Uma fotógrafa de 22 anos comprou por R$ 20 um álbum de couro numa feira de Porto Alegre e, ao ver 33 fotos em preto e branco lá dentro, decidiu descobrir a quem elas pertenciam
Fotógrafa compra álbum por R$ 20 em Porto Alegre e encontra a família retratada nas 33 fotos guardadas entre as páginas.
Um álbum antigo comprado por R$ 20 no Brique da Redenção levou a fotógrafa Mayara Stuelp a procurar a família retratada em 33 imagens. A busca partiu de Porto Alegre e terminou com a identificação dos parentes, que puderam reencontrar fotografias guardadas por décadas e conhecer o destino daquele objeto.
O álbum de couro comprado por Mayara Stuelp trazia, na capa, um retrato pintado do casal que ela passaria duas semanas tentando identificar. Foto: Divulgação/Mayara Stuelp.
A fotógrafa Mayara Stuelp, de 22 anos, pagou R$ 20 por um álbum de couro num domingo de julho, durante um passeio pelo Brique da Redenção, a tradicional feira de artesanato, artes plásticas e antiguidades na região central de Porto Alegre.
Dentro do álbum, 33 fotografias em preto e branco guardavam nomes, datas e dedicatórias que levariam a fotógrafa a uma investigação de duas semanas.
Segundo reportagem do g1 RS publicada em 20 de setembro, Mayara trabalha com fotografia documental e reconheceu nas imagens uma estética parecida com a que ela mesma produz. O plano era só restaurar o álbum para guardar fotos próprias, mas as pistas atrás dos retratos mudaram os planos.
sim, a fotógrafa achou a família. Depois de duas semanas de buscas que viralizaram nas redes sociais e contaram com a ajuda de uma pesquisadora de Curitiba, Mayara localizou a neta do casal Eunice e João em Santa Catarina e enviou as 33 fotos pelos Correios, junto com toda a documentação que reuniu no caminho.
Álbum de couro custou R$ 20 numa banca de antiguidades
No domingo em que encontrou o álbum, Mayara passeava entre os antiquários do Brique da Redenção, feira que reúne artesanato, arte e objetos usados na Região Central de Porto Alegre. O item era grande, de couro, e custava apenas R$ 20.
Ao folhear rapidamente antes de fechar a compra, ela percebeu algo diferente nas fotos que vinham junto: eram bonitas, bem conservadas e mostravam momentos espontâneos, sem poses rígidas. "Eu me identificava com aquelas fotografias. Parecia que as pessoas não estavam posando. Era algo muito próximo do que eu gosto de fazer", contou a fotógrafa ao g1.
Nomes e dedicatórias atrás das fotos viraram pistas
Atrás de algumas fotografias havia nomes, datas, endereços e dedicatórias. Eram pistas pequenas, mas suficientes para despertar a curiosidade de Mayara, que começou a pesquisar registros antigos e buscar possíveis familiares.
"Eu ficava lembrando que as fotos estavam ali e ia pesquisar de novo. Aos poucos fui ficando obcecada pela história", revelou. O que mais intrigava a fotógrafa não era só descobrir quem eram as pessoas retratadas, mas entender como aquela memória tinha terminado à venda entre objetos usados.
Por que uma fotógrafa compra o álbum de uma família desconhecida numa feira?
"Em todos os antiquários de Porto Alegre a gente vê centenas de fotografias e álbuns sendo vendidos. Mas ninguém sabe exatamente o que aconteceu para aquelas memórias irem parar lá", comentou Mayara ao g1, sobre o que a motivou a ir além da compra.
Com poucas pistas em mãos, ela e o namorado começaram uma espécie de quebra-cabeça genealógico, cruzando os nomes e datas escritos no verso das fotos com registros públicos e históricos disponíveis on-line.
Eunice nasceu em 1922 e virou professora de piano
Uma das imagens de infância revelou uma informação decisiva: Eunice, uma das protagonistas do álbum, tinha nascido em 1922. Outra fotografia mostrava que ela tocava piano.
