: Nortondefeis, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O ponto mais grave está na pesca da piracatinga, um peixe de água doce. Segundo a ficha, desde o início dos anos 2000 o boto passou a ser capturado de propósito para servir de isca nessa atividade.

No começo, isso acontecia só no alto e médio Amazonas e Solimões. Hoje a ficha fala em registros de expansão da captura. Os monitoramentos feitos na Amazônia central confirmam, nas palavras do ICMBio, que a retirada de botos não é sustentável.

Hidrelétricas, redes e margens desmatadas

As usinas, existentes e planejadas, pesam de dois jeitos: reduzem o alimento disponível e alteram e fragmentam o habitat, o que isola grupos de botos. As capturas acidentais em redes entram na lista como outra ameaça.

O texto também aponta o aumento do desmatamento e da ocupação humana nas margens dos rios. Como o boto vive preso a esse ambiente, o ICMBio diz que o efeito pode ser direto.

Ameaça citada na fichaO que a ficha diz
Isca na pesca da piracatingaAmeaça direta desde o início dos anos 2000; o monitoramento na Amazônia central confirma que a captura não é sustentável
HidrelétricasExistentes e planejadas, reduzem o alimento e fragmentam o habitat, com isolamento das populações
Capturas acidentaisListadas como ameaça, sem número na ficha
Desmatamento e ocupação das margensPodem afetar diretamente uma espécie muito ligada ao ambiente do rio

Arte: Watts & Wild, com dados da ficha de Inia geoffrensis no SALVE/ICMBio (2023).

A conta dos 69 anos

A suspeita de declínio é de pelo menos 50% em três gerações, ou 69 anos, contados a partir do ano 2000. Dividindo, a ficha trabalha com 23 anos por geração, e a janela vai até 2069, misturando período já vivido e futuro.

Boto-cor-de-rosa debaixo da água, com o olho pequeno e a fileira de dentes no focinho comprido
Boto debaixo da água, em foto de novembro de 2016 catalogada no Parque Estadual Rio Negro Setor Sul, em Novo Airão (AM). Foto: Ednei Fialho Lopes, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O ICMBio diz que a conta se apoia em um índice de abundância adequado à espécie, na queda da qualidade do habitat e nos níveis de exploração. As principais ameaças usadas para classificar o boto como Em Perigo foram as hidrelétricas e as capturas.

Outros bichos da mesma conta

A lista de ameaçados do país tem muitos vizinhos do boto. Vale ler sobre o mico-de-cheiro-de-cabeça-preta em Mamirauá, sobre o peixe-boi marinho, criticamente ameaçado e sobre o peixe-elétrico da Amazônia que chega a 860 volts.

O que a ficha não afirma

O número de 50% é uma suspeita, não uma contagem de botos. A ficha não traz estimativa de população total nem diz quantos animais morrem por ano na pesca da piracatinga.

A espécie não é endêmica do Brasil, e por isso a avaliação regional poderia ser ajustada. Sem dados suficientes sobre a população dos países vizinhos, o ICMBio manteve a categoria da avaliação preliminar. A ficha completa está no portal SALVE e no DOI da avaliação.

Fonte: ICMBio, ficha de Inia geoffrensis no SALVE (DOI 10.37002/salve.ficha.14491.2), 2023. Sistema SALVE.

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