Ciência e tecnologia

Teclistamabe, remédio usado contra o mieloma múltiplo, foi testado em pacientes com mieloma latente e travou o câncer em quase 8 de cada 10 casos, mas ainda falta um passo para virar tratamento padrão no Brasil

O Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, divulgou os resultados de um estudo de fase 2 com o teclistamabe em pacientes com mieloma múltiplo latente de alto risco. O caso ganhou repercussão no Brasil em 19 de setembro de 2026, pelo Olhar Digital.

Fachada do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, onde foi feito o estudo sobre mieloma latente

Sede do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, onde a equipe conduziu o estudo ImmunoPRISM. Foto: ajay_suresh/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

Um estudo de fase 2 do Dana-Farber Cancer Institute testou o teclistamabe, remédio já usado contra o mieloma múltiplo avançado, em pacientes com mieloma latente de alto risco. Em 59 pessoas acompanhadas por quase dois anos, 77,8% dos tratados com o remédio zeraram os marcadores do câncer no sangue.

O Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, divulgou os resultados de um estudo clínico de fase 2 que testou o teclistamabe em pacientes com mieloma múltiplo latente de alto risco, a condição que pode anteceder o câncer completo. Dos 45 pacientes tratados com o remédio, 77,8% apresentaram resposta completa.

No grupo de comparação, 0% dos 14 pacientes que receberam o tratamento padrão, a combinação de lenalidomida com dexametasona, chegaram a esse resultado. O ensaio se chama ImmunoPRISM, segundo comunicado do Dana-Farber Cancer Institute.

O estudo foi conduzido pelo médico Omar Nadeem, diretor do Centro de Detecção Precoce e Interceptação de Cânceres do Sangue da instituição.

O estudo saiu na revista científica Nature Medicine. No Brasil, o caso repercutiu em 19 de setembro de 2026, pelo Olhar Digital, assim como outros achados de ciência que viralizaram no Brasil recentemente, caso de camundongos com neurônios humanos implantados por cientistas de Stanford.

Sim, o resultado é real e forte, mas parcial: em 59 pacientes acompanhados por cerca de dois anos, o teclistamabe eliminou os marcadores do mieloma latente em 77,8% dos casos. Só que é um estudo de fase 2, ainda sem aprovação da Anvisa ou da FDA para esse uso específico.

O estudo ImmunoPRISM comparou o teclistamabe com o tratamento padrão em 59 pacientes

A equipe do Dana-Farber dividiu 59 pacientes com mieloma latente de alto risco em dois grupos, de forma aleatória: 45 receberam o teclistamabe sozinho, em doses fixas por tempo determinado, e 14 receberam o tratamento padrão. Nenhum dos dois grupos sabia de antemão qual remédio ia funcionar melhor.

O acompanhamento durou uma mediana de 23,4 meses, quase dois anos. Além da resposta completa, os pesquisadores mediram a doença residual mínima, exame de altíssima sensibilidade que detecta células cancerígenas escondidas mesmo depois do tratamento.

O resultado: 82,2% dos pacientes tratados com teclistamabe ficaram com esse exame negativo, sinal de que o câncer estava praticamente indetectável no organismo deles.

Células de plasma anormais vistas ao microscópio em paciente com mieloma múltiplo
Células de plasma anormais (em tom mais escuro) vistas ao microscópio em amostra de sangue de um paciente com mieloma múltiplo. Foto: Dr Erhabor Osaro/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O que é mieloma múltiplo latente, a condição tratada no estudo?

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É uma fase anterior ao mieloma múltiplo completo, em que células anormais já aparecem no sangue e na medula óssea, mas a pessoa ainda não tem sintomas nem órgãos afetados. Quando os exames mostram risco alto de virar câncer ativo em pouco tempo, os médicos chamam de mieloma latente de alto risco.

Até agora, a conduta mais comum para esse grupo era só acompanhar com exames periódicos, esperando os primeiros sinais do câncer ativo para então começar o tratamento. O estudo do Dana-Farber testou a ideia oposta: agir cedo, antes dos sintomas.

Acompanhar de perto uma condição de saúde antes que ela avance, como fez Bebeto ao mostrar a própria recuperação nos Stories, é justamente a lógica por trás de tratar o mieloma ainda na fase latente.