A busca revelou que Eunice teve forte ligação com o Instituto de Educação de Porto Alegre: estudou lá aos 17 anos e, tempos depois, tornou-se professora de piano e canto na mesma instituição, onde também ajudou a fundar uma associação de ex-alunas.
Certidão de casamento revelou que João nasceu Giambattista, na Itália
A história de João também foi aparecendo aos poucos. A certidão de casamento do casal, datada de 24 de setembro de 1946, mostrou que o nome original dele era Giambattista, não João Batista.
No álbum havia duas fotografias com dedicatórias escritas em italiano. Segundo a investigação de Mayara, João chegou ainda criança ao Brasil e, ao longo da vida, passou a usar a versão brasileira do próprio nome.
Vídeo nas redes sociais transformou a busca numa pesquisa coletiva
Percebendo o potencial da história, Mayara decidiu publicar um vídeo contando o que tinha descoberto até ali. Centenas de mensagens começaram a chegar: algumas pessoas só queriam saber o final, outras se ofereceram para ajudar na busca.
Pessoas que viram o vídeo passaram a procurar documentos e registros em acervos de jornais. A busca deixou de depender apenas de Mayara e do namorado: desconhecidos também tentavam descobrir quem aparecia nas fotografias.
Pesquisadora de Curitiba ajudou a montar o quebra-cabeça à distância
Uma ajuda decisiva veio de fora de Porto Alegre: uma pesquisadora de Curitiba se disponibilizou a ajudar e, durante noites seguidas, mergulhou em acervos e documentos históricos digitais.
As informações que ela levantou ajudaram a conectar peças do quebra-cabeça, como o vínculo de Eunice com o Instituto de Educação e o nome de nascimento de João.
Como a fotógrafa achou a neta do casal das fotos?
Mesmo com tantas informações reunidas, faltava o mais importante: descobrir se alguém da família ainda estava vivo. Durante as buscas, surgiram nomes de possíveis netas do casal.
Em agosto, Mayara encontrou um perfil nas redes sociais que parecia ser de uma delas. "Fiquei na dúvida se eu deveria ou não mandar mensagem porque poderia ser estranho. Eu não tinha certeza se era de fato elas", relembrou.
Primeira mensagem ficou sem resposta até o vídeo viralizar
Depois de mandar a mensagem, Mayara não recebeu retorno imediato e chegou a pensar que a busca terminaria ali. Dias depois, com a repercussão do vídeo publicado na internet, a neta reconheceu os avós nas fotografias e respondeu.
As duas passaram a trocar mensagens. A neta enviou fotos dos avós já idosos e contou detalhes da história da família para Mayara.
Mayara relaciona o destino do álbum à venda de um apartamento
Foi só nessa conversa que surgiu uma resposta parcial para a pergunta que motivou tudo: por que o álbum foi parar num brechó do Centro de Porto Alegre? Mayara conta que Eunice morreu há cerca de dois anos e que, provavelmente, o álbum se perdeu quando o apartamento dela foi vendido.
Fotos e documentos já chegaram a Santa Catarina
Na última semana, Mayara enviou as 33 fotografias pelos Correios até Santa Catarina, onde a neta mora. Junto delas, foi toda a documentação reunida durante a investigação: certidões, registros e peças da história que a própria família desconhecia.
Poucos dias depois, a fotógrafa recebeu a confirmação de que o material havia chegado. As fotografias voltaram para a família acompanhadas dos documentos que ajudaram a identificar as pessoas retratadas.
O álbum original, agora vazio, ficou com a fotógrafa: ele será restaurado e vai ganhar uma nova história, com fotos da própria Mayara guardadas ali dentro.
O reencontro com a família também deu um destino às fotos que Mayara não pretendia usar. A compra de um álbum para guardar imagens próprias acabou aproximando a fotógrafa da história de pessoas que ela não conheceu.
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