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Estudos publicados nos Estados Unidos, no Golfo do México e no Brasil mediram como a fase da lua influencia a pesca, com efeito real mas pequeno e diferente para cada espécie de peixe

Estudos revisados por pares nos EUA, no Golfo do México e no Brasil mediram se a lua influencia a pesca: o efeito existe, mas é pequeno e varia por espécie.

A crença de que a lua muda a pesca é antiga entre pescadores, mas cientistas já mediram esse efeito com dados reais de captura em rios e no mar. Nos Estados Unidos, no Golfo do México e no Brasil, estudos revisados por pares encontraram influência da lua em algumas espécies, nunca em todas.

Pescador em silhueta sob lua cheia numa praia à noite, tentando fisgar peixe

Pescador tenta fisgar peixe sob a lua cheia, numa praia brasileira. Foto: Alexandre Wesp Castro (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons.

Pescadores no Brasil inteiro guardam a crença de que a lua cheia ou a lua nova mudam a quantidade de peixe fisgado num dia de pesca. A pergunta já virou objeto de pesquisa científica, com dados de captura medidos ao longo de décadas em rios e no mar.

Uma revisão publicada em 2017 na North American Journal of Fisheries Management, revista científica ligada à sociedade americana de pesca, reuniu estudos de vários países e mostrou que o efeito existe, mas depende da espécie, do tipo de pesca e do lugar.

A lua realmente muda a pesca, mas só para algumas espécies e num tamanho pequeno. Os estudos mostram influência real da fase lunar sobre a captura de certos peixes, provocada por mudança no comportamento de caça e na luz debaixo d'água, nunca um efeito universal que valha para qualquer peixe, rio ou mar do Brasil.

Nos Estados Unidos, a lua cheia elevou em até 28% a captura à noite

Um estudo de 2014 na revista científica PLOS ONE analisou 341.959 registros de captura do peixe muskellunge (Esox masquinongy), reunidos ao longo de 40 anos nos Estados Unidos e no Canadá, conforme os pesquisadores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Perto da lua cheia e da lua nova, a captura subiu cerca de 5% em média, e a alta chegou a 28% somente nas pescarias feitas à noite, segundo o artigo. Os pesquisadores descartaram viés de esforço como explicação para o resultado.

Muskellunge (Esox masquinongy) nadando entre plantas aquáticas em lago da América do Norte
O muskellunge (Esox masquinongy), peixe de água doce da América do Norte, foi o alvo do estudo de 2014 que mediu o efeito da lua na captura. Foto: Eric Engbretson/U.S. Fish and Wildlife Service (domínio público), via Wikimedia Commons.

O mecanismo apontado pelos cientistas é o horário de caça, não a luz da lua

Os autores notaram que a captura durante o dia ficou praticamente igual entre lua cheia e lua nova, um sinal de que a luminosidade da lua não é a causa direta do efeito. A hipótese defendida é a sincronização do apetite do peixe com o ciclo lunar.

O efeito também variou por tamanho do peixe e por latitude: em lagos ao norte dos Estados Unidos, o ciclo lunar explicou até 60% da variação na captura, contra menos de 36% em lagos mais ao sul, segundo o estudo.

No Golfo do México, dois peixes de recife respondem à lua e três não respondem

Uma pesquisa publicada em 2017 na North American Journal of Fisheries Management cruzou quase uma década de dados de observadores de bordo no Golfo do México. O efeito da lua apareceu na garoupa-vermelha (Epinephelus morio) e no peixe-manteiga (Lopholatilus chamaeleonticeps).

O efeito da lua não apareceu na garoupa-amarela, no pargo-vermelho e no pargo-cauda-amarela, as outras três espécies analisadas no mesmo levantamento. Para a garoupa-vermelha, a captura variou de forma diferente conforme o tipo de anzol usado no barco.

Garoupa-vermelha (Epinephelus morio) capturada e exibida por pescador em barco no Golfo do México
A garoupa-vermelha (Epinephelus morio), peixe de recife do Golfo do México, foi uma das espécies com captura ligada à fase da lua. Foto: DelphFishing (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons.

