O Atlântico chegou a outubro sem nenhum furacão em 2026, contra uma média de mais de cinco até esta data, enquanto o Pacífico Nordeste já teve dez, e a gangorra entre os dois oceanos tem a marca do El Niño
A temporada de 2026 está de cabeça para baixo. O Atlântico, que costuma ser o oceano dos furacões famosos, teve oito tempestades fracas e curtas. Do outro lado do continente, o Pacífico acumulou ciclones fortes e mais que dobrou a energia normal. A explicação está no aquecimento do Pacífico equatorial.
Foto de satélite do Pacífico em 27 de setembro, com os furacões Nolo, à esquerda, e Polo, perto da Baja California. Imagem: NASA Earth Observatory, Lauren Dauphin, com dados do DSCOVR EPIC.
Até 1º de outubro de 2026, nenhuma tempestade do Atlântico Norte virou furacão. A média de 1991 a 2020 para a mesma data é de 5,3 furacões, segundo a Universidade do Estado do Colorado. No Pacífico Nordeste foram dez. A NOAA explica que o El Niño favorece furacões no Pacífico e os inibe no Atlântico.
Oito tempestades fracas e nenhum furacão
O Atlântico teve oito ciclones com nome em 2026, de Arthur, em junho, a Hanna, no fim de setembro. Nenhum durou muito. Somados, foram 16 dias de tempestade ativa, contra 53,2 na média do período. A mais forte foi Fay, com vento máximo de 111 km/h, abaixo da força de furacão.
| Tempestade | Dias ativa (2026) | Vento máximo |
|---|---|---|
| Arthur | 6/17 a 6/18 | 74 km/h (40 nós) |
| Bertha | 7/21 a 7/23 | 93 km/h (50 nós) |
| Cristobal | 8/12 a 8/13 | 74 km/h (40 nós) |
| Dolly | 8/27 a 8/28 | 65 km/h (35 nós) |
| Edouard | 9/1 a 9/2 | 93 km/h (50 nós) |
| Fay | 9/20 a 9/29 | 111 km/h (60 nós) |
| Gonzalo | 9/25 a 9/26 | 83 km/h (45 nós) |
| Hanna | 9/28 a 9/30 | 74 km/h (40 nós) |
Tempestades com nome no Atlântico Norte em 2026 até 1º de outubro, com datas no formato mês/dia. Vento máximo sustentado segundo a lista da Universidade do Estado do Colorado.
O calendário pesa contra a normalidade. Pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, o pico da temporada do Atlântico é 10 de setembro. O pico passou sem nenhum furacão na bacia.
Dez furacões no Pacífico, oito deles fortes
No Pacífico Nordeste, que vai da costa do México até a linha de data e inclui o Havaí, a conta é a oposta. Foram 20 tempestades com nome, contra 13,9 na média, e dez viraram furacão. Oito chegaram à categoria 3 ou mais, o dobro da média de 3,9.
O mais forte foi o furacão Polo, com ventos de 287 km/h, que alcançou a categoria 5 em 22 de setembro e, segundo a NASA, provavelmente chegou à costa do México já enfraquecido, como categoria 2. Lowell e Genevieve chegaram a 259 km/h.
A energia dos ciclones em um só número
Os meteorologistas usam a energia ciclônica acumulada, a ACE, que soma a força e a duração de cada tempestade. É um jeito de medir a temporada inteira de uma vez. Pelos dados do Colorado, o Atlântico tem 10,8 unidades, 11% do normal para a data.
O Pacífico Nordeste já soma 276,2 unidades, quase duas vezes e meia a média de 112,7. Até o Pacífico Noroeste, a área dos tufões da Ásia, está 21% acima do normal. A NASA também destacou que a energia no Pacífico Nordeste passou do dobro do esperado.
A gangorra do El Niño entre os dois oceanos
A NOAA, agência americana de oceanos e atmosfera, compara o efeito do El Niño a uma gangorra. No blog de clima da agência, a explicação é direta: o fenômeno favorece furacões mais fortes no Pacífico central e oriental e suprime a atividade no Atlântico. A La Niña faz o contrário.
O El Niño de 2026 é forte, como mostramos no boletim do El Niño de 2026. A NASA informa que o fenômeno está em curso desde junho.
O vento que desmancha tempestades no Atlântico
O mecanismo central é o cisalhamento vertical do vento, a diferença de velocidade e direção do vento entre as camadas baixa e alta da atmosfera. Segundo a NOAA, cisalhamento forte pode rasgar um furacão em formação ou impedir que ele nasça.
Com o El Niño, os ventos de oeste em altitude e os alísios perto da superfície se reforçam sobre a bacia do Atlântico, e os dois juntos aumentam o cisalhamento. A agência acrescenta que o fenômeno deixa o ar mais estável e com mais movimento descendente, o que também atrapalha as nuvens de tempestade.
No Pacífico, água quente e caminho livre
Do lado do Pacífico acontece o inverso. Água quente na faixa equatorial e pouco cisalhamento, dois traços típicos do El Niño, ajudam as tempestades a nascer e ganhar força, segundo a NASA. Foi esse ambiente que deixou Polo passar de tempestade a categoria 5 em pouco tempo.
O Havaí sentiu. Nolo foi o terceiro furacão da temporada a passar perto das ilhas e, mesmo sem tocar terra, despejou mais de 30 centímetros de chuva em partes de Maui e da Ilha do Havaí, com estradas alagadas e deslizamentos, segundo a agência.
Ainda pode surgir furacão no Atlântico até novembro?
Pode. A temporada oficial do Atlântico vai de 1º de junho a 30 de novembro, e o próprio Centro Nacional de Furacões lembra que ainda há atividade em outubro. Um El Niño forte reduz a chance, mas não zera: basta uma janela de poucos dias com cisalhamento fraco sobre água quente.
Para o Brasil, a gangorra tem pouco efeito direto, porque o Atlântico Sul quase não forma ciclones tropicais. O que chega aqui são os ciclones extratropicais, como o que passou ao largo de Santa Catarina, que seguem outra física e não dependem desse mecanismo.
Os limites desta comparação
Os números do Colorado são atualizados em tempo real e ainda podem ser revistos quando as agências fecharem os dados da temporada. A temporada também não terminou, e novas tempestades ainda podem alterar a ACE do Atlântico.
O El Niño explica boa parte do contraste, mas a NOAA cita outros fatores para o Atlântico, como a Oscilação Multidecadal do Atlântico, ciclo longo de temperatura da água, e as monções da África Ocidental. As fontes consultadas não dividem o peso de cada fator em 2026.
Fontes: Universidade do Estado do Colorado, estatísticas em tempo real; lista do Atlântico Norte; lista do Pacífico Nordeste; NASA Earth Observatory; NOAA Climate.gov, El Niño e furacões; NHC, climatologia. Cálculos e gráfico: Watts & Wild.