77,8% dos pacientes tratados com teclistamabe zeraram os marcadores do câncer

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O número central do estudo é esse: 77,8% dos 45 pacientes que tomaram teclistamabe apresentaram resposta completa, ou seja, os exames de sangue e medula óssea pararam de mostrar sinais da doença. No grupo padrão, nenhum paciente, 0%, chegou a esse resultado.

A diferença também apareceu na sobrevida livre de progressão: só 7% dos pacientes do braço teclistamabe tiveram a doença avançar durante o estudo, contra 36% no grupo de comparação.

Em dois anos, a estimativa de continuar sem progressão da doença foi de 92% com o remédio novo e de 51% com o tratamento padrão, segundo o Dana-Farber.

Médico segura kits de agulha usados na biópsia de medula óssea para diagnosticar mieloma
Kits de agulha para biópsia de medula óssea, o exame usado para confirmar e acompanhar o mieloma. Foto: Thirteen Of Clubs/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

Sobrevida sem progressão chegou a 92% em dois anos com o remédio

Os números de sobrevida livre de progressão mostram o tamanho do intervalo entre os dois grupos: quem tomou teclistamabe teve quase o dobro de chance de seguir sem o câncer avançar depois de dois anos. Para os pesquisadores, isso sugere que agir na fase latente pode mudar o rumo da doença.

O preço veio em efeitos colaterais: 71% dos pacientes tratados com teclistamabe tiveram síndrome de liberação de citocinas, reação inflamatória comum a esse tipo de remédio, mas todos os casos ficaram em grau baixo.

Não houve toxicidade neurológica, e as infecções graves apareceram em taxa menor do que em estudos anteriores com o mesmo medicamento em pacientes com câncer mais avançado, sinal de segurança a favor de tratar mais cedo.

Levar a sério um sinal do corpo antes que ele piore é o mesmo raciocínio por trás da recomendação de dermatologistas sobre o desconforto ao mergulhar o rosto no gelo, mesmo em contextos bem diferentes.

O teclistamabe já pode ser usado no Brasil para mieloma latente?

Não. A Anvisa aprovou o teclistamabe, vendido como Tecvayli, só para mieloma múltiplo recidivado ou refratário, quando outras terapias já falharam. O primeiro registro saiu em 2023, e uma indicação ampliada veio em 2026, para uso combinado com daratumumabe.

Para mieloma latente, a etapa tratada no estudo do Dana-Farber, não existe registro no país. Nos Estados Unidos a situação é parecida: a FDA também aprovou o teclistamabe apenas para mieloma múltiplo recidivado ou refratário, e o uso em mieloma latente segue como pesquisa.

O motivo pelo qual ninguém deve sair pedindo esse remédio ao médico ainda

O estudo é de fase 2, com apenas 59 pacientes no total, número pequeno para provar de forma definitiva que o remédio muda o destino da doença a longo prazo. É a etapa que vem antes de um estudo de fase 3, maior e mais longo.

Também vale lembrar que 71% dos pacientes tiveram algum grau de reação inflamatória ao remédio, e que o acompanhamento de pouco mais de dois anos não mostra se o benefício se mantém daqui a cinco ou dez anos.

Tratar cedo tem essa troca: potencial ganho maior, mas também exposição a um remédio forte antes de a pessoa sequer ter sintomas do câncer.

Próximo passo é um estudo maior para confirmar o benefício em mais pacientes

Por enquanto, o resultado do ImmunoPRISM está publicado na Nature Medicine como prova de conceito: tratar o mieloma latente de alto risco antes dele virar câncer ativo funcionou melhor com teclistamabe do que com o tratamento padrão atual, nesse grupo de 59 pacientes.

Pacientes com mieloma latente de alto risco no Brasil seguem sendo só acompanhados com exames, como já é feito hoje, já que o remédio não tem registro para esse uso por aqui.

Você acha que vale a pena tratar um câncer antes dos sintomas aparecerem, mesmo com efeitos colaterais, ou é melhor esperar a doença avançar para decidir? Deixe sua opinião nos comentários.

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