Animais e natureza

O caramujo africano chegou ao Brasil por uma feira no Paraná nos anos 1980 e já está em 23 dos 26 estados; a forma segura de eliminar é catar com luva, matar sem veneno e quebrar a concha

A época de chuva faz o caramujo-africano aparecer em muro, horta e calçada. A Fiocruz explica como catar e descartar sem veneno. Juntamos três estudos brasileiros sobre o verme que ele pode carregar e os 4.632 registros da espécie no iNaturalist para mostrar quando ele mais aparece.

Caramujo africano rastejando no asfalto molhado no bairro Cota 400, em Cubatão, na Serra do Mar

Caramujo-africano no bairro Cota 400, em Cubatão (SP), na Serra do Mar, em novembro de 2015. Foto: Marcos Simanovic, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Para eliminar o caramujo-africano, cate à mão com luva ou saco plástico, de manhã cedo ou à noitinha, quando ele está ativo. Depois, esmague, cubra com cal virgem e enterre. Não use veneno. A orientação é do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz.

Como ele chegou e se espalhou

O Achatina fulica é da África. Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, entrou no Brasil por uma feira agropecuária no Paraná, na década de 1980. Com alta capacidade de reprodução, se espalhou por 23 dos 26 estados e virou praga de hortas e jardins.

Um estudo de 2023 lembra que a espécie está na lista das 100 piores invasoras do mundo.

A hora certa da catação

De dia, o caramujo se esconde para se proteger do sol. Os melhores horários são as primeiras horas da manhã e o começo da noite, quando eles estão mais ativos e dá para coletar mais exemplares.

Caramujo-africano jovem escondido no centro de uma bromélia em Americana, São Paulo
Caramujo-africano jovem no miolo de uma bromélia em Americana (SP). De dia, eles se escondem do sol. Foto: Maria Cecilia De Nadai, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

A proteção nas mãos é a regra da Fiocruz: luva ou, na falta dela, saco plástico.

Como matar e descartar sem veneno

O Plano de Ação do Ibama citado pela Fiocruz manda esmagar os caramujos, cobrir com cal virgem e enterrar. Outra saída é jogar água fervente no balde onde eles foram recolhidos. Queimar também é aceito, desde que com segurança.

Pesticida não é recomendado, por causa da alta toxicidade. Também é possível ensacar e mandar no lixo comum.

Por que quebrar a concha

Concha inteira acumula água e vira criadouro do Aedes aegypti, o mosquito da dengue. Por isso a Fiocruz pede que as conchas sejam quebradas antes do descarte, seja no lixo, seja enterradas.

No Rio de Janeiro, focos podem ser avisados à Defesa Civil.

O que os estudos acharam sobre o verme

O caramujo pode carregar o Angiostrongylus cantonensis, verme que causa a meningite eosinofílica, segundo o estudo de Manaus. O risco muda muito de lugar para lugar.

EstudoOndeO que achou
Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 2007Florianópolis (SC)1 de 244 caramujos com larvas do grupo do verme; o caramujo do Sul foi pouco suscetível
Brazilian Journal of Biology, 2023Jacarepaguá (RJ)192 de 280 com nematoides, entre eles o verme da meningite
Revista de Patologia Tropical, 2023Manaus (AM)caramujos de um dos locais com o verme; caso recente de meningite em Macapá

Os números não se comparam entre si: cada estudo usou método e local diferentes.

Em Jacarepaguá, os pesquisadores pedem educação da comunidade para controlar o caramujo e reduzir o risco de infecção. Em Manaus, reforçam a vigilância onde o verme já foi achado.

Os meses em que mais aparece o caramujo africano

Somando todos os anos, abril tem 749 registros no iNaturalist e agosto, o mês mais fraco, 242. De julho a setembro, os números ficam no fundo. O estudo de Jacarepaguá também achou mais caramujos no outono e no verão.

MêsRegistros no Brasil (todos os anos)
jan511
fev390
mar434
abr749
mai395
jun417
jul257
ago242
set258
out338
nov289
dez352

Soma de 4.632 observações verificáveis no iNaturalist até 02/10/2026. Fonte: iNaturalist.

Os registros só sobem

Gráfico dos registros anuais do caramujo-africano no Brasil no iNaturalist de 2017 a 2025
Os registros cresceram quase 30 vezes de 2017 a 2025. Parte disso pode ser só mais gente usando o aplicativo. Arte: Watts & Wild, com dados do iNaturalist.

Foram 33 registros em 2017 e 975 em 2025. Em 2026, até 2 de outubro, já são 1.069, mais que o ano passado inteiro.

Os limites das contagens e dos estudos

O iNaturalist conta fotos enviadas por pessoas, não caramujos. Parte da alta pode vir de mais gente usando o aplicativo. E os três estudos usaram métodos diferentes, então não dá para dizer qual cidade tem mais risco. Nenhum deles mediu quantas pessoas adoecem.

O quintal depois da limpeza

A catação precisa ser repetida enquanto aparecerem caramujos. A chuva também traz outros visitantes ao quintal, como cobras e enxames de abelha. Para a horta, a cobertura com papelão é uma alternativa sem veneno ao mato.

Fontes: Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz; Rangel e colegas, Brazilian Journal of Biology, 2023; Neuhauss e colegas, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 2007; Ramos-de-Souza e colegas, Revista de Patologia Tropical, 2023; iNaturalist. Gráfico e tabelas: Watts & Wild.

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