Animais

Opções demais confundem até perereca: fêmeas escolhem pior quando muitos machos cantam

Fêmeas de perereca-cinzenta ficaram piores em escolher o macho de canto mais longo quando ouviram mais machos cantando, mostra um experimento de laboratório com 60 animais no Tennessee (EUA). Elas erraram mais, demoraram mais e muitas desistiram de decidir. O estudo saiu na revista iScience.

Perereca-cinzenta verde e cinza sobre um galho fino contra fundo escuro, uma perereca escolhe pior quando há muitos machos cantando

Perereca-cinzenta (Hyla versicolor) em galho, em junho de 2022. Foto: Peter Paplanus, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada. A imagem é ilustrativa e não mostra os animais do experimento.

Quanto mais machos a perereca-cinzenta fêmea ouve, pior ela escolhe o parceiro. Foi o que encontrou a bióloga Claire Hemingway e colegas, num trabalho publicado na iScience em 2026 e resumido por ela na The Conversation, em 4 de outubro.

Cada fêmea ouviu um canto longo, o mais atraente, ao lado de um, três ou sete cantos curtos. Com mais cantos curtos, ela acertou menos o alvo, levou mais tempo e passou a deixar a decisão em aberto com mais frequência.

Como o experimento foi feito

A equipe capturou 60 fêmeas em coros reprodutivos do leste do Tennessee e levou os animais ao laboratório. Em cada teste, a fêmea ficava numa arena, com alto-falantes tocando gravações de machos.

A regra de campo é conhecida: os machos se juntam em coros e cantam, e as fêmeas preferem os cantos mais longos. No teste, um canto longo competia com um, três ou sete cantos curtos e menos atraentes.

A fêmea saltava na direção do alto-falante que preferia. O tempo para decidir era de 10 minutos.

O que aconteceu quando os cantos aumentaram

MedidaO que mudou com mais cantos curtos
Acerto do canto longo, o mais atraenteCaiu
Tempo para decidirAumentou
Fêmeas sem decisão em 10 minutosAumentaram

Arte: Watts & Wild, a partir do relato dos autores do estudo na The Conversation, de 4 de outubro de 2026. Os números exatos estão no artigo da iScience.

Conforme os cantos curtos cresceram em número, as fêmeas escolheram pior, demoraram mais e mais vezes não chegaram a decidir dentro dos 10 minutos, segundo Hemingway.

Perereca-cinzenta verde pousada sobre o zíper de uma bolsa preta
Perereca-cinzenta pousada numa bolsa, em outubro de 2021. Foto: Paul Harrison, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada. A imagem é ilustrativa e não mostra os animais do experimento.

Por que não foi só barulho

Os cantos tocaram um depois do outro, sem se sobrepor. Isso descarta o chamado mascaramento energético, em que sinais sobrepostos atrapalham o ouvido do animal e ele não separa um canto do outro.

Biólogos costumavam atribuir a queda de preferência em coros ao mascaramento. Neste estudo, a explicação é outra: o limite está na cabeça da fêmea, que tem dificuldade de comparar tantas opções, e não em ouvir mal.

O que isso muda para quem acasala

O comprimento do canto está ligado à aptidão da prole na perereca-cinzenta. Se a fêmea não reconhece o canto que prefere no coro de verdade, pode acabar com um macho que rejeitaria em outra situação, e a prole herda os traços menos desejáveis.

Hemingway levanta uma possibilidade, que a equipe ainda não testou: machos menos atraentes talvez ganhem ao cantar em coros grandes, onde a fêmea tem mais dificuldade de rejeitá-los. Os mais atraentes talvez saiam ganhando em grupos pequenos ou sozinhos.

Abelhas, formigas e mosquitos também erram com muitas opções

A sobrecarga de escolha não é exclusiva das pererecas nem da escolha de parceiro. Segundo a pesquisadora, abelhas escolhendo flores, formigas comparando locais de ninho e mosquitos escolhendo onde pôr ovos decidem pior quando as opções aumentam.

Pesquisas recentes com grilos-de-campo e pererecas apontam o mesmo padrão ao escolher parceiros pelo canto.

O que o experimento ainda não mostra sobre os coros reais

O teste ocorreu numa arena simplificada, de propósito, para isolar a sobrecarga de escolha de outros fatores. Faltaram a sobreposição de cantos, a vegetação e o risco de predadores que a fêmea enfrenta num brejo de verdade.

A equipe também limitou a escolha a oito cantos, e a perereca pode ouvir mais que isso na natureza. Num coro real, o mascaramento e a sobrecarga provavelmente agem juntos, e o próximo passo é medir quanto cada um pesa. Ainda falta mostrar se, na natureza, a decisão demora e a fêmea acaba com machos menos atraentes.

Para outro caso de anfíbio brasileiro em perigo, veja o sapo de 13 milímetros do Espírito Santo, em perigo crítico. O artigo completo da equipe de Hemingway, "Choice overload constrains mate choice independent of energetic masking", está na iScience.

Fontes: Claire T. Hemingway, The Conversation, republicado no Phys.org, 4 de outubro de 2026. Hemingway et al., iScience (2026), DOI 10.1016/j.isci.2026.117086.

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