No litoral do Paraná, só 8 das 17 espécies mais comuns mudaram com a lua

Em 1998, uma pesquisa na Revista Brasileira de Zoologia analisou peixes capturados com rede de arrasto de praia em Pontal do Sul, no litoral paranaense, comparando maré alta e baixa em lua de sizígia (cheia ou nova) e de quadratura.

Apenas 8 das 17 espécies mais abundantes tiveram variação ligada à lua, à maré ou ao horário, e a maioria não mostrou padrão nenhum isolado da fase lunar. O resultado reforça que o efeito muda de peixe para peixe, mesmo dentro do mesmo trecho de praia.

Na Amazônia, a lua minguante favoreceu a desova de um camarão nativo, mediu a Embrapa

Pesquisadores da Embrapa Amapá e do Instituto Federal do Amapá acompanharam 155 fêmeas do camarão-da-amazônia (Macrobrachium amazonicum) entre novembro e dezembro de 2014, medindo em qual fase da lua nasciam mais larvas e quanto tempo os ovos levavam para eclodir.

Segundo o estudo, a lua minguante teve o maior índice de desova bem-sucedida, com 41% das fêmeas, contra 13% na lua crescente. O tempo de incubação dos ovos também variou: 8,2 dias na lua crescente e 11,5 dias na lua nova.

Por que a força gravitacional da lua consegue alterar o comportamento de um peixe?

O puxão gravitacional da lua sobre a água da Terra cria as marés, mais fortes na lua cheia e na lua nova, quando o sol e a lua se alinham com o planeta. Essa força move o nível do mar e pode arrastar mais comida para perto da costa.

Em água doce, sem maré forte, a luz da lua pesa mais: noites muito claras podem mudar onde o peixe se esconde ou caça. A força da maré, movida pela lua, já apareceu na explicação de um avanço repentino do mar que invadiu um restaurante em Santa Catarina.

Lua cheia vista de perto, mostrando crateras e mares lunares
A lua cheia, quando o astro fica totalmente iluminado e a força das marés atinge o pico do ciclo lunar. Foto: Gregory H. Revera (CC BY-SA 3.0), via Wikimedia Commons.

A piracema no Brasil já segue ciclos biológicos, mas a regra não é fixada pela lua

No Brasil, períodos de proibição da pesca como a piracema em Mato Grosso, que começa em 1º de outubro, seguem o calendário reprodutivo dos peixes migratórios, medido por décadas de monitoramento, não a fase da lua isoladamente.

Outros animais também têm reprodução ligada a ciclos naturais no Brasil, caso das tartarugas marinhas que a Fundação Projeto Tamar acompanha na temporada de desova. Nenhum desses calendários, porém, cita a lua como o fator isolado que decide o dia certo de pescar.

O tamanho do efeito ainda é pequeno diante da crença popular da pesca

Os estudos citados aqui mediram cada um uma pescaria específica, com equipamento e espécie próprios; nenhum comparou a pesca esportiva de rio ou de praia no Brasil, que é o cenário mais comum nas conversas sobre lua boa ou lua ruim para pescar.

Nenhum estudo brasileiro mediu o efeito da lua na pesca esportiva recreativa, do jeito que aparece em calendários e aplicativos vendidos para pescadores. Os efeitos medidos, quando existem, ficam na casa de poucos pontos percentuais, longe de garantir um dia de pesca certeiro.

Então, a fase da lua muda ou não a pesca no dia a dia de quem pesca?

A resposta que os dados sustentam é: sim, a lua consegue mudar o comportamento de algumas espécies de peixe e a quantidade capturada, mas o efeito é pequeno, muda de peixe para peixe e de lugar para lugar, longe de ser uma regra fixa.

Cientistas seguem coletando dados para entender melhor os mecanismos por trás desse efeito em rios e no mar brasileiros. Você segue a lua para escolher o dia de pescar, ou confia mais na maré e no horário? Conte nos comentários.

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