Expedição à Serra do Aracá, no Amazonas, volta com até 10 anfíbios e 5 lagartos que podem ser espécies novas, e só o DNA vai confirmar
Cientistas brasileiros passaram 19 dias coletando bichos e plantas no topo de montanhas do norte do Amazonas e voltaram com 9 espécies de lagartos e 18 de anfíbios. A equipe diz que 5 lagartos e 10 anfíbios podem ser novos para a ciência. Nenhum foi descrito ainda.
Riacho de águas avermelhadas pela matéria orgânica da floresta, visitado quase todo dia pela equipe, no platô do Aracá. Foto: André Dib/Agência Fapesp.
Cinco dos 9 lagartos e dez dos 18 anfíbios coletados na Serra do Aracá podem ser espécies novas, mas nenhuma está descrita. A conta é da equipe da expedição, liderada por Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da USP, e consta do balanço da Agência Fapesp de 23 de setembro de 2026.
O trabalho de campo foi de 24 de agosto a 12 de setembro, em duas bases de montanha. A etapa de laboratório começa agora, e o balanço da agência avisa que a identificação precisa de genética e de anos de estudo.
O que a expedição à Serra do Aracá trouxe de volta
Além dos lagartos e dos anfíbios, os pesquisadores coletaram cerca de 20 espécies de mamíferos, 80 de aves e centenas de amostras de invertebrados, plantas, solo e água. O quadro resume os números do balanço.
| Grupo | O que a equipe coletou | Candidatas a espécie nova |
|---|---|---|
| Lagartos | 9 espécies | 5, incluindo um possível gênero novo |
| Anfíbios | 18 espécies | 10 |
| Mamíferos | cerca de 20 espécies, 80 exemplares | sem estimativa no balanço |
| Aves | 80 espécies, 200 exemplares | sem estimativa no balanço |
| Plantas | 2 mil exsicatas, de 400 números de coleta | dezenas |
| Invertebrados | mais de 300 amostras | sem estimativa no balanço |
| Parasitas do sangue | 100 amostras | em análise |
Arte: Watts & Wild, com dados do balanço da Agência Fapesp de 23 de setembro de 2026. "Exsicata" é a planta prensada e seca para herbário.
No último dia ainda veio uma cobra. “Pegamos uma cobra, talvez uma nova espécie, após uma noite de muita chuva”, contou Trefaut à agência. A coleta incluiu também material de solo e água para DNA ambiental e perfurações de solo que devem reconstruir a vegetação da região nos últimos 30 mil anos.
Duas bases, 19 dias e um helicóptero do Exército
A equipe de 16 pesquisadores saiu de Barcelos (AM), no rio Negro, de helicóptero Black Hawk do Exército. O acampamento principal ficou num platô a cerca de 220 quilômetros dali, a 1.265 metros de altitude. O platô tem 210 quilômetros quadrados.
A segunda base ficou a 25 quilômetros a sudeste, numa montanha de 10 quilômetros quadrados e 850 metros, separada do maciço principal. Os pesquisadores a batizaram de Aracazinho. O voo entre as duas bases durou sete minutos. O Exército cuidou da logística e da segurança.
Por que montanhas isoladas criam espécies novas?
A região é feita de tepuis, montanhas de topo plano. Pantepui é o nome que os cientistas dão ao conjunto delas no Escudo das Guianas, entre o sul da Venezuela, o norte do Brasil e o oeste da Guiana.
Segundo Trefaut, em texto da agência de 24 de agosto, o norte do Planalto das Guianas era um platô contínuo. Água e vento abriram vales e o fragmentaram em maciços. Cada maciço virou uma ilha de pedra cercada pela floresta baixa, e as espécies de cada ilha seguiram caminhos próprios.
“Nos tepuis, tudo o que está lá em cima não tem nada a ver com a Amazônia que está embaixo”, disse ele. Nos campos de altitude do Sudeste, como Caparaó e Itatiaia, as espécies do topo descendem das da floresta logo abaixo. Nos tepuis, não.
