Esfera dourada do fundo do mar era base de anêmona gigante
Um objeto dourado, liso, com um buraco na lateral, preso numa rocha a mais de três quilômetros de profundidade. Ninguém sabia dizer se era ovo, esponja morta ou outra coisa. A NOAA levou dois anos e sete meses e fechou a resposta com DNA: era o que sobrou de uma anêmona gigante.
A esfera dourada presa à rocha, a cerca de 3.300 metros de profundidade, em 30 de agosto de 2023. Foto: NOAA Ocean Exploration, Seascape Alaska (domínio público).
A esfera dourada do fundo do mar era o que restou das células mortas na base de uma anêmona gigante de águas profundas, a Relicanthus daphneae. Segundo a NOAA, é a parte do animal que fica colada na rocha, e a identificação saiu em 22 de abril de 2026.
O objeto foi achado em 2023, no Golfo do Alasca, a 3.250 metros de profundidade, durante a expedição Seascape Alaska 5 do navio Okeanos Explorer. Pesquisadores da NOAA Fisheries e do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian chegaram à resposta combinando estrutura física e análise genética.
A esfera dourada do fundo do mar começou como um chapéu amarelo
Em 30 de agosto de 2023, o robô submarino Deep Discoverer deslizava sobre uma rocha de um monte submarino no Golfo do Alasca quando as câmeras pegaram uma cena que ninguém esperava. Um dos cinegrafistas a bordo foi o primeiro a dar nome ao objeto: “chapéu amarelo”, segundo a NOAA Ocean Exploration.
A coisa era lisa, dourada, em forma de cúpula, com pouco mais de 10 centímetros de diâmetro, colada na pedra no meio de algumas esponjas brancas. Perto da base, um rasgo mostrava um interior da mesma cor.
A transmissão do mergulho era ao vivo, e muita gente assistia. A imprensa logo trocou o chapéu por apelidos de conto de fadas: esfera dourada, ovo dourado. Em inglês, golden orb.
Ovo, esponja morta ou algo que saiu de dentro?
A primeira conversa a bordo foi de gente intrigada. A NOAA lembra que, quando a equipe encontra um organismo desconhecido, em geral algum colega reconhece em poucas horas. Dessa vez ninguém reconheceu.
As hipóteses iam de uma base de esponja morta a um coral e a uma capa de ovos. A própria NOAA resumiu o dilema anos depois: seria uma capa de ovos, uma esponja morta, ou algo tinha entrado nela, ou saído dela?
Sam Candio, coordenador da expedição, disse na época, em tradução da redação, que a equipe não conseguia identificar o objeto além de saber que tinha origem biológica. Para ele, a descoberta mostrava “o quanto resta aprender” sobre o oceano.
Como uma coleta por sucção mandou o mistério para Washington
Os pilotos do ROV, ligados à Fundação Global para a Exploração dos Oceanos, usaram o sugador do Deep Discoverer para arrancar a peça da rocha e trazê-la para dentro do navio. Só em laboratório dava para continuar a investigação, com ferramentas que o navio não tem.
A amostra seguiu para o Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, onde fica também o Laboratório Nacional de Sistemática da NOAA Fisheries. Foi ali que começou a parte demorada, a que não passa na transmissão ao vivo.
O pedaço de bicho que não parecia bicho
O primeiro exame mostrou um material fibroso, em camadas, sem a anatomia de um animal inteiro. Mas a superfície estava lotada de cnidócitos, as células urticantes típicas de águas-vivas, corais e anêmonas, o que apontava para um cnidário.
Abigail Reft, cientista do laboratório, identificou as células como espirocistos. Esse tipo de célula urticante só existe no grupo dos hexacorais, o das anêmonas e dos corais pétreos. A lista de suspeitos encolheu de uma vez.
A equipe também examinou um exemplar parecido, coletado em 2021 pelo navio de pesquisa Falkor, do Schmidt Ocean Institute, e achou o mesmo tipo de célula nele.
O DNA que enganou o primeiro teste
O código de barras de DNA, teste rápido e comum em taxonomia, não resolveu. A NOAA diz que o resultado ficou inconclusivo, provavelmente porque o teste pegou DNA de outros seres microscópicos que vivem na superfície da peça.
