O gambá que "finge de morto" na verdade entra em tanatose, um estado fisiológico involuntário que ele não controla, como mostrou o resgate de um saruê em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina
A tanatose é o mecanismo de defesa que faz o gambá parecer morto diante de uma ameaça: corpo mole, olhos entreabertos, respiração e batimentos cardíacos mais lentos. Segundo biólogos, é um reflexo instintivo e involuntário, sem controle consciente do animal, como mostrou o caso de um saruê resgatado em Santa Catarina.
Gambá fotografado em área de mata na Bahia. Foto: Alex Popovkin/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Um saruê caiu dentro de um tambor com graxa numa oficina mecânica de Jaraguá do Sul, no norte de Santa Catarina, em 27 de março de 2026, e ficou imóvel, com o corpo mole, assim que a equipe de resgate chegou para tirá-lo de lá.
Segundo o Jornal Razão, o biólogo Christian Raboch, que participou do resgate, explicou que aquilo não era teatro do animal: era tanatose, o método de defesa que os gambás usam quando não conseguem fugir e estão sob estresse muito alto.
Não, o gambá não decide fingir de morto: a tanatose é um reflexo instintivo do sistema nervoso, acionado por mecanismos neurológicos e hormonais diante de estresse extremo, que derruba o animal, deixa o corpo mole e reduz batimentos cardíacos e respiração sem que ele escolha ou controle a reação.
Tanatose não é uma escolha do gambá, é reflexo do sistema nervoso
Segundo o biólogo Mario Moura, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em entrevista ao Metrópoles, a tanatose é um comportamento puramente instintivo, que não acontece de forma pensada pelos animais.
"Não há evidências de que animais 'pensem' conscientemente em fingir morte", disse Moura, explicando que o gatilho é um conjunto de mecanismos neurológicos e hormonais acionados automaticamente sob estresse intenso.
O que muda no corpo do gambá durante a tanatose
De acordo com o Museu de Zoologia da Universidade de Passo Fundo (Muzar/UPF), o animal em tanatose fica imóvel e reduz a frequência cardíaca e a respiratória, entrando num estado que lembra um transe defensivo.
O corpo do gambá também fica flácido e os olhos ficam entreabertos, um conjunto de sinais que reforça a aparência de animal morto para quem está por perto, incluindo um predador.
Por que fingir de morto ajuda o gambá a escapar de um predador?
Segundo Mario Moura, alguns predadores soltam a presa quando ela para de se debater, e a imobilidade total pode aumentar as chances de fuga logo depois que o perigo passa.
Predadores que evitam carniça ou dependem de movimento para localizar a presa tendem a perder o interesse quando o animal para de reagir, o que torna a tanatose uma estratégia de sobrevivência eficaz mesmo sem luta.
O saruê que caiu num tambor de graxa em Jaraguá do Sul
O resgate aconteceu numa oficina mecânica de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, com apoio da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, segundo o Jornal Razão.
A equipe retirou a graxa do corpo do animal, deu banho com sabão neutro e o manteve sob uma lâmpada de aquecimento até ele se recuperar, antes de soltá-lo de volta na natureza cerca de dois dias depois.
A tanatose acontece em várias espécies de animais, não só no gambá
Segundo o Metrópoles, insetos, aracnídeos, anfíbios, répteis, aves e mamíferos usam a tanatose como defesa, e o gambá é o exemplo mais conhecido entre os mamíferos.
A estratégia varia de intensidade entre as espécies, mas o princípio é o mesmo: simular a morte para reduzir o interesse do predador em continuar o ataque.
Quanto tempo dura o estado de tanatose no gambá
Segundo o Muzar/UPF, o gambá pode permanecer imóvel por minutos, enquanto o corpo se recupera do pico de estresse que provocou a reação de defesa.
O tempo exato varia de acordo com o nível de ameaça percebida pelo animal e com o quanto o perigo demora a se afastar do local.
Gambá e saruê aparecem em cidades de todo o Brasil
Do Sul ao Nordeste, o gambá é um dos bichos silvestres mais comuns em cidades brasileiras, adaptado a quintais, telhados e árvores frutíferas, como mostram registros de Santa Catarina, São Paulo e Pernambuco.
Esse contato frequente com áreas urbanas também explica por que casos de tanatose, como o de Jaraguá do Sul, acabam filmados e compartilhados por quem presencia o resgate.
Achar que o gambá está fingindo pode atrasar o socorro que ele precisa
A tanatose explica por que o gambá parece morto, mas não garante que ele esteja bem: um animal que caiu num tambor de graxa, como em Jaraguá do Sul, ainda corre risco real até ser limpo e avaliado.
Por isso, especialistas recomendam acionar sempre um órgão ambiental ou o Corpo de Bombeiros diante de um gambá imóvel, em vez de esperar para ver se ele "acorda" sozinho.
Se você encontrar um gambá em tanatose, o que fazer
A orientação é a mesma para qualquer gambá parado, imóvel ou aparentemente morto encontrado em casa ou na rua: não tocar no animal e acionar o serviço de fauna da sua cidade.
Veja o passo a passo completo sobre o que fazer quando um gambá entra em casa, incluindo o que nunca fazer com o animal parado no meio do susto.
O que ficou registrado sobre a tanatose do gambá em Santa Catarina
O caso do saruê de Jaraguá do Sul termina com o animal limpo, recuperado e solto de volta na natureza, depois de cerca de dois dias sob cuidados da equipe de resgate.
A tanatose segue sendo o mesmo reflexo descrito por biólogos como Mario Moura, presente em bichos como o polvo que finge ser uma cobra-do-mar para enganar predadores, e também em outros animais silvestres flagrados em áreas urbanas, como o jacaré encontrado na porta de uma casa em Buritama e o cateto confundido com queixada em trilhas do interior.
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