Um platô na fronteira entre dois conjuntos de tepuis
Segundo a mesma reportagem, a Serra do Aracá é de arenito da Formação Roraima, com cerca de 2 bilhões de anos. Fica entre os tepuis do leste, de que o Monte Roraima é o maior, e os do oeste, onde está o Pico da Neblina.
Os dois lados têm sapinhos diferentes: o gênero Oryophrynella a leste, Metaphriniscus e um gênero novo descoberto pela equipe a oeste. “Não temos ideia do que vamos encontrar lá”, disse Trefaut antes da viagem. A expedição ocorreu no Parque Estadual da Serra do Aracá, de 1,8 milhão de hectares, criado em 1990, segundo a agência.
Do platô ao Aracazinho: duas faunas a 25 quilômetros
No platô, a equipe chegou à mata nebular, floresta úmida de altitude envolvida por neblina. O herpetólogo Taran Grant, da USP, resumiu: “Geograficamente estamos na Amazônia, mas em termos biogeográficos isso aqui é o Pantepui”.
O Aracazinho, mais baixo, deu outra mistura. Antoine Fouquet, do CNRS da França, disse que ali se encontram grupos típicos da Amazônia e outros do Pantepui. Os herpetólogos registraram uma perereca do gênero Myersiohyla, de altitude, e outras do gênero Osteocephalus, da planície.
Os mamíferos também variaram. O especialista Alexandre Percequillo, da Esalq-USP, achou no Aracazinho roedores que talvez não sejam os mesmos do outro acampamento. A botânica Vania Yoshikawa, do Inpa, coletou lá duas espécies de Apocynaceae que considera inéditas.
Como cada bicho virou dado ainda no acampamento
Cada animal recebeu etiqueta com número de série e foi fotografado vivo, porque a cor some no etanol. “O amarelo se desvanece e o marrom não é tão marrom, fica mais cinza”, explicou Grant.
Agustín Camacho, da Universidade Autônoma de Madri, mediu o limite de calor que lagartos aguentam. Lucas Rachid, da USP, coletou material para estudar cromossomos. Bruno Fermino, do Ifam, dividiu o sangue em três partes para estudar parasitas.
Para onde vai o material coletado
Répteis, anfíbios e aves vão para o Museu de Zoologia da USP, e os mamíferos para a Esalq. As plantas passam pelo Inpa, em Manaus, antes de seguir para o herbário da USP, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o do Missouri, nos Estados Unidos.
Percequillo vê nas coleções o legado mais duradouro. “O importante é que deixamos um testemunho de áreas que podem mudar drasticamente diante das mudanças climáticas”, disse. As coleções ficam abertas a pesquisadores do Brasil e do exterior.
O que a mesma equipe achou no Neblina e no Imeri
O Aracá é a terceira e última etapa de um projeto da Fapesp com apoio do Exército. No Pico da Neblina, em 2017, o grupo achou duas famílias novas de sapos e duas espécies de lagarto do gênero Riolama. No Imeri, em 2022, coletou uma ave nova e um gênero novo de caranguejo de água doce.
A Amazônia rendeu outras descobertas em setembro: uma rã do gênero Adenomera foi descrita no Alto Juruá, no Acre, o Inpa descreveu um peixe elétrico de 860 volts e o Butantan estudou peptídeos do veneno do sapo-cururu-da-amazônia.
O que ainda falta para virar espécie nova
“Possivelmente nova” é uma hipótese de campo. O herpetólogo Ivan Prates, do Museu de História Natural de Oslo, vai sequenciar o DNA dos lagartos e comparar a forma dos exemplares para reconstruir a história das populações.
O processo é lento. “Como vimos nas expedições anteriores ao Pico da Neblina e à Serra do Imeri, os primeiros trabalhos mais consistentes costumam levar, em média, de quatro a cinco anos para serem publicados”, disse Trefaut. “Nada é imediato.”
O relato completo da expedição sai na edição de novembro da revista Pesquisa Fapesp, segundo a agência.
Fontes: Agência Fapesp, balanço de 23 de setembro de 2026. Agência Fapesp, texto de 14 de setembro. Agência Fapesp, texto de 24 de agosto. Agência Fapesp, texto de 31 de agosto.



