Uma booktoker que não conhecia Machado de Assis esgotou a tradução dele na Amazon e foi recebida pela Academia Brasileira de Letras
Courtney Henning Novak, a booktoker americana que viralizou ao chamar "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de melhor livro do mundo, visitou a Academia Brasileira de Letras em 14 de setembro de 2026.
Courtney Henning Novak segura a edição em inglês de Memórias Póstumas de Brás Cubas no vídeo que viralizou em 2024. Reprodução/TikTok (@courtneyhenningnovak).
Courtney Henning Novak, escritora e booktoker americana de Pasadena, na Califórnia, visitou a Academia Brasileira de Letras (ABL) na manhã de 14 de setembro de 2026, entre 9h e 10h30. Ela percorreu a biblioteca, o Espaço Machado de Assis e o arquivo da instituição, onde viu cartas e o manuscrito original de Memorial de Aires, segundo o relato oficial da ABL.
A visita não caiu do céu. Foi Courtney quem, em maio de 2024, gravou um vídeo perguntando por que ninguém tinha avisado que Memórias Póstumas de Brás Cubas era o melhor livro já escrito no mundo, e o clipe viralizou entre brasileiros até empurrar a tradução em inglês do romance de Machado de Assis para a lista dos mais vendidos da Amazon, como registrou a VEJA Rio.
Dá pra confirmar sem medo: Courtney Henning Novak existe, o vídeo de 2024 sobre Machado de Assis viralizou, ajudou a esgotar a tradução do livro na Amazon, e a visita dela à Academia Brasileira de Letras em 14 de setembro está registrada pela própria instituição e por veículos como a VEJA Rio.
Ver o vídeo de @courtneyhenningnovak no TikTok
Quem é Courtney Henning Novak, a americana que "descobriu" Machado de Assis
Courtney Henning Novak não é celebridade de novela nem autora best-seller: ela é uma escritora e blogueira de Pasadena, na Califórnia, que começou a ler um livro de cada país do mundo, em ordem alfabética, depois de um período de esgotamento no trabalho e problemas de família. O projeto se chama Read Around the World, e ela publica cada leitura em vídeos curtos no TikTok e no Instagram.
Quando chegou a letra B, era a vez do Brasil. Ela escolheu Memórias Póstumas de Brás Cubas quase sem esperar nada do livro, e terminou a leitura perguntando, direto para a câmera, por que ninguém tinha avisado que aquele era o melhor livro já escrito no mundo. A frase virou print, virou meme e abriu a porta para tudo que veio depois.
Por que a tradução de Brás Cubas esgotou na Amazon?
O vídeo de maio de 2024 tem hoje 408 mil visualizações, 71,4 mil curtidas e mais de 1.200 comentários só nessa publicação, sem contar as repostagens e os vídeos de reação que brasileiros fizeram depois. Foi esse volume de gente comprando o livro por causa de uma booktoker que ninguém no Brasil conhecia que empurrou a edição em inglês do romance para o topo da lista de mais vendidos da Amazon.
A procura pegou a editora de surpresa: a tiragem da tradução esgotou em várias lojas americanas, conforme registrou a Academia Brasileira de Letras ao comentar a repercussão. Courtney não parou por aí, seguiu lendo outros clássicos brasileiros e hoje também fala sobre novela e comida brasileira para quem a segue.
Capitu traiu ou não traiu?
Depois de Brás Cubas, ela foi direto para Dom Casmurro, o outro grande romance de Machado de Assis, e entrou sem querer numa briga que os brasileiros discutem há mais de um século. Courtney publicou a opinião de que Capitu não traiu Bentinho, antes mesmo de ler qualquer crítica sobre o livro, segundo Brasil Paralelo.
A opinião dela é só mais uma voz num debate que nunca teve resposta oficial, porque Machado nunca revelou a verdade sobre Capitu no próprio livro. Mas o fato de uma leitora americana, lendo o romance pela primeira vez, cair de cabeça nessa discussão mostra o quanto ela levou a literatura brasileira a sério.
O que os brasileiros estão comentando sobre a visita
Desde que o vídeo sobre Brás Cubas viralizou, os comentários brasileiros nas redes de Courtney mudaram de figura: em vez de corrigir o inglês ou zoar o sotaque, seguidores passaram a indicar outros clássicos e a comemorar cada novo livro nacional que ela anuncia, como descreveu a Aventuras na História. O comentário mais recorrente, segundo o relato publicado, é de gente perguntando quando ela vai ler Clarice Lispector.
Courtney já respondeu essa pergunta: leu, e descreveu a autora como alguém engraçada "à sua maneira", mais sombria, usando a gramática quase como se fosse feitiçaria. Ela também confessou que ficou viciada na novela Avenida Brasil enquanto praticava português, e chegou a dizer que a vilã da trama faz "as outras madrastas malvadas parecerem santas".
Dentro da Academia Brasileira de Letras: a sala, a biblioteca e o arquivo de Machado
A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897 por Machado de Assis, que presidiu a instituição até morrer, em 1908. Foi lá que Courtney entrou na segunda-feira, 14 de setembro, a convite da própria ABL, para conhecer a biblioteca particular e o espaço dedicado ao escritor, incluindo cartas e o manuscrito original de Memorial de Aires, um dos últimos romances de Machado.
"Achei que estava apenas lendo Machado de Assis. Em vez disso, descobri o país de que minha alma precisava", disse Courtney durante a visita, segundo o relato publicado pela própria ABL. A frase resume o tom da passagem dela pelo Brasil: a visita veio na mesma semana em que ela também participou da Bienal do Livro de São Paulo, num painel sobre como influenciar pessoas a ler.
Nem todo mundo bateu palma pra essa história
Nem toda reação brasileira foi só orgulho. Pesquisadores e colunistas notaram que boa parte da euforia em torno de Courtney reproduz um padrão antigo: um livro brasileiro só "vale a pena" quando um estrangeiro aprova, como discute um artigo acadêmico publicado na revista Entretextos, da Universidade Estadual de Londrina, sobre o fenômeno.
Isso não muda o que já é fato: o vídeo existe, a tradução esgotou e a visita à ABL aconteceu. Mas ajuda a entender por que a repercussão dividiu opiniões além do entusiasmo. Machado de Assis já era considerado o maior escritor brasileiro décadas antes de qualquer booktoker americana abrir o livro dele.
Courtney agora mira Clarice Lispector e o resto da estante brasileira
Depois da ABL, Courtney segue no Brasil, entre a Bienal do Livro e as aulas de português que começou a fazer para acompanhar os clássicos no original. A lista de leitura dela já passou de Brás Cubas para Dom Casmurro e para Clarice Lispector, e os seguidores brasileiros seguem sugerindo o próximo nome. Quem quiser acompanhar outras histórias que viraram assunto no Brasil por motivo parecido pode conferir a trend dos anos 80 que tomou o feed e a história do motoboy que virou herói em Ibirité.
Ela não é a primeira estrangeira a se apaixonar por um escritor brasileiro, mas talvez seja a que fez mais gente reabrir Machado de Assis nos últimos anos, do mesmo jeito que aconteceu quando os números da Lotofácil da Independência viraram assunto nacional por outro motivo. Se um vídeo de dois minutos te fez pegar, ou repensar, Brás Cubas na estante, qual foi o livro brasileiro que você recomendaria pra ela ler agora?