A equipe então sequenciou o genoma inteiro. Apareceu DNA de animal, em grande parte de uma anêmona gigante de águas profundas. Os genomas mitocondriais dos dois exemplares ficaram quase idênticos ao de referência da Relicanthus daphneae.
Allen Collins, zoólogo e diretor do laboratório, disse que esperava resolver na rotina. Segundo ele, o caso exigiu conhecimento de morfologia, genética, vida no mar profundo e bioinformática, reunidos em várias pessoas.
O que a análise derrubou, hipótese por hipótese
| Hipótese em 2023 | O que a análise mostrou |
|---|---|
| Ovo ou cápsula de ovos | Não: o material é fibroso, em camadas, cheio de células urticantes |
| Esponja morta | Não: a NOAA descarta; é resto de uma anêmona de águas profundas |
| Espécie nova, ou fase de vida desconhecida | Não: o DNA é quase idêntico ao da anêmona Relicanthus daphneae |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da NOAA de 22 de abril de 2026 e do resumo do preprint no bioRxiv.
A NOAA resumiu o resultado assim: não é ovo, não é esponja e não é resto de alienígena. É o resto de uma anêmona de águas profundas.
Dois anos, sete meses e 23 dias de espera
Da primeira imagem, em 30 de agosto de 2023, até o comunicado de 22 de abril de 2026, passaram-se 966 dias. É uma conta da redação com as duas datas da NOAA: dois anos, sete meses e 23 dias.
Como a NOAA diz, ciência leva tempo. O caminho teve várias etapas, uma depois da outra: olhar o material, achar as células, tentar o DNA, ver que o teste rápido falhou, sequenciar tudo e comparar com um genoma de referência.
A esfera não era única: outros restos iguais já estavam por aí
O resumo do trabalho no bioRxiv traz um dado que ajuda a entender o tamanho do achado. Além da esfera do Alasca, os autores identificaram um exemplar parecido, vindo de águas profundas equatoriais, como a mesma coisa.
Eles também documentaram uma cutícula do mesmo tipo em um exemplar coletado no Oceano Austral e fotos, tiradas no próprio fundo, de cutículas parecidas debaixo de indivíduos vivos. A espécie tem distribuição geográfica ampla.
Para os autores, a lição é que parte da biodiversidade do mar profundo continua sem explicação, e que coletar o material inteiro, e não só filmar, faz diferença. Foi a coleta que permitiu o DNA.
3.250 metros: o que o número quer dizer
A NOAA descreve a profundidade como mais de duas milhas, perto de 3.250 metros. O comunicado de 2023 falava em cerca de 3.300 metros, e o artigo científico fixou 3.250.
Em conta aproximada da redação, a cada 10 metros de água a pressão sobe cerca de uma atmosfera. A essa profundidade, são mais de 300 atmosferas além da pressão do ar, o que ajuda a entender por que só robôs chegam lá.
O que o oceano ainda guarda e outros achados do fundo
Capt. William Mowitt, diretor interino da NOAA Ocean Exploration, disse que com técnicas como o sequenciamento de DNA a ciência resolve cada vez mais desses mistérios. Para ele, é por isso que a exploração continua.
O fundo do mar rende notícias parecidas com frequência: houve fungos a 556 metros de profundidade com 13 espécies que podem ser novas e 57 espécies novas num cânion do mar argentino. Já o ponto mais fundo do planeta tem página própria, a da Fossa das Marianas.
O que ainda falta confirmar
O artigo que descreve a identificação é um preprint, publicado no bioRxiv em 21 de abril de 2026, ou seja, ainda sem revisão por pares. Os resultados podem mudar na revisão. Até aqui, o que sustenta a resposta é o comunicado da NOAA e esse texto.
A anêmona fotografada nas Ilhas Marianas em 2016, que a NOAA usa como comparação, não é a esfera dourada: é um animal da mesma espécie, com base parecida. As fotos que mostram a esfera de verdade são as de 2023.
O vídeo da descoberta e as imagens originais estão na página da NOAA Ocean Exploration, que liberou o material para download em alta resolução.
Fontes: NOAA, comunicado de 22 de abril de 2026. NOAA Ocean Exploration, notícia de 7 de setembro de 2023. bioRxiv, preprint de 21 de abril de 2026 (resumo).



